domingo, 2 de agosto de 2026

Uma Visita à Villa Romana da Horta da Torre

 


Há visitas ao património que se gravam na memória não apenas pelo interesse histórico, mas pela experiência humana que as envolve. A nossa jornada até à Villa Romana da Horta da Torre, em Cabeço de Vide, concelho de Fronteira, foi precisamente um desses momentos inesquecíveis, onde o passado romano e o presente da investigação arqueológica se entrelaçaram de forma inesperadamente literal.

 A nossa chegada ao sítio arqueológico teve todos os ingredientes de uma autêntica aventura de verão no Alentejo. O calor escaldante fazia-se sentir com rigor e a viagem prosseguia por um caminho de terra batida. A meio do trajeto, com uma generosidade que reflete a sua paixão pelo acolhimento e pela divulgação científica, o arqueólogo responsável pelas escavações, o professor André Carneiro, veio ao nosso encontro de carrinha para nos guiar e poupar à caminhada sob o sol inclemente.

Contudo, o terreno pregou-nos uma partida. Ao tentar fazer uma inversão de marcha no caminho poeirento, a carrinha acabou por ficar com uma das rodas suspensa no ar, sem qualquer adesão à terra.

Com trabalho de equipa, a carrinha conseguiu avançar

Apesar dos nossos esforços iniciais para resolver o problema, a viatura recusava-se a mover. A nossa salvação surgiu sob a forma de três estudantes de arqueologia, que interromperam o seu trabalho de escavação e vieram em nosso auxílio empunhando as suas picaretas. Num esforço de equipa notável — entre muita força braçal, entreajuda, pedregulhos debaixo das rodas e densas nuvens de pó —, conseguimos finalmente libertar a carrinha.

 

Estudantes portugueses e internacionais participam na campanha de escavações

A Villa Romana da Horta da Torre tem vindo a ser revelada graças à liderança e ao rigor científico do Professor André Carneiro, da Universidade de Évora. O trabalho ali desenvolvido é um exemplo de dedicação, funcionando através de duas campanhas anuais de escavação, com a duração de duas semanas cada, onde estudantes de História e Arqueologia trocam as férias pelo trabalho árduo de campo.





Num panorama onde a arqueologia em Portugal enfrenta frequentemente a escassez de apoios institucionais, o projeto subsiste muito graças ao amor à camisola, a carolice e também à cooperação local. A Câmara Municipal de Fronteira assegura a cedência da carrinha de apoio, garante o alojamento dos jovens estudantes no Centro de Estágios de Fronteira e fornece as refeições diárias à equipa.

 

A arquitetura da opulência: o luxo romano no interior alentejano

Ao caminhar pelas ruínas, torna-se claro que a Villa da Horta da Torre não era uma simples exploração agrícola rústica, mas sim uma residência senhorial de um dominus de elevadíssimo estatuto social. O complexo apresenta características arquitetónicas verdadeiramente únicas no contexto hispano-romano.

A villa destaca-se por uma sala de banquetes cenográfica articulada com um nymphaeum (sistema de espelho d'água). A água fluía continuamente por espaços cénicos, arrefecendo a temperatura ambiente durante o verão e proporcionando um ambiente relaxante de ostentação visual e sonora para os convidados.

A estrutura do stibadium / nymphaeum 

Enquanto no período romano clássico o habitual era o triclinium (composto por três sofás retangulares dispostos em forma de "U" em redor de uma mesa), na Antiguidade Tardia o stibadium, uma espécie de divã semicircular,  tornou-se o elemento central da ostentação social. Outro ponto que torna a arquitetura da sala fascinante é exatamente o stibadium que estava integrado nesta divisão com um nymphaeum (espelho d'água), permitindo que os nobres jantassem deitados enquanto apreciavam o som e o arrefecimento da água a correr logo atrás deles.

As paredes e pavimentos estavam cobertos por elegantes placas de mármore, muitas delas extraídas das prestigiadas pedreiras locais de Estremoz e Vimieiro, formando padrões geométricos luxuosos. Além disso, os fragmentos de estuque pintado resgatados do solo revelam pigmentos vivos, indicando uma decoração pictórica rica que cobria as abóbadas e paredes dos aposentos nobres.



