segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Rye, das sombras do contrabando ao mágico Festival dos Piratas

Uma das portas da cidade

Nas vielas de paralelepípedos e sob as fachadas enxaimel da pitoresca cidade costeira de Rye, em East Sussex, a história não está apenas escrita nos livros — respira-se no próprio ar. Durante séculos, esta joia medieval foi muito mais do que um porto tranquilo: tornou-se o epicentro de uma rede clandestina de pirataria e contrabando que desafiou a coroa britânica e moldou a identidade cultural de toda a região do sudeste inglês.

Uma das ruas de Rye

Entre os séculos XVII e XVIII, Rye viveu a sua era dourada de fora-da-lei. A sua localização geográfica privilegiada, com acesso direto ao Canal da Mancha e rodeada pelos labirínticos e nevoentos pântanos de Romney Marsh, oferecia o esconderijo perfeito para os audazes mercadores do mercado negro. Bandos infames, como o célebre Hawkhurst Gang, dominavam a zona com pulso de ferro. Tabernas históricas como a emblemática Mermaid Inn funcionavam como quartéis-generais abertos, onde contrabandistas armados bebiam abertamente até de madrugada, enquanto o chá, o sabão, a seda e, acima de tudo, o rum e o brandy eram descarregados na calada da noite e escondidos numa vasta rede de túneis secretos que ainda hoje atravessam o subsolo da cidade.



Piratas


No passado dia 8 de agosto, contudo, as velhas lendas ganharam vida de uma forma espetacular. Rye transformou-se no palco do seu célebre Festival de Piratas e Contrabandistas, uma celebração vibrante e teatral que atraiu multidões e devolveu à cidade a sua aura rebelde, mas desta vez imbuída de uma dose contagiante de festa, cor e humor.

Desfile de piratas


As ruas históricas foram invadidas por centenas de pessoas rigorosamente mascaradas de piratas. Chapéus de três pontas, lenços coloridos, casacos de veludo puído e espadas de madeira compunham o cenário de uma autêntica invasão bucaneira. O entusiasmo dos participantes era palpável, mas foram os pormenores mais insólitos e autênticos que roubaram verdadeiramente a atenção e os sorrisos do público.

Desfile de piratas


Entre a multidão sobressaiu um homem que levou o realismo da sua caraterização a um nível inusitado: caminhava orgulhosamente pelas ruas com uma galinha verdadeira pousada serenamente no ombro, provocando gargalhadas e olhares de espanto por onde passava. Pouco mais à frente, como se tivesse saído diretamente das páginas de A Ilha do Tesouro de Robert Louis Stevenson, outro participante encarnou a tradição clássica dos mares da forma mais pura: ostentava uma genuína perna de pau e trazia ao ombro um papagaio verdadeiro, cujas cores exuberantes e chilreio animado fascinavam crianças e adultos.

Pirata da perna de pau


Para além do espetáculo visual e do entretenimento, a realização destes festivais temáticos assume um papel vital para a sustentabilidade da região. Eventos de grande escala como o festival do dia 8/8 atraem milhares de visitantes, tanto locais como turistas internacionais, funcionando como um motor fundamental para a dinamização da economia local.

Um edifício histórico


Em cidades históricas de pequena dimensão como Rye, o afluxo massivo de visitantes injeta capital direto no comércio tradicional. Os hotéis, bed & breakfasts e pousadas locais registam taxas de ocupação máximas, enquanto os pubs históricos, restaurantes e cafés trabalham ininterruptamente para responder à procura. Para além da restauração e alojamento, os pequenos artesãos, lojas de antiguidades e comércios independentes beneficiam imensamente do aumento de tráfego pedonal nas ruas. O turismo cultural e de reconstituição histórica converte, assim, o património imaterial e as lendas do passado num ativo financeiro muito real e necessário para o presente.

Pub


Estes eventos funcionam também como uma plataforma incomparável de promoção territorial. A visibilidade gerada pelas fotografias partilhadas nas redes sociais — desde o pirata com a galinha ao homem da perna de pau — coloca Rye no mapa do turismo global, incentivando viagens de regresso ao longo de todo o ano. Trata-se de uma simbiose perfeita entre a preservação da identidade cultural e o desenvolvimento económico sustentável.

