quarta-feira, 29 de abril de 2026

Viagem à Normandia - dia 5: Monte Saint Michel

 


O Monte Saint-Michel é um dos locais mais mágicos e fotografados do mundo, situando-se na fronteira entre a Normandia e a Bretanha. É uma ilha rochosa coroada por uma abadia medieval, cercada por uma baía que é o palco das marés mais altas da Europa.


O Fenómeno das Marés

O Monte Saint-Michel torna-se uma ilha completa apenas durante as marés vivas (coeficiente superior a 90). Nestes dias, a água rodeia totalmente o rochedo por cerca de uma hora. 

No entanto, a diferença entre a preia e a baixa mar é enorme. A maré sobe "à velocidade de um cavalo a galope" e existem zonas de areia movediça. 





A Abadia do Monte Saint-Michel

A Abadia do Monte Saint-Michel, frequentemente chamada de "Maravilha do Ocidente", é o coração da ilha. Construída a partir do século X, é um prodígio da arquitetura medieval, com as suas salas góticas empilhadas sobre a rocha. É o ponto mais alto e sagrado do rochedo. Mais do que um monumento, é um prodígio de engenharia que sobreviveu a guerras, cercos e à própria natureza durante mais de mil anos.


A história começa em 708, quando o Arcanjo Miguel terá aparecido em sonhos ao bispo Aubert de Avranches, ordenando a construção de um santuário.

No século X, os monges beneditinos estabeleceram-se ali. Após a Revolução Francesa, a abadia foi ironicamente transformada numa prisão (conhecida como a "Bastilha do Mar"), antes de ser restaurada e declarada Monumento Histórico em 1874. Desde 1979, é reconhecida pela UNESCO pela sua importância cultural e arquitetónica.

A abadia é uma "pilha" de estilos que se adaptaram à forma cónica da rocha:

·         La Merveille (A Maravilha): É o nome dado ao conjunto gótico do lado norte (séc. XIII). Inclui o Claustro, um jardim suspenso entre o céu e o mar, e o Refeitório, onde os monges comiam em silêncio absoluto.

O claustro


·         Igreja Abacial: Mistura o estilo românico na nave com um coro em gótico flamejante (reconstruído após um desabamento em 1421).

·         Criptas: Como a igreja foi construída no topo de uma rocha estreita, foram erguidas várias criptas maciças para sustentar o peso da estrutura superior.

A cripta

·         Estátua de São Miguel: No topo da agulha da igreja, a 170 metros acima do nível do mar, encontra-se a estátua dourada do Arcanjo Miguel derrotando o dragão.



A Grande Rue

É a rua principal, estreita e íngreme - e a abarrotar de visitantes! -, que sobe até à abadia. Está repleta de casas do século XV e XVI, lojas de recordações e restaurantes, entre eles - a famosa Mère Poulard, onde ainda se prepara a omelete da em fogo de lenha segundo uma receita de 1888.

Tudo começou com Annette Poulard, uma cozinheira que abriu a sua estalagem com o marido. Naquela época, os peregrinos chegavam ao Monte cansados e com fome, dependendo das marés. Como os pratos principais demoravam a cozinhar, Annette teve a ideia de servir uma omelete gigante e fofinha, cozinhada rapidamente na lareira, para os confortar à chegada.

A sua fama cresceu tanto que o restaurante recebeu figuras como Claude Monet, Coco Chanel, Ernest Hemingway e inúmeros reis e presidentes.

A feitura da omelete é o grande espetáculo do restaurante. Ao passar-se pela porta na Grande Rue, podem ver-se os cozinheiros vestidos a rigor a bater os ovos em tigelas de cobre, seguindo um ritmo musical, antes de os colocarem em frigideiras de cabo longo sobre o fogo de lenha. O segredo está em bater as claras e as gemas de forma a criar uma textura de "soufflé" — muito leve, espumosa e com um sabor intenso a manteiga salgada da Normandia. É importante realçar que esta é uma experiência cara. Uma omelete pode custar entre 35€ e 45€. Muitos turistas consideram um "luxo necessário" para completar a visita ao Monte, enquanto outros acham excessivo para um prato de ovos.


