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| Campo de colza |
Partir de Nantes rumo ao norte é iniciar uma viagem onde a paleta de cores da Normandia e do Vale do Loire se funde num espetáculo visual inesquecível. À medida que deixamos a cidade dos Duques da Bretanha, a paisagem transforma-se rapidamente numa sucessão de quadros impressionistas, dominados por uma cor vibrante: o amarelo elétrico da colza.
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| Campo de colza |
Durante a primavera, este percurso torna-se uma experiência quase hipnótica. Grandes extensões de campos de colza estendem-se até ao horizonte, criando mantos dourados que contrastam dramaticamente com o azul profundo do céu e o verde luxuriante das sebes tradicionais. Estas vistas panorâmicas de amarelo intenso não são apenas manchas na paisagem; são oceanos terrestres que ondulam ao sabor do vento, oferecendo paragens obrigatórias para qualquer entusiasta da fotografia.Ao atravessar a zona rural, o perfume suave das flores acompanha o viajante até à chegada à costa de Calvados.
A autoestrada passa pela floresta de Rennes. Situada às portas da capital bretã, é um pulmão verde de quase 3 000 hectares. Antigo domínio real, este maciço florestal é dominado por carvalhos e faias centenários, cujas copas criam catedrais naturais de luz e sombra.
A chegada à Normandia faz um contraste final, emocionante: a transição da vivacidade solar dos campos para a solenidade histórica das praias. Onde o amarelo cede lugar às areias douradas e ao mar esmeralda, resta a memória de um caminho percorrido entre a beleza serena da natureza francesa e o peso heroico da história.
Ponte Pegasus
Depois de termos deixado a nossa "tralha" no "gite" (casa de campo) que alugámos em Tour-en-Bessin, rumámos diretamente para Bénouville para vermos
um dos símbolos mais emblemáticos da audácia e do sucesso aliado à Operação
Overlord, o desembarque na Normandia em 6 de junho de 1944: a Ponte Pegasus,
originalmente chamada de ponte de Bénouville. Situada sobre o Canal de Caen, a
sua captura era vital para proteger o flanco leste das praias da invasão e
impedir que os reforços alemães isolassem as tropas britânicas.
A operação foi executada pela Companhia D do 2.º Batalhão de
Infantaria Ligeira de Oxfordshire e Buckinghamshire, sob o comando do
Major John Howard. Utilizando três planadores Horsa, os soldados realizaram uma
proeza de navegação silenciosa, aterrando a poucos metros do objetivo pouco
depois da meia-noite. Em apenas dez minutos, num combate rápido e feroz, a
ponte foi tomada. Esta foi a primeira unidade aliada a entrar em combate no Dia D. Foi nesta operação que ocorreu a primeira morte de um soldado aliado no Dia D por fogo inimigo (o Tenente Den Brotheridge).
O nome "Pegasus" foi atribuído em homenagem à
insígnia dos paraquedistas britânicos: o cavalo alado da mitologia grega. Hoje,
a ponte original repousa no museu local, tendo sido substituída por uma réplica
funcional em 1994. Ela permanece como um tributo à precisão militar e ao
sacrifício dos homens que "seguraram a ponte" até à chegada do resto
das forças aliadas.
Aqui encontrámos uma
jovem franco-americana, professora de línguas em Le Havre, e que anda a passear
de bicicleta. Assim que nos viu, saltou da bicicleta e ofereceu-se para nos
tirar fotografias, falando um pouco sobre a sua vida na Normandia. Um encontro
muito interessante!
Esta ponte foi o cenário de uma das operações de comandos mais precisas e
bem-sucedidas da história militar: a nissão Operação Deadstick. O objetivo era capturar intactas duas pontes sobre o Canal de Caen e o Rio Orne e, assim, impedir que os reforços blindados alemães chegassem às praias de
desembarque (especialmente Sword Beach) e garantir uma rota de saída para
as tropas aliadas que avançavam para o interior.