O festival de 8/8 provou que a ligação de Rye ao seu passado de contrabando e pirataria continua bem viva. Mais do que uma simples recriação histórica, o evento celebrou a alma rebelde e a rica herança cultural da cidade, demonstrando que, em Rye, as histórias de corsários e tesouros escondidos nunca saem de moda — e que há sempre espaço para um pouco de loucura, comunidade e prosperidade à beira-mar.



Greenwich: onde o tempo ganha vida e a História desemboca no Tamisa

 


O grande relvado de Greenwich, visto do Observatório. Ao fundo Londres

Há lugares em Londres onde o ritmo acelerado da metrópole simplesmente se dissipa, dando lugar a uma atmosfera de refúgio clássico. Greenwich é precisamente esse lugar. Situado na margem sul do Rio Tamisa, a pouca distância do centro financeiro de Canary Wharf, este bairro marítimo consegue a proeza de combinar a grandiosidade da herança real britânica com o charme descontraído de uma vila histórica. Reconhecido como Património Mundial pela UNESCO, Greenwich é muito mais do que a linha imaginária que divide o planeta entre Leste e Oeste: é um destino onde a ciência, a navegação e a arquitetura se cruzam a cada esquina.

Para quem visita Londres, uma escapadela a Greenwich oferece um contraste bem-vindo em relação às zonas mais frenéticas do West End. Quer escolha chegar de barco pelo Tamisa ou através do comboio ligeiro DLR, o momento em que se desembarca nesta zona marca a entrada num cenário onde o passado marítimo do Reino Unido permanece bem vivo.

 

O Ponto de Partida: O Cutty Sark e a Tradição Marítima

O famoso Cutty Sark


Logo ao chegar junto ao rio, o olhar é inevitavelmente atraído pelas grandes e imponentes colunas de madeira do Cutty Sark. Este lendário clipper do século XIX é o único sobrevivente do seu género no mundo e foi, no seu tempo de glória, a embarcação mais rápida a transportar chá entre a China e o Reino Unido.

Hoje, a nave encontra-se suspensa numa estrutura envidraçada que permite aos visitantes caminhar diretamente por baixo do seu casco de cobre. Subir aos convés e explorar o interior do navio oferece uma viagem imersiva ao quotidiano dos marinheiros da época vitoriana, revelando como o comércio marítimo moldou as rotas e os hábitos do globo.

A escassos passos do Cutty Sark fica a entrada para o National Maritime Museum, um dos maiores museus do género a nível mundial. Com entrada gratuita na sua exposição permanente, o museu alberga uma coleção impressionante de mapas antigos, instrumentos de navegação e relíquias de batalhas navais, incluindo o casaco que o Almirante Nelson usava quando foi mortalmente ferido na Batalha de Trafalgar.



Elegância Barroca: O Old Royal Naval College

Avançando ao longo da margem, depara-se com o complexo arquitetónico do Old Royal Naval College. Projetado pelo prestigiado arquiteto Sir Christopher Wren — o mesmo responsável pela Basílica de São Paulo —, este conjunto de edifícios gémeos representa uma das maiores obras-primas do barroco britânico.

O verdadeiro tesouro deste complexo reside no interior do Painted Hall. Frequentemente apelidado de "Capela Sistina de Londres", este salão impressiona com mais de 3700 metros quadrados de superfícies pintadas à mão por Sir James Thornhill ao longo de 19 anos. Os tetos e paredes retratam figuras da mitologia, reis e rainhas, celebrando a prosperidade e a potência marítima da Grã-Bretanha no início do século XVIII. Uma visita a este espaço é uma experiência visual avassaladora, onde a luz natural destaca os detalhes dourados e as cores vibrantes do fresco.

Nas imediações encontra-se também a Queen’s House, concebida por Inigo Jones. Este palácio, de linhas puras e simétricas inspiradas no renascimento italiano, foi a primeira construção abertamente clássica em Inglaterra e abriga hoje uma valiosa galeria de arte.