O grande peristilo da Villa da Horta da Torre funcionava como o coração monumental do complexo residencial. Este pátio central colunado articulava a circulação entre os aposentos nobres, as termas e a área de receção, promovendo a luz natural, a ventilação e a ostentação arquitetónica típica do luxo rural romano tardio.

O grande peristilo

A villa contava ainda com um complexo termal com um sofisticado sistema de piso suspenso onde o ar quente, alimentado por fornos (praefurnia), circulava para aquecer o caldarium (sala quente) e o tepidarium (sala morna).

Esta arquitetura sumptuosa no interior do Alentejo desafia as perspetivas tradicionais sobre o mundo rural hispano-romano, provando que as elites provinciais investiam somas avultadas para replicar o luxo urbano no coração do campo.

Tão fascinante como a arquitetura monumental é a informação retirada das lixeiras domésticas romanas (depósitos de detritos ou lixeiras de cozinha). O estudo zooarqueológico dos ossos de animais, a carpologia (análise de sementes carbonizadas) e o estudo dos fragmentos permitem traçar um retrato detalhado do estilo de vida e da alimentação dos domini. Assim, no que respeita à proteína animal de elite, os achados revelam a presença de ossos de gado doméstico (vaca, porco), mas também de veado, javali e coelho. A consumo de caça maior e menor funcionava como um claro indicador de prestígio, representando um privilégio e um passatempo de lazer reservado às elites.

Surpreendentemente, foram também identificados recursos marinhos, tais como conchas de ostras, mexilhões e espinhas de peixe. Estes achados provam a existência de rotas comerciais eficientes capazes de transportar marisco fresco e produtos como o garum desde a costa até ao interior alentejano.

Por fim, o estudo da cerâmica importada, através do achado de fragmentos de terra sigillata e ânforas, demonstra que, embora os alimentos pudessem ser confecionados localmente, eram acompanhados por azeites, vinhos e louças finas importados de diversas regiões do Império Romano.












 

A partir do século V d.C., com a desestruturação do Império Romano, a villa perdeu o seu esplendor original. O espaço residencial sofreu reutilizações pragmáticas durante os períodos visigótico e islâmico, até ser progressivamente soterrado pelo tempo.

 

Classificada como Sítio de Interesse Público, a Villa Romana da Horta da Torre é hoje um testemunho vivo do património nacional. Visitar este local é testemunhar o encontro fascinante entre a monumentalidade de uma civilização que, há cerca de milénio e meio, transformou a paisagem alentejana num cenário de luxo e engenharia hidráulica, e a dedicação da sociedade atual na sua salvaguarda.

Na nossa visita, pudemos contemplar a memória da Roma Antiga e, por outro, admirar a força e o empenho de uma dezena de estudantes de História e dos seus orientadores que, contra a escassez de recursos, o calor escaldante — e até empurrando carrinhas atoladas se preciso for —, continuam, dia a dia, a devolver à luz a nossa história. E, quem quiser ficar com uma ideia de como seria esta villa, pode espreitar aqui: https://youtu.be/0zyEanG9aVk?is=bqKZgeScPr2CvlK7

domingo, 26 de julho de 2026

As ruínas da antiga fábrica de seca de bacalhau da Companhia Atlântica de Pesca

Ruína da fábrica de seca do bacalhau

Na Baía do Seixal com uma vista privilegiada para Lisboa, a restinga da Ponta dos Corvos guarda um dos segredos mais emblemáticos do património industrial da Margem Sul: as ruínas da antiga fábrica de seca de bacalhau da Companhia Atlântica de Pesca.

Vista de Lisboa a partir da Praia da Ponta dos Corvos

Mesmo atrás da calma Praia da Ponta dos Corvos veem-se gigantes de cimento esventrados, tanques antigos e esqueletos de estruturas cobertos por arte urbana. Longe da agitação das grandes áreas urbanas, este cenário foi durante quase meio século um dos grandes motores económicos da região e um marco fundamental da indústria piscatória nacional.