Liderados pelo Major John Howard, 181 homens da Companhia D da Infantaria
Ligeira de Oxfordshire e Buckinghamshire chegaram em seis planadores
Horsa.
A operação é frequentemente citada como um exemplo perfeito de surpresa e
precisão. A aterragem foi cirúrgica. Os pilotos dos planadores conseguiram aterrar a poucos metros
do objetivo, no escuro total, em silêncio absoluto.
A estrutura original que se vê em filmes como O Dia Mais Longo já não
está sobre o canal, mas ainda pode ser visitada. Em 1994, a ponte original foi substituída por uma nova (ligeiramente maior
para acomodar o tráfego moderno). A ponte original de 1944 foi preservada
e está exposta nos jardins do Memorial Pegasus, em Ranville-Bénouville.
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| Café Gondré |
Mesmo ao lado da ponte, este café foi a primeira casa na França
continental a ser libertada. A família Gondrée ainda o gere hoje, servindo
como um pequeno museu informal e local de peregrinação para veteranos.
Ouistreham
Daqui seguimos para Ouistreham, uma cidade costeira famosa pelo seu papel crucial no Dia D como parte da Sword Beach. Ela é particularmente importante para nós porque está diretamente ligada à
história da Ponte Pegasus.
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| Sword Beach |
A praia estende-se por 8 km, de Lion-sur-Mer até Ouistreham. A 3ª Divisão de Infantaria Britânica, apoiada por unidades de
comandos, desembarcou aqui. Foi a única praia onde desembarcaram tropas francesas no primeiro dia — os
famosos Comandos Kieffer (177 fuzileiros navais franceses livres, liderados por Philippe Kieffer), que
tinham como missão específica libertar a cidade de Ouistreham.
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| Philippe Kieffer |
É aqui que está o monumento A Chama, localizado sobre um antigo bunker alemão, diretamente na praia, oferece uma vista direta para a área de desembarque, pois situa-se no local exato onde as tropas francesas e britânicas iniciaram a libertação da cidade.
Os nomes de todos os 177 soldados franceses que participaram na operação estão gravados no metal da chama. O acesso é ladeado por dez pedras que ostentam os nomes dos comandos que perderam a vida durante os combates nesta zona.
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Esta praia era a "âncora" da invasão. Se Sword falhasse, o flanco esquerdo
dos Aliados ficaria exposto a um contra-ataque direto das divisões Panzer
alemãs.
Enquanto
os paraquedistas e comandos de planador tomavam a
Ponte Pegasus durante a noite, as tropas que desembarcavam em Sword tinham
o objetivo de avançar rapidamente pelo interior para reforçá-los. Por volta
das 13h00, os comandos britânicos, liderados por Lord Lovat, atravessaram
a Ponte Pegasus ao som da gaita de fole de Bill Millin, unindo as tropas
que vinham do mar com as que tinham caído do céu.
Embora o desembarque na praia tenha sido relativamente bem-sucedido (com
cerca de 630 baixas, um número baixo comparado a Omaha), o avanço seguinte foi
difícil. O plano era capturar a cidade estratégica de Caen ainda no dia
6 de junho. Os britânicos encontraram a 21ª Divisão Panzer alemã, a única unidade de
tanques que conseguiu lançar um contra-ataque organizado no próprio Dia D. Ou seja, Caen, que deveria cair em horas, demorou mais de um mês de combates
sangrentos para ser totalmente libertada.
Na Praia Sword, os britânicos usaram em massa os tanques especializados
conhecidos como Hobart's Funnies. Eram tanques modificados para lançar
pontes, destruir
campos minados (tanques com correntes batendo no chão) e atuar
como lança-chamas. Essas invenções foram cruciais para limpar rapidamente os
obstáculos da "Muralha do Atlântico" (a linha de fortalezas/bunkers alemães ao longo de toda a costa, cujo principal objetivo era impedir uma invasão dos Aliados à Europa continental a partir de solo britânico).