Viagem à Normandia - dia 4: Paraquedistas, a Praia Utah e o Memorial Britânico





Sainte-Mère-Église é, sem dúvida, uma das localidades mais místicas da Normandia. Foi a primeira vila francesa a ser libertada pelos paraquedistas americanos na madrugada do Dia D e tornou-se mundialmente famosa pelo filme "O Dia Mais Longo". 

O Paraquedista na Torre (John Steele) 


A imagem mais emblemática de Sainte-Mère-Église é o boneco de um paraquedista pendurado na torre da igreja. 
Durante o salto noturno, o soldado John Steele (da 82ª Divisão Aerotransportada) ficou com o paraquedas preso nos ornamentos da torre. Ele ficou lá pendurado durante duas horas, fingindo-se de morto enquanto o combate decorria lá em baixo, antes de ser feito prisioneiro pelos alemães (mais tarde, conseguiu escapar  e juntar-se à sua unidade). 
Vale a pena entrar na igreja e ver os vitrais. Um deles mostra a Virgem Maria rodeada de paraquedistas a cair do céu — uma homenagem permanente aos libertadores. 

Vitral da igreja - Nossa Senhora rodeada por paraquedistas


Mesmo em frente à igreja, o Museu Aerotransportado é dedicado inteiramente aos paraquedistas das divisões 82ª e 101ª, podendo ver-se um planador Waco original (muito raro, pois eram feitos de madeira e lona) e um avião C-47 Dakota, o cavalo de batalha que lançou os paraquedistas. 

Praia Utah 


Praia Utah
Seguimos para a Praia Utah, a mais ocidental das cinco praias e a primeira a ser atacada pelas tropas americanas (4ª Divisão de Infantaria) na manhã de 6 de junho. A sua história é marcada por um "erro" de navegação que acabou por salvar centenas de vidas - um erro que foi uma sorte. Devido às fortes correntes e ao fumo dos bombardeamentos, os primeiros barcos de desembarque derivaram cerca de 2 km para sul do ponto previsto. Quando o General Theodore Roosevelt Jr. (filho do antigo presidente dos EUA) percebeu que estavam no local errado, percorreu a praia sob fogo e tomou uma decisão famosa: "Vamos começar a guerra mesmo a partir daqui!" Este erro tornou-se uma vantagem: o local onde desembarcaram por engano estava muito menos defendido do que o alvo original. Como resultado, Utah foi a praia com o menor número de baixas de todo o Dia D (cerca de 197 homens entre mortos e feridos). 


O apoio dos paraquedistas Utah Beach não pode ser explicada sem mencionar os paraquedistas das 101ª e 82ª Divisões Aerotransportadas (os "Screaming Eagles" e "All-American"). Eles saltaram durante a noite atrás das linhas inimigas para capturar as estradas que saíam da praia. Sem eles, a infantaria que desembarcava em Utah ficaria encurralada, pois a zona atrás da praia tinha sido inundada pelos alemães, criando pântanos intransitáveis. 
A captura de Utah era essencial para os Aliados tomarem o porto de Cherbourg, que era o único porto de águas profundas capaz de receber os grandes navios de abastecimento necessários para a libertação da Europa.

Restaurante Chez Arsène






Antes de seguirmos no nosso programa, parámos para almoçar no restaurante Chez Arsène, em Sainte-Marie-du-Mont, muito próximo do local histórico do desembarque em Utah Beach. É conhecido por combinar uma atmosfera acolhedora com uma cozinha que valoriza os produtos locais da Normandia. O espaço oferece um ambiente elegante e simultaneamente rústico, integrado no Domaine Utah Beach - um local tranquilo, ideal para relaxar após a visita aos monumentos da zona.
O menu foca-se na gastronomia regional francesa, com forte ênfase em grelhados e produtos frescos da época. 