Instalada em 1947, a fábrica de seca de bacalhau da Companhia Atlântica de Pesca nasceu para responder à grande procura nacional de bacalhau. Durante o Estado Novo, o governo impulsionou a autossuficiência no consumo de bacalhau. O peixe era capturado nos mares frios da Terra Nova e Gronelândia e trazido salgado em navios da "Frota Branca". Quando regressavam a Portugal carregados de peixe salgado, o Seixal surgia como o porto de abrigo ideal para o seu processamento.

Tanque para a lavagem do bacalhau


Estacas para a seca do bacalhau


A Ponta dos Corvos oferecia as condições microclimáticas perfeitas: uma ponta de areia aberta, exposição solar contínua e a brisa constante do Estuário do Tejo. Nos momentos de pico de produção, a fábrica chegou a empregar cerca de 600 trabalhadores, em grande parte mulheres. O trabalho era árduo e minucioso: o bacalhau era lavado em grandes tanques e estendido manualmente em extensos campos de seca ao ar livre, compostos por redes e estacas que cobriam hectares de terreno, cujas ruínas ainda hoje se podem ver.

Com o passar das décadas, a chegada da seca industrial de ar quente e o desenvolvimento das tecnologias de congelação rápida tornaram o processo de seca tradicional ao sol obsoleto. A Companhia Atlântica de Pesca acabou por encerrar definitivamente as suas portas no início dos anos 1990, deixando para trás um vasto complexo industrial abandonado.

Além da seca do bacalhau, a Praia da Ponta dos Corvos tem mais histórias. Ao passear na praia, podemos encontrar grandes conchas, as conchas das ostras portuguesas (Magallana angulata, anteriormente Crassostrea angulata).

Desde os séculos XVII e XVIII, a qualidade excecional das ostras apanhadas no Tejo e na Baía do Seixal tornou-as num produto altamente cobiçado pelas elites e cortes do Norte e Noroeste da Europa (especialmente em França, Inglaterra e nos Países Baixos).

Para resistirem às longas viagens marítimas sem se estragarem, era utilizado um método engenhoso de conservação e transporte. As ostras eram cuidadosamente acomodadas em barris de madeira atestados com água do mar. Este método mantinha os moluscos vivos e frescos durante semanas de viagem até ao canal da Mancha e aos portos do mar do Norte. As ostras do Seixal ganharam fama de iguaria de luxo (Delikatessen), rivalizando e muitas vezes superando o prestígio das ostras nativas europeias (Ostrea edulis).

Um dos episódios mais célebres desta história ocorreu em 1868 com o navio francês Le Saint-Michel. Carregado com milhões de ostras portuguesas em barris e porões a caminho de Inglaterra, o barco foi apanhado por uma forte tempestade na costa francesa. Para evitar o naufrágio, o capitão teve de lançar toda a carga ao mar na região da Bacia de Arcachon.


Para surpresa de todos, as ostras portuguesas não só sobreviviam à tempestade como se aclimataram e reproduziram com enorme sucesso nas águas francesas. Como uma doença dizimara as ostras nativas de França na época, a ostra-portuguesa salvou literalmente a indústria ostreícola francesa, passando a ser cultivada massivamente em França durante décadas sob o nome de Huitre Portugaise.

Na Baía do Seixal, a apanha e criação de ostras dinamizou durante gerações a economia local. Apanhadores e ostricultores locais (muitas vezes em pequenas embarcações conhecidas como canoas ou batéis) trabalhavam nos bancos naturais de lodo e salinas do Tejo. O Seixal funcionava como um centro produtivo de excelência devido à riquíssima mistura de água doce das marés com a água salgada, que fornecia alimento abundante (fitoplâncton) para o crescimento rápido e sabor apurado das ostras.

Durante a segunda metade do século XX, o aumento da poluição industrial na bacia do Tejo e a proliferação de um vírus específico que afetou a Crassostrea angulata nos anos 1970 dizimaram praticamente os bancos naturais e interromperam a produção em grande escala na Baía do Seixal. Nas últimas décadas, com a melhoria substancial da qualidade da água do estuário e o investimento na aquacultura sustentável, a produção de ostras tem estado a renascer na região do Seixal e na Península de Setúbal, recuperando a tradição secular do cultivo deste famoso molusco.