O Meridiano de Greenwich e a Ciência do Tempo



Subindo suavemente a colina através do relvado verdejante do Greenwich Park — um dos Parques Reais mais antigos da capital —, alcança-se o topo onde se ergue o grande cartão de visita de Greenwich, o Observatório Real. Fundado no século XVII pelo Rei Carlos II, este foi o centro nevrálgico da astronomia e da navegação britânica.

É aqui que se encontra o famoso Meridiano de Greenwich (Longutide 0°). Os visitantes têm a oportunidade única de colocar um pé no Hemisfério Ocidental e outro no Hemisfério Oriental, marcando o ponto exato a partir do qual todos os fusos horários do planeta são calculados.

A linha do Meridiano de Greenwich


Dentro do observatório, a história da medição do tempo ganha vida através dos cronómetros marítimos desenvolvidos por John Harrison no século XVIII. Estes relógios de precisão resolveram o histórico problema da determinação da longitude no mar, salvando milhares de vidas e revolucionando a navegação internacional. No exterior, destaca-se a bola do tempo vermelha no topo da Flamsteed House, que cai diariamente às 13:00 desde 1833, permitindo outrora aos marinheiros no Tamisa acertarem os seus cronómetros antes de fazerem para o mar.

Para além do interesse científico, o topo da colina do Observatório oferece uma das vistas mais deslumbrantes e fotografadas de Londres: o contraste perfeito entre a arquitetura clássica da Queen's House em primeiro plano e os arranha-céus modernos de Canary Wharf ao fundo.

O Observatório visto da parte inferior do grande relvado de Greenwich



Sabores, Antiguidades e Gastronomia Local

Depois de explorar os monumentos históricos, nada se compara a uma descida até ao centro da vila para mergulhar na energia do Greenwich Market. A funcionar desde o século XIV, este mercado coberto vitoriano é o local ideal para descobrir artesanato local, joalharia independente, vestuário vintage e antiguidades únicas.

O mercado é igualmente um paraíso para os apreciadores de gastronomia. As bancas de comida de rua servem especialidades de todos os cantos do mundo,  desde caris indianos a crepes franceses, passando por pratos tradicionais britânicos.

Para quem prefere uma refeição mais calma, as ruas circundantes estão repletas de pubs históricos com esplanadas viradas para o rio, perfeitos para provar um tradicional Fish and Chips acompanhado por uma cerveja artesanal.




Informações Práticas para a Sua Visita

Para planear a sua viagem até Greenwich da melhor forma, considere as seguintes recomendações:

Como Chegar:

  • Uber Boat by Thames Clippers: A forma mais cénica de viajar. Os barcos saem do centro de Londres (como Westminster ou Tower Pier) e deixam os passageiros diretamente no cais de Greenwich.
  • DLR (Docklands Light Railway): Apanhe o comboio na estação de Bank ou Tower Gateway e saia em Cutty Sark for Maritime Greenwich.
  • Comboio: Ligação rápida a partir das estações de London Bridge ou Cannon Street até à estação de Greenwich.

 

Dicas de Viagem:

  • Reserve pelo menos um dia inteiro para explorar Greenwich ao seu próprio ritmo.
  • A entrada no Greenwich Park, no National Maritime Museum e na Queen's House é gratuita.
  • O acesso ao Cutty Sark, ao Painted Hall e ao Pátio do Meridiano no Observatório Real requer bilhete pago, sendo recomendável a compra antecipada online.

 

Greenwich representa o equilíbrio ideal entre a profundidade histórica e o estilo de vida cosmopolita de Londres, garantindo uma experiência enriquecedora a qualquer viajante.

 

domingo, 2 de agosto de 2026

Uma Visita à Villa Romana da Horta da Torre

 


Há visitas ao património que se gravam na memória não apenas pelo interesse histórico, mas pela experiência humana que as envolve. A nossa jornada até à Villa Romana da Horta da Torre, em Cabeço de Vide, concelho de Fronteira, foi precisamente um desses momentos inesquecíveis, onde o passado romano e o presente da investigação arqueológica se entrelaçaram de forma inesperadamente literal.