Memorial Britânico da Normandia









Memorial Britânico da Normandia, localizado na vila de Ver-sur-Mer, é um dos mais recentes e impressionantes monumentos dedicados ao Dia D e à Batalha da Normandia. Foi inaugurado oficialmente a 6 de junho de 2021, no 77º aniversário da invasão.


Este é o único local na Normandia que reúne os nomes de todos os militares e civis que morreram sob comando britânico durante o verão de 1944. O projeto foi impulsionado pelo desejo dos veteranos britânicos de terem um memorial centralizado, semelhante aos memoriais americano (em Colleville-sur-Mer) e canadiano (em Juno Beach).

O memorial é composto por 160 colunas de pedra dispostas em torno de um grande pátio. Nelas estão gravados os nomes de 22 442 homens e mulheres que perderam a vida entre 6 de junho e 31 de agosto de 1944.

Situado numa colina com vista para Gold Beach, o local oferece um panorama deslumbrante sobre o canal da Mancha e permite ver, ao longe, os restos do porto artificial "Mulberry" em Arromanches.

Na entrada, destaca-se uma imponente escultura em bronze de três soldados britânicos a desembarcar, obra do escultor David Williams-Ellis.

Viagem à Normandia - dia 3: O setor americano, o Coração do Dia D

As cruzes brancas do cemitério americano

A Praia de Omaha é talvez o local mais famoso - e mais trágico - do Dia D. Foi aqui que as tropas americanas (1ª e 29ª Divisões de Infantaria) enfrentaram a resistência alemã mais feroz, resultando num número de baixas tão elevado que a praia ficou conhecida como "Omaha Sangrenta". 
 Diferente das outras praias, Omaha é rodeada por falésias altas. Os alemães da 352ª Divisão de Infantaria estavam posicionados no topo, com uma visão perfeita de tudo o que acontecia na areia. Muitos barcos de desembarque falharam o alvo devido às correntes. Tanques anfíbios afundaram-se antes de chegar à costa e o bombardeamento prévio falhou em destruir os bunkers alemães. Durante as primeiras horas, as tropas ficaram presas na areia, sob fogo intenso, sem conseguir avançar. Foi o General Norman Cota que proferiu a famosa frase: "Só há dois tipos de pessoas que vão ficar nesta praia: as que já morreram e as que vão morrer. Por isso, vamos sair daqui!" 








O Cemitério Americano da Normandia 
Situado na falésia sobre a praia, em Colleville-sur-Mer, o Cemitério Americano da Normandia é um local de uma solenidade absoluta. Contém as sepulturas de 9 387 soldados americanos, a maioria dos quais perdeu a vida durante o Dia D e as operações seguintes. As fileiras intermináveis de cruzes de mármore branco de Lasa, perfeitamente alinhadas sobre a relva verde com o oceano ao fundo, formam uma das imagens mais emblemáticas da Normandia. 
Um memorial que contém os nomes de 1 557 soldados cujos restos mortais nunca foram encontrados ou identificados. 
O Centro de Visitantes, localizado no cemitério, oferece uma excelente exposição com objetos pessoais, filmes e mapas que explicam a batalha em detalhe. 
Visitar a praia de Omaha é uma experiência emocionalmente forte, que contrasta a beleza natural da costa francesa com a memória de um dos momentos mais sombrios e corajosos da história moderna. 



Aqui repousam os restos mortais dos soldados alemães



O cemitério alemão

Depois de termos visto o cemitério americano e o memorial aos franceses, quisemos ver também o cemitério dos que estavam do outro lado da contenda. Podiam ser os "maus", mas mesmo esses morreram. Independentemente da ideologia, o custo humano foi devastador para ambos os lados.
O Cemitério Alemão de Orglandes, localizado na na península de Cotentin, é um dos principais locais para soldados alemães que morreram durante a Batalha da Normandia na Segunda Guerra Mundial.

