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| Trujillo vista do castelo |
A apenas 1h30 de Elvas (o destino ideal para quem vive no Alto Alentejo), 3h30 de Lisboa e 5h30 do Porto, Trujillo é uma escapadinha monumental e imperdível para um fim de semana, uma viagem inesquecível por palácios renascentistas, um castelo árabe, ruas medievais, sabores estremenhos e a magia de ruelas misteriosas à noite.Há lugares cuja beleza transcende o simples olhar e nos transportam de imediato para outras épocas. Trujillo, situada no coração da Estremadura espanhola, é um desses destinos magnéticos. Vista quase sempre como uma joia monumental medieval e renascentista, períodos em que atingiu o seu esplendor máximo, a cidade guarda em cada pedra, em cada calçada e em cada fachada armoriada a memória de séculos de batalhas, comércio e expansão global..JPG)
Contudo, circunscrever Trujillo apenas à Idade Média ou ao Renascimento seria redutor. Trata-se de uma cidade de múltiplas camadas históricas, onde a arte barroca também deixou marcas profundas. Um exemplo perfeito desta riqueza patrimonial é a Igreja consagrada ao Precioso Sangue de Cristo, erguida entre 1627 e 1675 graças ao patrocínio e devoção dos capitães da cidade e que agora alberga o museu da história dos descobrimentos. Atravessando os múltiplos reveses da sua história, este templo chegou a encontrar-se num estado de degradação lamentável, à beira da ruína. Numa intervenção exemplar de resgate cultural, o município de Trujillo, com o apoio da Junta da Estremadura, adquiriu e restaurou o edifício para exibir o extraordinário património histórico e cultural da localidade.
Das origens romanas às fortificações muçulmanas
A aventura humana neste território remonta a tempos remotos. Foram os romanos que fundaram Turgalium no ano 20 a.C., sobre um povoado indígena anterior. A sua localização inicial, no cerro da Cabeça do Zorro, converteu-se num ponto estratégico inapreciável de defesa. Como dependência de Emerita Augusta (a atual Mérida), Trujillo transformou-se num enclave crucial da rota comercial e militar que unia Emerita a Cesar Augusta (a atual Saragoça).
A presença romana ao longo de mais de cinco séculos moldou a cultura e a sociedade, enriquecidas depois pelos povos que a povoaram, como os visigodos (que entre os séculos VI e VII a chamaram Turcallion). A partir do século VIII, Trujillo foi tomada pelos muçulmanos, passando a chamar-se Torgielo. Uma vez mais, a posição estratégica da cidade fez com que desempenhasse um papel relevante na rede defensiva entre o Tejo e o Guadiana.
Na segunda metade do século IX, os muçulmanos dotaram a povoação do seu castelo com imponentes muralhas. Dentro destas, os artesãos muçulmanos vendiam os seus produtos em bazares, destacando-se pelas belas cerâmicas e modelos inovadores muito apreciados e imitados na arte europeia.
A 25 de janeiro de 1232, Trujillo foi definitivamente reconquistada pela Coroa de Castela e, em 1430, o Rei João II de Castela reconheceu-a com o título de "Ciudad Muy Noble, Muy Leal, Insigne y Muy Heroica".
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| O brasão mais antigo da cidade, na Porta de Santiago |
Monumentos Imperdíveis: Do castelo aos palácios renascentistas
Passear por Trujillo é folhear um livro de história ao ar livre. Durante a sua visita, há monumentos fundamentais que não pode deixar de explorar.
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| Sino do castelo |
Erguida no ponto mais elevado de Trujillo, sobre a colina granítica conhecida como Cabeza de Zorro, a Alcazaba domina toda a paisagem envolvente e é um dos mais notáveis testemunhos da arquitetura militar defensiva na Península Ibérica. Classificada como Monumento Histórico-Artístico em 1925, o castelo oferece do topo das suas muralhas e ameias uma vista panorâmica sobre o centro histórico da cidade e as planícies da Extremadura. O recinto serviu ainda como cenário para diversas produções audiovisuais de relevo, destacando-se as filmagens da sétima temporada da série Game of Thrones, onde representou as muralhas de Casterly Rock.