 A nossa chegada ao sítio arqueológico teve todos os ingredientes de uma autêntica aventura de verão no Alentejo. O calor escaldante fazia-se sentir com rigor e a viagem prosseguia por um caminho de terra batida. A meio do trajeto, com uma generosidade que reflete a sua paixão pelo acolhimento e pela divulgação científica, o arqueólogo responsável pelas escavações, o professor André Carneiro, veio ao nosso encontro de carrinha para nos guiar e poupar à caminhada sob o sol inclemente.

Contudo, o terreno pregou-nos uma partida. Ao tentar fazer uma inversão de marcha no caminho poeirento, a carrinha acabou por ficar com uma das rodas suspensa no ar, sem qualquer adesão à terra.

Com trabalho de equipa, a carrinha conseguiu avançar

Apesar dos nossos esforços iniciais para resolver o problema, a viatura recusava-se a mover. A nossa salvação surgiu sob a forma de três estudantes de arqueologia, que interromperam o seu trabalho de escavação e vieram em nosso auxílio empunhando as suas picaretas. Num esforço de equipa notável — entre muita força braçal, entreajuda, pedregulhos debaixo das rodas e densas nuvens de pó —, conseguimos finalmente libertar a carrinha.

 

Estudantes portugueses e internacionais participam na campanha de escavações

A Villa Romana da Horta da Torre tem vindo a ser revelada graças à liderança e ao rigor científico do Professor André Carneiro, da Universidade de Évora. O trabalho ali desenvolvido é um exemplo de dedicação, funcionando através de duas campanhas anuais de escavação, com a duração de duas semanas cada, onde estudantes de História e Arqueologia trocam as férias pelo trabalho árduo de campo.





Num panorama onde a arqueologia em Portugal enfrenta frequentemente a escassez de apoios institucionais, o projeto subsiste muito graças ao amor à camisola, a carolice e também à cooperação local. A Câmara Municipal de Fronteira assegura a cedência da carrinha de apoio, garante o alojamento dos jovens estudantes no Centro de Estágios de Fronteira e fornece as refeições diárias à equipa.

 

A arquitetura da opulência: o luxo romano no interior alentejano

Ao caminhar pelas ruínas, torna-se claro que a Villa da Horta da Torre não era uma simples exploração agrícola rústica, mas sim uma residência senhorial de um dominus de elevadíssimo estatuto social. O complexo apresenta características arquitetónicas verdadeiramente únicas no contexto hispano-romano.

A villa destaca-se por uma sala de banquetes cenográfica articulada com um nymphaeum (sistema de espelho d'água). A água fluía continuamente por espaços cénicos, arrefecendo a temperatura ambiente durante o verão e proporcionando um ambiente relaxante de ostentação visual e sonora para os convidados.

A estrutura do stibadium / nymphaeum 

Enquanto no período romano clássico o habitual era o triclinium (composto por três sofás retangulares dispostos em forma de "U" em redor de uma mesa), na Antiguidade Tardia o stibadium, uma espécie de divã semicircular,  tornou-se o elemento central da ostentação social. Outro ponto que torna a arquitetura da sala fascinante é exatamente o stibadium que estava integrado nesta divisão com um nymphaeum (espelho d'água), permitindo que os nobres jantassem deitados enquanto apreciavam o som e o arrefecimento da água a correr logo atrás deles.

As paredes e pavimentos estavam cobertos por elegantes placas de mármore, muitas delas extraídas das prestigiadas pedreiras locais de Estremoz e Vimieiro, formando padrões geométricos luxuosos. Além disso, os fragmentos de estuque pintado resgatados do solo revelam pigmentos vivos, indicando uma decoração pictórica rica que cobria as abóbadas e paredes dos aposentos nobres.



O grande peristilo da Villa da Horta da Torre funcionava como o coração monumental do complexo residencial. Este pátio central colunado articulava a circulação entre os aposentos nobres, as termas e a área de receção, promovendo a luz natural, a ventilação e a ostentação arquitetónica típica do luxo rural romano tardio.

O grande peristilo

A villa contava ainda com um complexo termal com um sofisticado sistema de piso suspenso onde o ar quente, alimentado por fornos (praefurnia), circulava para aquecer o caldarium (sala quente) e o tepidarium (sala morna).