Originalmente, o local serviu como um cemitério temporário estabelecido pelas tropas dos EUA após o Dia D em junho de 1944. Inicialmente, tanto soldados americanos como alemães foram enterrados aqui devido à necessidade prática de sepultamento rápido após os intensos combates na região de Cherbourg.

Após o fim da guerra, entre 1945 e 1946, os corpos dos soldados americanos foram transferidos para o cemitério de St. Laurent-sur-Mer (Omaha Beach). O Serviço Francês de Sepultamento utilizou então o espaço vazio para reunir soldados alemães que estavam em túmulos isolados ou pequenos cemitérios de campo nos arredores. O cemitério foi oficialmente inaugurado em setembro de 1961 pela Comissão Alemã de Túmulos de Guerra (Volksbund).

O cemitério abriga restos mortais de mais de 10 100 soldados alemães. O local é composto por 28 secções de túmulos dispostas num extenso relvado, marcadas por cruzes de pedra simples que ostentam nomes, postos e datas de nascimento/falecimento. Vários túmulos têm os restos mortais de dois ou mesmo três soldados. 

Diferente dos monumentais cemitérios americanos, Orglandes destaca-se pela sua simplicidade e serenidade, oferecendo um espaço para reflexão sobre o custo humano da guerra.


Pointe du Hoc

altas falésias
Antes de terminarmos o dias, passámos ainda por Pointe du Hoc, onde os rangers escalaram as falésias. 

Crateras de bombas dos aliados


A paisagem ainda está marcada pelas crateras das bombas; é um dos locais mais visuais da guerra. Pointe du Hoc é, visualmente, o local mais impressionante do Dia D. Trata-se de um promontório com falésias verticais de 30 metros de altura que se projeta no mar entre as praias de Omaha e Utah. Para os estrategos aliados, este era o lugar mais perigoso da Normandia e a missão para o capturar foi considerada quase "suicida".  O serviço de inteligência acreditava que os alemães tinham instalado ali seis canhões de 155 mm capazes de afundar navios em ambas as praias americanas. 

225 rangers americanos, liderados pelo Tenente-Coronel James Rudder, desembarcaram na base da falésia, para tentar escalá-la usando cordas, escadas de bombeiros e ganchos disparados por morteiros, e destruir os canhões. 

Bunker alemão
Bunker alemão

Sob fogo intenso e granadas lançadas do topo, os Rangers escalaram as paredes de pedra. Surpreendentemente, chegaram ao topo em apenas 15 minutos.Ao chegarem aos bunkers, os Rangers descobriram algo inacreditável: os canhões não estavam lá. Devido aos bombardeamentos aéreos constantes nos dias anteriores, os alemães tinham movido as armas para um pomar ali perto, substituindo-as por postes de madeira pintados para enganar os aviões de reconhecimento. Os Rangers acabaram por encontrar os canhões escondidos a cerca de 500 metros de distância e destruíram-nos com granadas térmicas. 

A parte mais difícil não foi a subida, mas manter a posição. Os Rangers ficaram isolados por dois dias, sofrendo contra-ataques constantes. Dos 225 homens que iniciaram o assalto, apenas 90 ainda conseguiam lutar quando os reforços finalmente chegaram. 

Hoje em dia, Pointe du Hoc é o único local onde o terreno foi deixado exatamente como estava em 1944. É uma visão surreal: o solo está cheio de crateras enormes e profundas, causadas pelos bombardeamentos navais dos couraçados. Podemos entrar em vários bunkers de betão retorcidos pelas explosões. No ponto mais avançado da falésia, existe um monumento em forma de adaga (símbolo dos Rangers) erguido sobre um bunker de observação alemão. 