O encerramento da fábrica da seca de bacalhau não significou o fim do local. Ao longo dos últimos anos, as ruínas sofreram uma transformação espontânea. Os  muros de cimento transformaram-se em telas para artistas de arte urbana, enquanto a vegetação  e as aves do sapal recolonizaram o espaço.

Visitar a Ponta dos Corvos é realizar uma dupla viagem: uma imersão na memória do trabalho árduo da pesca do bacalhau e um passeio num refúgio natural de rara beleza, local para observar aves aquáticas, como garças, flamingos e íbis pretas.





quarta-feira, 22 de julho de 2026

O novo aeroporto Luís de Camões toma forma - o que significa para o futuro do turismo em Portugal?

O setor do turismo nacional assistiu a um dos momentos mais aguardados da última década. A ANA — Aeroportos de Portugal / Vinci Airports entregou ao Ministério das Infraestruturas e Habitação o Relatório Técnico do Novo Aeroporto de Lisboa (NAL), projetado para o Campo de Tiro de Alcochete.

Sob a denominação Aeroporto Luís de Camões, a nova infraestrutura promete transformar radicalmente o panorama da aviação e da acessibilidade turística em Portugal, respondendo ao esgotamento operacional do Aeroporto Humberto Delgado.

O relatório técnico apresenta uma visão ambiciosa e de grande escala para a nova porta de entrada no país. Com um investimento global estimado entre 7,9 e 8,9 mil milhões de euros, o aeroporto está desenhado para acolher 56 milhões de passageiros por ano na fase de abertura, podendo expandir-se progressivamente até aos 85 milhões.

O projeto prevê duas pistas paralelas, 64 portas de embarque, 72 pontes de contacto e um terminal de passageiros com cerca de 500 mil metros quadradosO edifício terminal foi desenhado sob rigorosos critérios de eficiência energética e neutralidade carbónica.

Uma ligação ferroviária direta ligará o novo aeroporto ao centro de Lisboa em apenas 20 minutos.

Impacto estratégico no setor turístico

Para os profissionais e operadores do turismo, a concretização do Aeroporto Luís de Camões representa o fim de um estrangulamento histórico. Há vários anos que a capacidade limitada da Portela condicionava o crescimento de rotas internacionais e a atração de novas companhias aéreas.

A nova infraestrutura consolidará Lisboa como um dos principais hubs atlânticos da Europa, reforçando a ligação com as Américas, África e abrindo margem para a expansão de rotas de longo curso provenientes da Ásia.

Além da capital, a localização em Alcochete impulsionará o desenvolvimento de novos polos turísticos na Margem Sul, na região do Alentejo e no vale do Tejo, promovendo a descentralização dos fluxos turísticos e valorizando o património natural e gastronómico do interior.

Calendário e Próximas Etapas

Embora o relatório técnico marque o encerramento do planeamento de engenharia preliminar, o processo segue um calendário bem definido:

2026 (Julho)   ➔ Entrega do Relatório Técnico e do Estudo de Impacte 
                    Ambiental (APA) 2027 (Janeiro) ➔ Apresentação do Relatório Financeiro e Modelo de
                    Concessão 2029 ➔ Início previsto das obras de construção 2035 – 2037 ➔ Entrada em operação e abertura ao tráfego comercial

O Governo e a concessionária trabalham agora no enquadramento financeiro e na revisão contratual, com o objetivo de otimizar os prazos de execução e garantir que o projeto cumpra os mais elevados padrões de competitividade.

A entrega deste relatório confirma que a transição aeroportuária em Lisboa deixou de ser um debate teórico para se tornar um projeto em marcha. Para hotéis, agências de viagens, companhias aéreas e serviços de hospitalidade, o horizonte a médio e longo prazo ganha finalmente previsibilidade.