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A estrutura original remonta aos séculos IX e X, durante o período de ocupação muçulmana (al-Andalus). Erguida sobre antigas bases de assentamentos romanos e visigóticos, a alcáçova islâmica servia como ponto estratégico de controlo das vias de comunicação e de defesa do território. Ao longo dos séculos XII e XIII, a fortaleza mudou várias vezes de mãos entre cristãos e muçulmanos no contexto da Reconquista, até ser definitivamente tomada por Fernando III de Leão e Castela, em 1233. Já sob domínio cristão, o castelo sofreu sucessivas remodelações e ampliações nos séculos XIV e XV, das quais se destaca a adição de uma barbacã nos tempos dos Reis Católicos.
Construída em alvenaria de granito, blocos de pedra e argamassa, a fortaleza apresenta dois grandes recintos geométricos interligados:
- Pátio de Armas (Recinto Principal): corresponde à antiga alcáçova árabe. Tem planta sensivelmente quadrada e é flanqueado por 17 torres quadradas ameadas, típicas da arquitetura militar islâmica. O acesso faz-se através de um portão com arco em ferradura.
- Albacar: recinto secundário de planta hexagonal irregular, que servia de refúgio e abrigo para a população civil e os seus rebanhos em momentos de cerco ou de perigo.
- Cisternas (Aljibes): no interior conservam-se cisternas de época islâmica, escavadas na rocha, essenciais para garantir o abastecimento de água durante eventuais cercos.
- Capela de Nossa Senhora da Vitória: entre duas das torres principais (torres albarrãs) encontra-se a capela que alberga a imagem em pedra da Virgem da Vitória, padroeira de Trujillo, colocada de frente para a cidade. As suas festas duram nove dias e decorrem entre finais de agosto e início de setembro.
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| Imagem de Nossa Senhora da Vitória |
A Igreja de Santa Maria Maior, o templo religioso mais importante de Trujillo, construído entre os séculos
XIII e XVI, combina elementos românicos e góticos. Localizada na zona alta e histórica
da cidade, foi erguida após a reconquista cristã no século XIII — acredita-se
que sobre as fundações da antiga mesquita muçulmana — e expandida entre os
séculos XV e XVI.
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O estábulo do altar-mor
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Esta igreja
destaca-se por reunir vários elementos de grande valor histórico e artístico. O interior acolhe um soberbo retábulo em estilo gótico florido,
pintado por volta de 1490 no atelier do prestigiado mestre Fernando Gallego e
do Mestre Bartolomé. É composto por 25 painéis a óleo que retratam a vida da Virgem Maria, a Paixão
e a Ressurreição de Cristo.
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| Os sinos da torre sineira |
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| Vista das torres |
Não perder a subida às duas torres donde se têm as melhores vistas panorâmicas sobre os telhados medievais de Trujillo e sobre a paisagem da Estremadura. A torre românica é a primitiva do século XIII, que sofreu graves danos com os terramotos de 1521 e 1755, vindo a ser restaurada e reconstruída no século XX, e a torre nova (a torre sineira), já mais moderna, onde no 1º piso está o Coro
de Sancho de Cabrera, construído em 1550 em estilo plateresco, e está apoiado sobre
uma abóbada em cruz estrelada na parte posterior da nave.
O chão do templo e as suas capelas laterais abrigam túmulos e
pedras sepulcrais das principais famílias nobres de Trujillo (Pizarro,
Orellana, Vargas-Carvajal e Altamirano). Destaca-se também o túmulo de Diego
García de Paredes, o famoso militar espanhol conhecido como o "Sansão
da Estremadura".
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| Plaza Mayor |
No entanto, o verdadeiro
centro nevrálgico da cidade, rodeado por arcadas medievais e edifícios nobres, é a Plaza Mayor, onde se encontra a monumental estátua equestre em bronze de Francisco Pizarro, montado a cavalo com armadura completa. É uma obra do escultor americano Charles Rumsey e que se tornou a imagem de marca de Trujillo.
A Plaza Mayor é o
coração da cidade e uma das praças mais impressionantes e cenográficas
de Espanha. De formato irregular e declive acentuado, este espaço urbano
rodeado de palácios renascentistas e arcadas medievais serviu historicamente
como mercado, palco de festividades e centro da vida social extremenha.
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| Rosácea da igreja de São Martinho de Tours |
Mesmo ao lado da estátua, num dos ângulos mais nobres da Plaza Mayor, temos a Igreja de São Martinho de Tours. Mandada construir no século XIV sobre as ruínas de uma edificação medieval
anterior, sofreu ampliações substanciais durante os séculos XV e XVI, o que
resultou numa imponente fusão dos estilos gótico tardio e renascentista.