Esta arquitetura sumptuosa no interior do Alentejo desafia as perspetivas tradicionais sobre o mundo rural hispano-romano, provando que as elites provinciais investiam somas avultadas para replicar o luxo urbano no coração do campo.

Tão fascinante como a arquitetura monumental é a informação retirada das lixeiras domésticas romanas (depósitos de detritos ou lixeiras de cozinha). O estudo zooarqueológico dos ossos de animais, a carpologia (análise de sementes carbonizadas) e o estudo dos fragmentos permitem traçar um retrato detalhado do estilo de vida e da alimentação dos domini. Assim, no que respeita à proteína animal de elite, os achados revelam a presença de ossos de gado doméstico (vaca, porco), mas também de veado, javali e coelho. A consumo de caça maior e menor funcionava como um claro indicador de prestígio, representando um privilégio e um passatempo de lazer reservado às elites.

Surpreendentemente, foram também identificados recursos marinhos, tais como conchas de ostras, mexilhões e espinhas de peixe. Estes achados provam a existência de rotas comerciais eficientes capazes de transportar marisco fresco e produtos como o garum desde a costa até ao interior alentejano.

Por fim, o estudo da cerâmica importada, através do achado de fragmentos de terra sigillata e ânforas, demonstra que, embora os alimentos pudessem ser confecionados localmente, eram acompanhados por azeites, vinhos e louças finas importados de diversas regiões do Império Romano.












 

A partir do século V d.C., com a desestruturação do Império Romano, a villa perdeu o seu esplendor original. O espaço residencial sofreu reutilizações pragmáticas durante os períodos visigótico e islâmico, até ser progressivamente soterrado pelo tempo.

 

Classificada como Sítio de Interesse Público, a Villa Romana da Horta da Torre é hoje um testemunho vivo do património nacional. Visitar este local é testemunhar o encontro fascinante entre a monumentalidade de uma civilização que, há cerca de milénio e meio, transformou a paisagem alentejana num cenário de luxo e engenharia hidráulica, e a dedicação da sociedade atual na sua salvaguarda.

Na nossa visita, pudemos contemplar a memória da Roma Antiga e, por outro, admirar a força e o empenho de uma dezena de estudantes de História e dos seus orientadores que, contra a escassez de recursos, o calor escaldante — e até empurrando carrinhas atoladas se preciso for —, continuam, dia a dia, a devolver à luz a nossa história. E, quem quiser ficar com uma ideia de como seria esta villa, pode espreitar aqui: https://youtu.be/0zyEanG9aVk?is=bqKZgeScPr2CvlK7

domingo, 26 de julho de 2026

As ruínas da antiga fábrica de seca de bacalhau da Companhia Atlântica de Pesca

Ruína da fábrica de seca do bacalhau

Na Baía do Seixal com uma vista privilegiada para Lisboa, a restinga da Ponta dos Corvos guarda um dos segredos mais emblemáticos do património industrial da Margem Sul: as ruínas da antiga fábrica de seca de bacalhau da Companhia Atlântica de Pesca.

Vista de Lisboa a partir da Praia da Ponta dos Corvos

Mesmo atrás da calma Praia da Ponta dos Corvos veem-se gigantes de cimento esventrados, tanques antigos e esqueletos de estruturas cobertos por arte urbana. Longe da agitação das grandes áreas urbanas, este cenário foi durante quase meio século um dos grandes motores económicos da região e um marco fundamental da indústria piscatória nacional.

Instalada em 1947, a fábrica de seca de bacalhau da Companhia Atlântica de Pesca nasceu para responder à grande procura nacional de bacalhau. Durante o Estado Novo, o governo impulsionou a autossuficiência no consumo de bacalhau. O peixe era capturado nos mares frios da Terra Nova e Gronelândia e trazido salgado em navios da "Frota Branca". Quando regressavam a Portugal carregados de peixe salgado, o Seixal surgia como o porto de abrigo ideal para o seu processamento.

