| Ruína da fábrica de seca do bacalhau |
Na Baía do Seixal com uma vista privilegiada para Lisboa, a restinga da Ponta dos Corvos guarda um dos segredos mais emblemáticos do património industrial da Margem Sul: as ruínas da antiga fábrica de seca de bacalhau da Companhia Atlântica de Pesca.
| Vista de Lisboa a partir da Praia da Ponta dos Corvos |
Mesmo atrás da calma Praia da Ponta dos Corvos veem-se gigantes de cimento esventrados, tanques antigos e esqueletos de estruturas cobertos por arte urbana. Longe da agitação das grandes áreas urbanas, este cenário foi durante quase meio século um dos grandes motores económicos da região e um marco fundamental da indústria piscatória nacional.
Instalada em 1947, a fábrica de seca de bacalhau da Companhia Atlântica de Pesca nasceu para responder à grande procura nacional de bacalhau. Durante o Estado Novo, o governo impulsionou a autossuficiência no consumo de bacalhau. O peixe era capturado nos mares frios da Terra Nova e Gronelândia e trazido salgado em navios da "Frota Branca". Quando regressavam a Portugal carregados de peixe salgado, o Seixal surgia como o porto de abrigo ideal para o seu processamento.
A Ponta dos Corvos oferecia as condições microclimáticas perfeitas: uma ponta de areia aberta, exposição solar contínua e a brisa constante do Estuário do Tejo. Nos momentos de pico de produção, a fábrica chegou a empregar cerca de 600 trabalhadores, em grande parte mulheres. O trabalho era árduo e minucioso: o bacalhau era lavado em grandes tanques e estendido manualmente em extensos campos de seca ao ar livre, compostos por redes e estacas que cobriam hectares de terreno, cujas ruínas ainda hoje se podem ver.
Com o passar das décadas, a chegada da seca industrial de ar quente e o desenvolvimento das tecnologias de congelação rápida tornaram o processo de seca tradicional ao sol obsoleto. A Companhia Atlântica de Pesca acabou por encerrar definitivamente as suas portas no início dos anos 1990, deixando para trás um vasto complexo industrial abandonado.
Desde os séculos XVII e XVIII, a qualidade excecional das ostras apanhadas no Tejo e na Baía do Seixal tornou-as num produto altamente cobiçado pelas elites e cortes do Norte e Noroeste da Europa (especialmente em França, Inglaterra e nos Países Baixos).
Para resistirem às longas viagens marítimas sem se estragarem, era utilizado um método engenhoso de conservação e transporte. As ostras eram cuidadosamente acomodadas em barris de madeira atestados com água do mar. Este método mantinha os moluscos vivos e frescos durante semanas de viagem até ao canal da Mancha e aos portos do mar do Norte. As ostras do Seixal ganharam fama de iguaria de luxo (Delikatessen), rivalizando e muitas vezes superando o prestígio das ostras nativas europeias (Ostrea edulis).
Um dos episódios mais célebres desta história ocorreu em 1868 com o navio francês Le Saint-Michel. Carregado com milhões de ostras portuguesas em barris e porões a caminho de Inglaterra, o barco foi apanhado por uma forte tempestade na costa francesa. Para evitar o naufrágio, o capitão teve de lançar toda a carga ao mar na região da Bacia de Arcachon.
Para surpresa de todos, as ostras portuguesas não só sobreviviam à tempestade como se aclimataram e reproduziram com enorme sucesso nas águas francesas. Como uma doença dizimara as ostras nativas de França na época, a ostra-portuguesa salvou literalmente a indústria ostreícola francesa, passando a ser cultivada massivamente em França durante décadas sob o nome de Huitre Portugaise.
Na Baía do Seixal, a apanha e criação de ostras dinamizou durante gerações a economia local. Apanhadores e ostricultores locais (muitas vezes em pequenas embarcações conhecidas como canoas ou batéis) trabalhavam nos bancos naturais de lodo e salinas do Tejo. O Seixal funcionava como um centro produtivo de excelência devido à riquíssima mistura de água doce das marés com a água salgada, que fornecia alimento abundante (fitoplâncton) para o crescimento rápido e sabor apurado das ostras.
Durante a segunda metade do século XX, o aumento da poluição industrial na bacia do Tejo e a proliferação de um vírus específico que afetou a Crassostrea angulata nos anos 1970 dizimaram praticamente os bancos naturais e interromperam a produção em grande escala na Baía do Seixal. Nas últimas décadas, com a melhoria substancial da qualidade da água do estuário e o investimento na aquacultura sustentável, a produção de ostras tem estado a renascer na região do Seixal e na Península de Setúbal, recuperando a tradição secular do cultivo deste famoso molusco.
O encerramento da fábrica da seca de bacalhau não significou o fim do local. Ao longo dos últimos anos, as ruínas sofreram uma transformação espontânea. Os muros de cimento transformaram-se em telas para artistas de arte urbana, enquanto a vegetação e as aves do sapal recolonizaram o espaço.