O Aeroporto Luís de Camões posiciona Portugal não apenas como um destino maduro de excelência, mas como uma plataforma global preparada para responder às exigências do turismo do século XXI.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Dorma Espinho: um refúgio frente ao mar

 

Vista do quarto

A dois passos do areal dourado de Espinho, onde o Atlântico dita o ritmo dos dias, ergue-se o Dorma Espinho. Este refúgio contemporâneo foi desenhado para quem procura desligar do rebuliço quotidiano e sintonizar-se com a Natureza, sem abdicar do conforto e do design moderno. É o destino perfeito para uma escapadinha revigorante, onde a proximidade com o mar é o fio condutor de toda a experiência.

 

Uma arquitetura que convida ao movimento

Logo à chegada, o hotel surpreende pela sua filosofia de bem-estar integrado na arquitetura. No hall de entrada, destaca-se a grande escadaria que se estende majestosamente até ao oitavo andar. Longe de ser apenas um elemento estético, esta estrutura imponente é um convite aberto aos hóspedes para que deixem de lado as escadas fazendo movimento, em vez de utilizarem o elevador. Subir ou descer torna-se parte de um estilo de vida ativo e saudável, perfeitamente alinhado com o espírito revitalizante do hotel.

 

O despertar dos sentidos: quartos com vista infinita

Quarto com varanda virada para o mar


O verdadeiro ex-libris do Dorma Espinho reside nos seus quartos com vista frontal para o mar. Ao cruzar a porta do quarto, a sensação de espaço é imediata, em grande parte devido às imensas janelas que deixam entrar a luz natural e a imensidão azul do oceano. É um privilégio raro abrir as cortinas e deparar-se com uma autêntica pintura viva em constante mutação.

Pôr do sol visto da varanda do quarto


O ponto alto do dia acontece ao final da tarde. Na privacidade e no conforto da varanda do próprio quarto, assistir ao fantástico pôr do sol torna-se um ritual obrigatório. O céu pinta-se de tons de fogo, rosa e dourado, enquanto o sol mergulha lentamente no horizonte. À noite, a banda sonora não podia ser mais relaxante: adormecer e ouvir as ondas a rebentar suavemente na costa é uma terapia natural que garante um descanso profundo e revigorante.

 

Bem-estar suspenso sobre a praia

O conceito de relaxamento do hotel eleva-se a outro patamar na sua área de bem-estar. Imagine desfrutar de uma sauna ou de um banho turco onde as paredes de alvenaria dão lugar a imponentes paredes de vidro.

Esta arquitetura inteligente permite que o calor relaxante cuide do corpo enquanto os olhos se perdem na linha do horizonte, virados diretamente para a praia. É uma fusão perfeita entre o aconchego interior e a beleza selvagem do exterior, transformando o circuito de águas numa experiência sensorial única e inesquecível.

 

Manhãs luminosas e sabores caseiros

Pequeno-almoço com vista para o areal



O novo dia começa na sala do pequeno-almoço, um espaço desenhado para celebrar a luz da manhã. Ampla e com grandes janelas viradas para a praia, a sala convida os hóspedes a desfrutar da primeira refeição com os pés na areia. A sensação de espaço e a luminosidade criam um ambiente calmo e revigorante para planear o dia.

O buffet, cuidadosamente preparado, é um hino à qualidade e à variedade. Os aromas que emanam da cozinha abrem o apetite de imediato com uma seleção irresistível de bolos caseiros, fofos e acabados de fazer, fruta fresca da época, bem cortada e sumarenta, ovos estrelados feitos no ponto e ovos mexidos cremosos e uma grande variedade de cereais, sementes e iogurtes para compor a taça perfeita.

O Dorma Espinho não é apenas um local onde se pernoita; é uma experiência imersiva onde o mar de Espinho é o protagonista principal, desde o primeiro raio de sol até ao último vislumbre do anoitecer.




segunda-feira, 13 de julho de 2026

Quinta Lusitânia: A visão de uma médica veterinária transformada num refúgio único em Portugal

 

Nascer do sol na Quinta Lusitânia

No coração das suaves colinas do centro de Portugal, na histórica aldeia de Couto do Mosteiro, junto a Santa Comba Dão, existe um lugar onde o tempo parece correr mais devagar. Chama-se Quinta Lusitânia e é o resultado perfeito da fusão entre a hospitalidade de charme, a paixão pela natureza e uma profunda ligação ao mundo equestre.

