Igreja anglicana de Wye |
Olhámos de novo o mapa e descobrimos Wye, uma pequena
vila (será mesmo aladeia?) na junção dos rios Wye e Stour. Metemo-nos então a
caminho e passados 12 minutos estávamos a chegar a Wye.
O nome da vila deriva da palavra em inglês antigo
"Wēoh", que significa ídolo ou santuário. Pensa-se que terá sido um
local de adoração pré-cristã.
Wye tornou-se um importante centro de comunicações
devido a um vau que atravessa o rio Stour. Os romanos construíram uma estrada
entre Cantuária e Hastings. Foram encontrados vestígios de uma fábrica de ferro
na margem oeste do rio, desse período. Na época medieval, Wye tinha um mercado.
Em 1798, Edward Hasted descreveu Wye como “...uma
cidade bem construída, composta por duas ruas paralelas e duas transversais,
todas elas não pavimentadas. Tem uma grande área verde, construída em redor,
num dos lados da qual se situa a igreja e a universidade.”
No final do século XVIII, foi aberto um caminho que contornava
a aldeia pela margem oeste do rio Stour. A estação ferroviária de Wye foi
construída para a linha South Eastern Railway de Ashford a Margate e inaugurada
em 1 de dezembro de 1846.
Atualmente, é uma vila muito sossegada, escolhida por
muitas pessoas para aí viverem as suas reformas. Em 2013, os leitores do Sunday
Times votaram Wye como o terceiro melhor sítio para viver no Reino Unido.
A sua grande atração é, sem duvida, a Igreja Anglicana
de São Gregório e São Martinho. Inicialmente, a igreja foi dedicada somente ao
Papa Gregório Magno. São Martinho foi acrescentado por volta de 1475,
possivelmente para reconhecer o papel da Abadia de Battle, que era dedicada a
São Martinho e possuía o Solar de Wye.
A igreja tem uma longa história. Em 1290 foi aqui construída
uma grande igreja com uma enorme nave e uma capela-mor também muito grande. O
campanário tinha um pináculo, muito alto, de madeira revestido de chumbo. Desta
igreja inicial, apenas subsistem as paredes exteriores da nave
No século XV, o Cardeal Kempe fundou a universidade de
Wye, construiu os edifícios para a universidade funcionar e reconstruiu a
igreja. A porta principal passou a ser numa parede lateral para condizer com a
entrada da universidade. As paredes foram revestidas com superfícies planas de
sílex fendido. A estrutura mais forte suportava um clerestório e um telhado
fino.
Com a Reforma, em 1548, as imagens dos santos foram
proibidas nas igrejas. Tudo foi retirado e vendido. Sobreviveram a divisória entre
a nave e a capela-mor assim como os vitrais.
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O único vitral que ainda existe |
Só que com a chegada ao trono de uma rainha católica,
Maria, o culto e as tradições católicas foram reintroduzidas. Infelizmente, a
intolerância também. Richard Thornden, bispo de Dover, e Nicholas Harpsfield,
arquidiácono de Cantuária, mandaram queimar dez protestantes que se mantinham
fiel à sua fé, entre os quais John Philpot, de Tenterden, e Thomas Stephens, de
Biddenden, cujo auto-de-fé teve lugar junto ao portão da igreja, em janeiro de
1557. No ano seguinte, porém, subiu ao trono uma rainha anglicana, Isabel I, e
a religião protestante foi restabelecida.
As desgraças continuaram porém. Em 1572, o campanário
foi atingido por um raio e ardeu completamente, derretendo o revestimento de
chumbo do pináculo e danificando seriamente os cinco grandes sinos. De imediato
começaram as obras de reconstrução, que foram terminadas em 1579. Infelizmente,
o grande tremor de terra de 1580, com epicentro em Dover, fez estragos em muitos
edifícios, incluindo a igreja.
Em 1593, foram finalmente recolocados no seu lugar os
sinos danificados pelo incêndio e já reconstruídos.
Em 1628, o pináculo de madeira foi novamente
substituído, mas, devido ao peso dos sinos, desmoronou-se sessenta anos mais
tarde, destruindo grande parte da capela-mor e da nave e a maioria dos vitrais.
Entre 1700 e 1711, a igreja foi reconstruída na sua forma atual, mas bastante mais
pequena.
No nosso século, Wye voltou a ter direito a lugars nos
jornais, por causa do seu vigário, o Reverendo Ravi Holy. Antigo estudante da
escola de elite de Eton, foi alcoólico, toxicodependente, satanista, músico de
punk rock e membro de uma congregação pentacostal.
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Cemitério à volta da igreja |