Este templo
desempenhou um papel civil e religioso de enorme relevância histórica na
cidade, servindo frequentemente de ponto de reunião para o conselho concelhio e
de panteão para várias famílias nobres extremenhas.
Construída inteiramente em grandes blocos de granito,
a igreja apresenta duas entradas principais: a Porta das Limas (de estilo
gótico florido, decorada com motivos vegetais) e a Porta Principal
(renascentista). Nas paredes exteriores é possível observar diversos sinais
escavados na pedra, correspondentes às marcas de artesãos e pedreiros medievais
que organizavam a construção.
O interior impressiona pela amplitude de uma
grande nave única coberta por abóbadas em cruz estrelada tipicamente
góticas. Abriga um retábulo de estilo neoclássico e baroco,
juntamente com vários altares laterais com imagens religiosas de grande devoção
local. Na zona do coro encontra-se um magnífico órgão do século XVIII,
perfeitamente integrado na estrutura do templo. O pavimento e as capelas albergam túmulos de figuras ilustres de
Trujillo, decorados com heráldica e brasões da época das explorações
ultramarinas.
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| Esquina do palácio da Conquista |
Na Plaza Mayor, os palácios de estilo renascentista exibem uma elegância contida, contrastando com a arquitetura religiosa mais esplendorosa. No canto oposto à igreja de São Martinho de Tours, encontra-se o Palacio de la Conquista (também conhecido
como Palacio de los Marqueses de la Conquista), o edifício civil de
maior destaque na Plaza Mayor de Trujillo. Mandado construir no século XVI por
vontade de Francisco Pizarro no seu testamento, a edificação foi levada a cabo
pelo seu irmão Hernando Pizarro e pela esposa deste, Francisca Pizarro Yupanqui
(filha do conquistador e da princesa inca Inés Huaylas).
Esta residência
senhorial reflete a riqueza e o estatuto alcançados pela família Pizarro após a
conquista do Império Inca e a concessão do título de Marqueses de la Conquista
por Carlos V.
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| Busto de Francisco Pizarro |
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| Busto de Inés Huaylas |
O elemento mais fotogénico e monumental é a sua imponente varanda
de esquina de estilo plateresco. A varanda está encimada pelo grande brasão de armas concedido por
Carlos V à família Pizarro. Ladeando o escudo, encontram-se os bustos
esculpidos em pedra de Francisco Pizarro, da sua esposa Inés Huaylas, de
Hernando Pizarro e de Francisca Pizarro Yupanqui. O edifício apresenta ainda uma imponente crista em pedra com
estátuas alegóricas e motivos renascentistas ao longo do seu piso superior e no
topo da fachada.
Gastronomia estremenha e a magia das noites na Praza Mayor
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| Migas estremenhas com ovo estrelado e enchidos |
Depois de percorrer a história e os monumentos, a experiência de Trujillo completa-se à mesa. Para o jantar, nada se compara a sentar-se numa das acolhedoras esplanadas da Plaza Mayor para degustar a autêntica gastronomia da Estremadura. O repasto começa com umas tradicionais migas acompanhadas por enchidos regados da região, seguidas de
uns reconfortantes ovos mexidos com cogumelos e uns estaladiços aros de lulas fritas. Tudo isto acompanhado por um ótimo vinho da região — uma garrafa por uns inacreditáveis 5,50 €! Para terminar com chave de ouro, as sobremesas locais são obrigatórias.
Os doces típicos de Trujillo celebram a tradição e os heróis da terra. Destacam-se as delicadas Gemas de Pizarro e as estaladiças Orellanas, de inspiração conventual. Os saborosos Monfraguitos e Hurdanitos homenageiam a gastronomia regional estremenha, enquanto a emblemática Trécula completa uma pastelaria rica, autêntica e verdadeiramente irresistível.
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| Os robertos Pepito y sus amigos |
À noite, a Plaza Mayor ganha uma vida mágica. À noite, as escadas da praça encheram-se de famílias para assistir ao espetáculo de marsionetas 'Pepito y sus amigos'. As crianças estavam animadíssimas, a interagir efusivamente com os robertos!
Embora conte atualmente com cerca de 8.000 habitantes — um número que tem vindo a diminuir —, Trujillo mantém para sempre o seu orgulhoso título de cidade e uma vivacidade contagiante. Seja pelo património monumental, pela gastronomia generosa ou pelo ambiente caloroso da sua vida noturna, esta joia da Estremadura está apenas a um pulinho de distância.