Christina Igler a cavalo


Nascido em 2018, este projeto singular foi idealizado por Christina Igler, médica veterinária alemã especializada em medicina dentária equina e amazona há mais de 30 anos. A sua visão foi clara desde o início: erguer um refúgio de tranquilidade onde o bem-estar e o respeito pelos cavalos fossem a prioridade absoluta.

Na Quinta Lusitânia, os cavalos — das raças Lusitano ao Puro Sangue Espanhol (PRE) — não são vistos sob a ótica da performance desportiva, mas sim através de uma relação baseada na confiança, comunicação subtil e vivência em liberdade e comunidade.

 

História, multiculturalidade e hospitalidade de charme

Christina Igler e Miguel Baumgartner


O projeto ganha ainda mais vida com a parceria entre Christina e o seu companheiro, Miguel Baumgartner. Analista de política internacional e geopolítica, Miguel traz para a quinta a sua vasta experiência multicultural e o domínio de várias línguas, complementando o conhecimento técnico e a paixão de Christina com uma visão global e de aproximação entre culturas.



Juntos, recuperaram uma casa senhorial com mais de 200 anos de história, combinando o carácter original da arquitetura com o conforto moderno. Hoje, o espaço funciona como um ecossistema completo de turismo de charme, que inclui alojamento de alta qualidade em ambiente familiar e sereno, escola de equitação e centro equestre focado em horsemanship e respeito pelo animal, experiências personalizadas, desde passeios a cavalo pela paisagem envolvente a programas equestres feitos à medida e espaço para eventos rodeado por jardins e árvores centenárias.

Suite Condessa


Pequeno -almoço


Seja para amantes da equitação que procuram uma abordagem mais consciente e ética, ou simplesmente para viajantes que desejam desligar da rotina e ligar-se com a natureza no centro de Portugal, a Quinta Lusitânia é mais do que um destino de férias. É um projeto de vida partilhado que abraça quem o visita com uma autenticidade inesquecível.

Gostava de viver esta experiência na primeira pessoa?

Localização: Couto do Mosteiro, Santa Comba Dão, Portugal.

Ideal para fugas de fim de semana, turismo equestre ético, retiros de bem-estar e turismo de natureza em família.



 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Nossa Senhora da Penha em Portalegre: Devoção e romaria com vista deslumbrante

Capela de Nossa Senhora da Penha, em Portalegre

 

A Capela de Nossa Senhora da Penha, erguida no cume da colina que flanqueia a zona oeste de Portalegre, é um dos segredos mais bonitos do Alto Alentejo. Trata-se de um monumento repleto de espiritualidade e de uma beleza arquitetónica singular que se funde de forma perfeita com a paisagem natural circundante, que pode observar balouçando-se com a cidade aos seus pés.







Classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1983, a Capela de Nossa Senhora da Penha, erguida no cume da colina na zona oeste de Portalegre, oferece uma das vistas panorâmicas mais deslumbrantes sobre toda a cidade de Portalegre e sobre a região.

A história deste templo remonta ao início do século XVII. Por volta de 1620, um eremita local decidiu construir uma pequena ermida no cume do monte. O local de difícil acesso rapidamente se tornou um ponto de recolhimento espiritual.

Anos mais tarde, motivado pela forte devoção mariana da região, o então corregedor de Portalegre, João Zuzarte da Fonseca, determinou a demolição da estrutura primitiva para dar lugar a um templo maior e mais imponente. As obras da atual capela decorreram ao longo das décadas seguintes, ficando concluídas na primeira metade do século XVII. Mais tarde, por volta de 1675, a administração do espaço passou a estar ligada aos religiosos Agostinhos Descalços.