A adaga, o símbolo dos rangers

Para relaxar de todas as fortes impressões do dia, jantámos num simpático restaurante de marisco em Port-en-Bessin, uma vila piscatória pitoresca entre as praias.







terça-feira, 14 de abril de 2026

Viagem à Normandia - dia 2: de Nantes a Arromanches lês Bains

 

Campo de colza

Partir de Nantes rumo ao norte é iniciar uma viagem onde a paleta de cores da Normandia e do Vale do Loire se funde num espetáculo visual inesquecível. À medida que deixamos a cidade dos Duques da Bretanha, a paisagem transforma-se rapidamente numa sucessão de quadros impressionistas, dominados por uma cor vibrante: o amarelo elétrico da colza.

Campo de colza
Durante a primavera, este percurso torna-se uma experiência quase hipnótica. Grandes extensões de campos de colza estendem-se até ao horizonte, criando mantos dourados que contrastam dramaticamente com o azul profundo do céu e o verde luxuriante das sebes tradicionais. Estas vistas panorâmicas de amarelo intenso não são apenas manchas na paisagem; são oceanos terrestres que ondulam ao sabor do vento, oferecendo paragens obrigatórias para qualquer entusiasta da fotografia.

Ao atravessar a zona rural, o perfume suave das flores acompanha o viajante até à chegada à costa de Calvados. 

A autoestrada passa pela floresta de Rennes. Situada às portas da capital bretã, é um pulmão verde de quase 3 000 hectares. Antigo domínio real, este maciço florestal é dominado por carvalhos e faias centenários, cujas copas criam catedrais naturais de luz e sombra.

A chegada à Normandia faz um contraste final, emocionante: a transição da vivacidade solar dos campos para a solenidade histórica das praias. Onde o amarelo cede lugar às areias douradas e ao mar esmeralda, resta a memória de um caminho percorrido entre a beleza serena da natureza francesa e o peso heroico da história.





Ponte Pegasus

Depois de termos deixado a nossa "tralha" no "gite" (casa de campo) que alugámos em Tour-en-Bessin, rumámos diretamente para Bénouville para vermos um dos símbolos mais emblemáticos da audácia e do sucesso aliado à Operação Overlord, o desembarque na Normandia em 6 de junho de 1944: a Ponte Pegasus, originalmente chamada de ponte de Bénouville. Situada sobre o Canal de Caen, a sua captura era vital para proteger o flanco leste das praias da invasão e impedir que os reforços alemães isolassem as tropas britânicas.

A operação foi executada pela Companhia D do 2.º Batalhão de Infantaria Ligeira de Oxfordshire e Buckinghamshire, sob o comando do Major John Howard. Utilizando três planadores Horsa, os soldados realizaram uma proeza de navegação silenciosa, aterrando a poucos metros do objetivo pouco depois da meia-noite. Em apenas dez minutos, num combate rápido e feroz, a ponte foi tomada. Esta foi a primeira unidade aliada a entrar em combate no Dia DFoi nesta operação que ocorreu a primeira morte de um soldado aliado no Dia D por fogo inimigo (o Tenente Den Brotheridge).

O nome "Pegasus" foi atribuído em homenagem à insígnia dos paraquedistas britânicos: o cavalo alado da mitologia grega. Hoje, a ponte original repousa no museu local, tendo sido substituída por uma réplica funcional em 1994. Ela permanece como um tributo à precisão militar e ao sacrifício dos homens que "seguraram a ponte" até à chegada do resto das forças aliadas.

Aqui encontrámos uma jovem franco-americana, professora de línguas em Le Havre, e que anda a passear de bicicleta. Assim que nos viu, saltou da bicicleta e ofereceu-se para nos tirar fotografias, falando um pouco sobre a sua vida na Normandia. Um encontro muito interessante!