Tanque para a lavagem do bacalhau


Estacas para a seca do bacalhau


A Ponta dos Corvos oferecia as condições microclimáticas perfeitas: uma ponta de areia aberta, exposição solar contínua e a brisa constante do Estuário do Tejo. Nos momentos de pico de produção, a fábrica chegou a empregar cerca de 600 trabalhadores, em grande parte mulheres. O trabalho era árduo e minucioso: o bacalhau era lavado em grandes tanques e estendido manualmente em extensos campos de seca ao ar livre, compostos por redes e estacas que cobriam hectares de terreno, cujas ruínas ainda hoje se podem ver.

Com o passar das décadas, a chegada da seca industrial de ar quente e o desenvolvimento das tecnologias de congelação rápida tornaram o processo de seca tradicional ao sol obsoleto. A Companhia Atlântica de Pesca acabou por encerrar definitivamente as suas portas no início dos anos 1990, deixando para trás um vasto complexo industrial abandonado.

Além da seca do bacalhau, a Praia da Ponta dos Corvos tem mais histórias. Ao passear na praia, podemos encontrar grandes conchas, as conchas das ostras portuguesas (Magallana angulata, anteriormente Crassostrea angulata).

Desde os séculos XVII e XVIII, a qualidade excecional das ostras apanhadas no Tejo e na Baía do Seixal tornou-as num produto altamente cobiçado pelas elites e cortes do Norte e Noroeste da Europa (especialmente em França, Inglaterra e nos Países Baixos).

Para resistirem às longas viagens marítimas sem se estragarem, era utilizado um método engenhoso de conservação e transporte. As ostras eram cuidadosamente acomodadas em barris de madeira atestados com água do mar. Este método mantinha os moluscos vivos e frescos durante semanas de viagem até ao canal da Mancha e aos portos do mar do Norte. As ostras do Seixal ganharam fama de iguaria de luxo (Delikatessen), rivalizando e muitas vezes superando o prestígio das ostras nativas europeias (Ostrea edulis).

Um dos episódios mais célebres desta história ocorreu em 1868 com o navio francês Le Saint-Michel. Carregado com milhões de ostras portuguesas em barris e porões a caminho de Inglaterra, o barco foi apanhado por uma forte tempestade na costa francesa. Para evitar o naufrágio, o capitão teve de lançar toda a carga ao mar na região da Bacia de Arcachon.


Para surpresa de todos, as ostras portuguesas não só sobreviviam à tempestade como se aclimataram e reproduziram com enorme sucesso nas águas francesas. Como uma doença dizimara as ostras nativas de França na época, a ostra-portuguesa salvou literalmente a indústria ostreícola francesa, passando a ser cultivada massivamente em França durante décadas sob o nome de Huitre Portugaise.

Na Baía do Seixal, a apanha e criação de ostras dinamizou durante gerações a economia local. Apanhadores e ostricultores locais (muitas vezes em pequenas embarcações conhecidas como canoas ou batéis) trabalhavam nos bancos naturais de lodo e salinas do Tejo. O Seixal funcionava como um centro produtivo de excelência devido à riquíssima mistura de água doce das marés com a água salgada, que fornecia alimento abundante (fitoplâncton) para o crescimento rápido e sabor apurado das ostras.

Durante a segunda metade do século XX, o aumento da poluição industrial na bacia do Tejo e a proliferação de um vírus específico que afetou a Crassostrea angulata nos anos 1970 dizimaram praticamente os bancos naturais e interromperam a produção em grande escala na Baía do Seixal. Nas últimas décadas, com a melhoria substancial da qualidade da água do estuário e o investimento na aquacultura sustentável, a produção de ostras tem estado a renascer na região do Seixal e na Península de Setúbal, recuperando a tradição secular do cultivo deste famoso molusco.







O encerramento da fábrica da seca de bacalhau não significou o fim do local. Ao longo dos últimos anos, as ruínas sofreram uma transformação espontânea. Os  muros de cimento transformaram-se em telas para artistas de arte urbana, enquanto a vegetação  e as aves do sapal recolonizaram o espaço.

Visitar a Ponta dos Corvos é realizar uma dupla viagem: uma imersão na memória do trabalho árduo da pesca do bacalhau e um passeio num refúgio natural de rara beleza, local para observar aves aquáticas, como garças, flamingos e íbis pretas.