O acesso ao santuário reflete o próprio espírito de peregrinação. Os mais devotos podem subir a enorme escadaria de mármore. Quem não tiver forças para tal, pode ir de carro…

Visualmente, a fachada principal destaca-se pelo forte contraste cromático barroco, com linhas estruturais realçadas a azul sobre o fundo branco tradicional alentejano. Quatro grossas pilastras-contraforte sustentam a cornija, culminando num frontão triangular clássico que ostenta um óculo central e um campanário tradicional.

Em maio, o local anima-se com a tradicional romaria e as festividades religiosas. Fiéis e locais sobem a colina em procissão, cumprindo promessas e renovando uma devoção com séculos de existência.

O templo do bom comer em Portalegre

 


Quando José Régio escreveu a famosa Toada a Portalegre — “Portalegre, cidade do Alto Alentejo, cercada de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros...”—, não havia ainda o restaurante Tombalo
bos. Penso que, se este já tivesse existido, o grande poeta português teria dedicado pelo menos um poema a este verdadeiro templo do bom comer, onde a identidade alentejana se senta à mesa com a máxima dignidade.

Situado junto ao histórico Arco do Bispo, num antigo convento de freiras clarissas, o Convento de Santa Clara, o restaurante nasceu em 2002 pelas mãos da família Vintém. O espaço em si é uma viagem no tempo. Os tetos em arco feitos de tijolo burro, a pedra exposta e a iluminação acolhedora convidam a que aí se fique a gozar o ambiente. Ali, o tempo corre mais devagar. O serviço, dotado de uma grande simpatia e profissionalismo, faz-nos sentir imediatamente em casa.

A cozinha, atualmente nas mãos do portalegrense de gema José Júlio Vintém, o cozinheiro que se tornou um verdadeiro embaixador da gastronomia da região, faz valer a pena, por si só, qualquer viagem a esta cidade do Alto Alentejo. José Júlio Vintém não se limita a cozinhar; ele interpreta a paisagem, a caça, as ervas aromáticas e os saberes antigos, elevando-os à categoria de arte. Como se pode ler no portal do restaurante, "na sua cozinha, José Júlio elege por excelência os produtos alentejanos, aos quais junta a riqueza dos ingredientes e condimentos próprios de cada estação do ano. Inspirado na tradição ancestral apresenta-nos uma cozinha de base bem tradicional com algumas inovações e criações. Acredita ainda que o seu segredo está em cozinhar com simplicidade respeitando os aromas e sabores de cada produto."


Cozido de grão


Voltámos mais uma vez ao Tombalobos para comer o fantástico Cozido de Grão Alentejano, que parecia um poema moldado pelo fogo brando. Rico, reconfortante e com o caldo apurado e aromatizado pela hortelã, trazia a alma dos campos alentejanos num equilíbrio perfeito entre o grão tenro, as carnes de porco de qualidade e os enchidos tradicionais da região. É a verdadeira cozinha de panela e a herança das nossas avós.


Cação frito com migas de coentros


Hoje, de manhã, ouvi, fortuitamente, alguém falar de cação frito. Fiquei logo com muito vontade de voltar a comer este prato bem alentejano. Por sorte, havia na ementa do Tombalobos Cação frito com migas de coentros. Não pensei duas vezes. Pedi e estava divinal. O cação, completamente sem espinha central, vinha cortado em pedacinhos pequeninos e apresentava-se incrivelmente bem feito: uma crosta estaladiça por fora e uma carne muito branca que se desfazia na nossa boca, num contraste perfeito com os coentros e o aveludado das migas.

Para encerrar esta sinfonia de sabores, terminámos a refeição com o  Torrão Real. Este doce, um bolo rico de amêndoa e ovos que antigamente saía das mãos sábias e pacientes das freiras dos conventos da região, é o remate perfeito. Com a humidade certa e doçura equilibrada, honra o receituário da doçaria conventual que outrora habitava aquelas mesmas paredes.

O TombaLobos não é apenas um restaurante; é uma paragem obrigatória para quem procura a essência do Alto Alentejo. José Régio cantou a cidade em versos; José Júlio Vintém canta-a no prato. E que belo dueto eles fariam.