Esta ponte foi o cenário de uma das operações de comandos mais precisas e bem-sucedidas da história militar: a nissão Operação Deadstick. O objetivo era capturar intactas duas pontes sobre o Canal de Caen e o Rio Orne e, assim, impedir que os reforços blindados alemães chegassem às praias de desembarque (especialmente Sword Beach) e garantir uma rota de saída para as tropas aliadas que avançavam para o interior.

Liderados pelo Major John Howard, 181 homens da Companhia D da Infantaria Ligeira de Oxfordshire e Buckinghamshire chegaram em seis planadores Horsa.

A operação é frequentemente citada como um exemplo perfeito de surpresa e precisão. A aterragem foi cirúrgica. Os pilotos dos planadores conseguiram aterrar a poucos metros do objetivo, no escuro total, em silêncio absoluto.

A estrutura original que se vê em filmes como O Dia Mais Longo já não está sobre o canal, mas ainda pode ser visitada. Em 1994, a ponte original foi substituída por uma nova (ligeiramente maior para acomodar o tráfego moderno). A ponte original de 1944 foi preservada e está exposta nos jardins do Memorial Pegasus, em Ranville-Bénouville.


Café Gondré

Mesmo ao lado da ponte, este café foi a primeira casa na França continental a ser libertada. A família Gondrée ainda o gere hoje, servindo como um pequeno museu informal e local de peregrinação para veteranos.

 

Ouistreham

Daqui seguimos para Ouistreham, uma cidade costeira famosa pelo seu papel crucial no Dia D como parte da Sword Beach. Ela é particularmente importante para nós porque está diretamente ligada à história da Ponte Pegasus.


Sword Beach

A praia estende-se por 8 km, de Lion-sur-Mer até Ouistreham.  A 3ª Divisão de Infantaria Britânica, apoiada por unidades de comandos, desembarcou aqui. Foi a única praia onde desembarcaram tropas francesas no primeiro dia — os famosos Comandos Kieffer (177 fuzileiros navais franceses livres, liderados por Philippe Kieffer), que tinham como missão específica libertar a cidade de Ouistreham.

Philippe Kieffer

É aqui que está o monumento A Chama, localizado sobre um antigo bunker alemão, diretamente na praia, oferece uma vista direta para a área de desembarque, pois situa-se no local exato onde as tropas francesas e britânicas iniciaram a libertação da cidade.


Os nomes de todos os 177 soldados franceses que participaram na operação estão gravados no metal da chama. O acesso é ladeado por dez pedras que ostentam os nomes dos comandos que perderam a vida durante os combates nesta zona.


Esta praia era a "âncora" da invasão. Se Sword falhasse, o flanco esquerdo dos Aliados ficaria exposto a um contra-ataque direto das divisões Panzer alemãs.

Enquanto os paraquedistas e comandos de planador tomavam a Ponte Pegasus durante a noite, as tropas que desembarcavam em Sword tinham o objetivo de avançar rapidamente pelo interior para reforçá-los. Por volta das 13h00, os comandos britânicos, liderados por Lord Lovat, atravessaram a Ponte Pegasus ao som da gaita de fole de Bill Millin, unindo as tropas que vinham do mar com as que tinham caído do céu.

Embora o desembarque na praia tenha sido relativamente bem-sucedido (com cerca de 630 baixas, um número baixo comparado a Omaha), o avanço seguinte foi difícil. O plano era capturar a cidade estratégica de Caen ainda no dia 6 de junho. Os britânicos encontraram a 21ª Divisão Panzer alemã, a única unidade de tanques que conseguiu lançar um contra-ataque organizado no próprio Dia D. Ou seja, Caen, que deveria cair em horas, demorou mais de um mês de combates sangrentos para ser totalmente libertada.

Na Praia Sword, os britânicos usaram em massa os tanques especializados conhecidos como Hobart's Funnies. Eram tanques modificados para lançar pontes, destruir campos minados (tanques com correntes batendo no chão) e atuar como lança-chamas. Essas invenções foram cruciais para limpar rapidamente os obstáculos da "Muralha do Atlântico" (a linha de fortalezas/bunkers alemães ao longo de toda a costa, cujo principal objetivo era impedir uma invasão dos Aliados à Europa continental a partir de solo britânico).