O Grande BunkerO Le Grand Bunker - Museu do Muro do Atlântico é a principal atração histórica da cidade. Este antigo posto de comando alemão, com 17 metros de altura, foi meticulosamente restaurado para mostrar como era a vida e a operação militar durante a ocupação.
O museu está distribuído por cinco pisos, recriando fielmente salas de geradores, centros de transmissão de rádio, enfermarias e o posto de observação no topo.
Apresenta uma vasta coleção de uniformes, armas e objetos quotidianos dos soldados, além da famosa barcaça de desembarque "PA 13-4" utilizada no filme "O Resgate do Soldado Ryan".
Do topo do bunker, temos uma visão estratégica de toda a costa, a mesma que os oficiais alemães tinham enquanto vigiavam o Canal da Mancha.
Daqui seguimos para a Praia Juno (Juno Beach), o setor de responsabilidade das forças canadianas
durante o Dia D. Situada entre as praias britânicas de Gold e Sword, Juno é
recordada como um dos campos de batalha mais ferozes e sangrentos daquela
manhã, superada em baixas apenas pela infame Praia Omaha.
Enquanto os EUA e o Reino Unido levavam a maior parte da atenção mediática,
o Canadá desempenhou um papel vital. A 3ª Divisão de Infantaria Canadiana e a 2ª Brigada Blindada Canadiana
foram as pontas de lança. Devido ao mar agitado e à presença de recifes rochosos, os canadianos
desembarcaram cerca de 15 a 30 minutos mais tarde do que o planeado. Ou seja, a maré já estava mais alta, escondendo os obstáculos minados colocados
pelos alemães na areia. Muitos barcos de desembarque foram destruídos
antes mesmo de os soldados chegarem à costa.
Ao contrário de outros setores onde os bombardeios navais e aéreos
destruíram as defesas, em Juno a Muralha do Atlântico permaneceu quase intacta. Os alemães não tinham as metralhadoras apontadas para o mar, mas sim ao
longo da praia. Quando os canadianos saíram dos barcos,
entraram diretamente em corredores de fogo cruzado. Juno incluía cidades costeiras como Courseulles-sur-Mer. Os soldados
tiveram de lutar casa a casa para neutralizar os atiradores de elite e
ninhos de metralhadoras.
Apesar do início catastrófico, o desempenho dos canadianos foi
extraordinário. No final de 6 de junho, as tropas de Juno tinham avançado mais para o
interior do que qualquer outra força aliada no Dia D, mas com um alto custo . O Canadá sofreu cerca de 1 074 baixas (incluindo 359
mortos) em apenas algumas horas.
Um dos soldados que desembarcou em Juno foi James Doohan, que mais tarde
ficaria famoso mundialmente como o "Scotty" da série original de Star
Trek. Ele foi ferido por seis tiros (amigáveis, num acidente de sentinela)
na noite do Dia D, perdendo um dedo médio, que ele costumava esconder durante
as filmagens da série.
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| Arromanches-les-Bains |
Bem perto, está a vila de Arromanches-les-Bains. Aqui podem ver -se os restos do Porto Mulberry
(porto artificial) no mar. Se a Ponte Pegasus foi uma obra-prima de tática militar, o Porto
Mulberry foi o maior triunfo da engenharia da Segunda Guerra Mundial. Imagine-se o desafio: os Aliados precisavam de desembarcar milhares de
toneladas de mantimentos, tanques e munições todos os dias, mas os alemães
controlavam todos os portos franceses (e tinham-nos fortificado fortemente). A
solução de Churchill foi audaciosa: "Se não podemos capturar um porto,
vamos levar o nosso."