O Grande Bunker

O Le Grand Bunker - Museu do Muro do Atlântico é a principal atração histórica da cidade. Este antigo posto de comando alemão, com 17 metros de altura, foi meticulosamente restaurado para mostrar como era a vida e a operação militar durante a ocupação.

O museu está distribuído por cinco pisos, recriando fielmente salas de geradores, centros de transmissão de rádio, enfermarias e o posto de observação no topo.

Apresenta uma vasta coleção de uniformes, armas e objetos quotidianos dos soldados, além da famosa barcaça de desembarque "PA 13-4" utilizada no filme "O Resgate do Soldado Ryan".

Do topo do bunker, temos uma visão estratégica de toda a costa, a mesma que os oficiais alemães tinham enquanto vigiavam o Canal da Mancha.


Daqui seguimos para a Praia Juno (Juno Beach), o setor de responsabilidade das forças canadianas durante o Dia D. Situada entre as praias britânicas de Gold e Sword, Juno é recordada como um dos campos de batalha mais ferozes e sangrentos daquela manhã, superada em baixas apenas pela infame Praia Omaha.

Enquanto os EUA e o Reino Unido levavam a maior parte da atenção mediática, o Canadá desempenhou um papel vital. A 3ª Divisão de Infantaria Canadiana e a 2ª Brigada Blindada Canadiana foram as pontas de lança. Devido ao mar agitado e à presença de recifes rochosos, os canadianos desembarcaram cerca de 15 a 30 minutos mais tarde do que o planeado. Ou seja, a maré já estava mais alta, escondendo os obstáculos minados colocados pelos alemães na areia. Muitos barcos de desembarque foram destruídos antes mesmo de os soldados chegarem à costa.

Ao contrário de outros setores onde os bombardeios navais e aéreos destruíram as defesas, em Juno a Muralha do Atlântico permaneceu quase intacta. Os alemães não tinham as metralhadoras apontadas para o mar, mas sim ao longo da praia. Quando os canadianos saíram dos barcos, entraram diretamente em corredores de fogo cruzado. Juno incluía cidades costeiras como Courseulles-sur-Mer. Os soldados tiveram de lutar casa a casa para neutralizar os atiradores de elite e ninhos de metralhadoras.

Apesar do início catastrófico, o desempenho dos canadianos foi extraordinário. No final de 6 de junho, as tropas de Juno tinham avançado mais para o interior do que qualquer outra força aliada no Dia D, mas com um alto custo . O Canadá sofreu cerca de 1 074 baixas (incluindo 359 mortos) em apenas algumas horas.

Um dos soldados que desembarcou em Juno foi James Doohan, que mais tarde ficaria famoso mundialmente como o "Scotty" da série original de Star Trek. Ele foi ferido por seis tiros (amigáveis, num acidente de sentinela) na noite do Dia D, perdendo um dedo médio, que ele costumava esconder durante as filmagens da série.

Arromanches-les-Bains

Bem perto, está a vila de Arromanches-les-Bains. Aqui podem ver -se os restos do Porto Mulberry (porto artificial) no mar. Se a Ponte Pegasus foi uma obra-prima de tática militar, o Porto Mulberry foi o maior triunfo da engenharia da Segunda Guerra Mundial. Imagine-se o desafio: os Aliados precisavam de desembarcar milhares de toneladas de mantimentos, tanques e munições todos os dias, mas os alemães controlavam todos os portos franceses (e tinham-nos fortificado fortemente). A solução de Churchill foi audaciosa: "Se não podemos capturar um porto, vamos levar o nosso."