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"Baleias"
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| Phoenix na maré baixa (esquerda) e na maré alta (direota) |
Tivemos a sorte a chegar na maré baixa, quando é possível caminhar até alguns dos enormes blocos de cimento (chamados de caixões Phoenix) que ficaram encalhados na areia. No mar, ainda se avista o semicírculo formado por estas estruturas, que serviam como quebra-mares.Como funcionava esta "cidade flutuante"? Os Portos Mulberry eram dois portos artificiais pré-fabricados na
Inglaterra, rebocados através do Canal da Mancha e montados na Normandia logo
após o Dia D: Mulberry
A, instalado na Praia Omaha (setor americano), e Mulberry
B, instalado em Arromanches (setor britânico/Gold Beach), também conhecido
como "Port Winston".
O porto não era apenas uma peça, mas um sistema complexo de componentes, tipo Lego gigante, com
nomes de código curiosos:
- Phoenix:
Enormes caixotões de betão (do tamanho de prédios de 5 andares) que eram
afundados para criar um quebra-mar fixo.
- Gooseberries:
Navios antigos que foram deliberadamente afundados para ajudar a acalmar
as águas.
- Whales
(Baleias): Estradas flutuantes de aço que subiam e desciam com a maré,
permitindo que os camiões dirigissem do navio até à areia.
- Beetles
(Besouros): Os flutuadores de betão que sustentavam as estradas
"Baleias".
Apenas duas semanas após o Dia D, uma tempestade violenta (a pior em 40
anos) atingiu o canal. O
Mulberry A (americano) foi quase totalmente destruído pela tempestade. Os
americanos decidiram abandoná-lo e continuar a descarregar diretamente na
areia. O
Mulberry B (Arromanches) resistiu melhor e tornou-se a "espinha
dorsal" da logística aliada. Durante 10 meses, serviu para
desembarcar mais de 2,5 milhões de soldados, 500 mil veículos e 4 milhões de
toneladas de provisões. Sem este porto, os Aliados teriam ficado sem combustível e munições muito
rapidamente, especialmente porque os alemães praticavam a política de
"terra queimada" nos portos que abandonavam. O
Mulberry permitiu manter o ritmo da invasão até que os portos franceses fossem
recuperados e reparados.
O desafio era enorme: na
Normandia, a maré pode subir e descer até 7 metros. Se a estrada fosse fixa,
ficaria submersa ou pendurada no ar.
As estradas (Baleias) não eram blocos rígidos, mas sim secções de aço de cerca de 24
metros cada, ligadas por juntas flexíveis (semelhantes às de um comboio, mas
com movimento em todos os eixos). Isso permitia que a estrada se curvasse e acompanhasse o movimento das
ondas sem partir. Por baixo de cada junção da estrada, havia
flutuadores chamados (Besouros) (Beetles). Alguns eram de aço, mas a maioria era
de betão para economizar metal. Garantiam que a estrada
estivesse sempre ao nível da água.
O ponto onde os navios encostavam era a parte mais engenhosa. Eram
plataformas maciças com quatro pernas de aço gigantescas. Quando a plataforma chegava ao local, as pernas eram baixadas até tocarem
o fundo do mar. A plataforma em si tinha um sistema de macacos
hidráulicos que permitia que ela "deslizasse" para cima e para
baixo nas pernas conforme a maré subia ou descia, mas mantendo-se sempre
estável e nivelada para os camiões.
O Museu de Arromanches
(Musée du Débarquement)
Este museu é paragem obrigatória porque foi construído exatamente em frente
ao local onde o porto funcionou. O destaque do museu é uma maquete mecânica enorme que demonstra
exatamente o movimento das marés e como os componentes Phoenix, Whales
e Spud Piers (pontoes de descarga) trabalhavam em conjunto. Perto do museu, há um cinema circular - Cinema Arromanches 360 - que projeta imagens
de arquivo em 360 graus, mostrando o porto em plena operação em 1944. É
uma experiência muito imersiva.
Jantámos em Arromanches-les-Bains. E o quê? Obviamente... mexilhões com batatas fritas.