"Baleias"


Phoenix na maré baixa (esquerda) e na maré alta (direota)

Tivemos a sorte a chegar na maré baixa, quando é possível caminhar até alguns dos enormes blocos de cimento (chamados de caixões Phoenix) que ficaram encalhados na areia. No mar, ainda se avista o semicírculo formado por estas estruturas, que serviam como quebra-mares.

Como funcionava esta "cidade flutuante"? Os Portos Mulberry eram dois portos artificiais pré-fabricados na Inglaterra, rebocados através do Canal da Mancha e montados na Normandia logo após o Dia D: Mulberry A, instalado na Praia Omaha (setor americano), e Mulberry B, instalado em Arromanches (setor britânico/Gold Beach), também conhecido como "Port Winston".

O porto não era apenas uma peça, mas um sistema complexo de componentes, tipo Lego gigante, com nomes de código curiosos:

  • Phoenix: Enormes caixotões de betão (do tamanho de prédios de 5 andares) que eram afundados para criar um quebra-mar fixo.
  • Gooseberries: Navios antigos que foram deliberadamente afundados para ajudar a acalmar as águas.
  • Whales (Baleias): Estradas flutuantes de aço que subiam e desciam com a maré, permitindo que os camiões dirigissem do navio até à areia.
  • Beetles (Besouros): Os flutuadores de betão que sustentavam as estradas "Baleias".

Apenas duas semanas após o Dia D, uma tempestade violenta (a pior em 40 anos) atingiu o canal. O Mulberry A (americano) foi quase totalmente destruído pela tempestade. Os americanos decidiram abandoná-lo e continuar a descarregar diretamente na areia. O Mulberry B (Arromanches) resistiu melhor e tornou-se a "espinha dorsal" da logística aliada. Durante 10 meses, serviu para desembarcar mais de 2,5 milhões de soldados, 500 mil veículos e 4 milhões de toneladas de provisões. Sem este porto, os Aliados teriam ficado sem combustível e munições muito rapidamente, especialmente porque os alemães praticavam a política de "terra queimada" nos portos que abandonavam. O Mulberry permitiu manter o ritmo da invasão até que os portos franceses fossem recuperados e reparados.

O desafio era enorme: na Normandia, a maré pode subir e descer até 7 metros. Se a estrada fosse fixa, ficaria submersa ou pendurada no ar.

As estradas (Baleias) não eram blocos rígidos, mas sim secções de aço de cerca de 24 metros cada, ligadas por juntas flexíveis (semelhantes às de um comboio, mas com movimento em todos os eixos). Isso permitia que a estrada se curvasse e acompanhasse o movimento das ondas sem partir. Por baixo de cada junção da estrada, havia flutuadores chamados (Besouros) (Beetles). Alguns eram de aço, mas a maioria era de betão para economizar metal. Garantiam que a estrada estivesse sempre ao nível da água.

O ponto onde os navios encostavam era a parte mais engenhosa. Eram plataformas maciças com quatro pernas de aço gigantescas. Quando a plataforma chegava ao local, as pernas eram baixadas até tocarem o fundo do mar. A plataforma em si tinha um sistema de macacos hidráulicos que permitia que ela "deslizasse" para cima e para baixo nas pernas conforme a maré subia ou descia, mas mantendo-se sempre estável e nivelada para os camiões.

O Museu de Arromanches (Musée du Débarquement) 

Este museu é paragem obrigatória porque foi construído exatamente em frente ao local onde o porto funcionou. O destaque do museu é uma maquete mecânica enorme que demonstra exatamente o movimento das marés e como os componentes Phoenix, Whales e Spud Piers (pontoes de descarga) trabalhavam em conjunto. Perto do museu, há um cinema circular - Cinema Arromanches 360 -  que projeta imagens de arquivo em 360 graus, mostrando o porto em plena operação em 1944. É uma experiência muito imersiva.

Jantámos em Arromanches-les-Bains. E o quê? Obviamente... mexilhões com batatas fritas.