À
margem da Cimeira de Aviação AviationEvent, Manfred Pentz detalhou a estratégia
de diplomacia corporativa que garantiu o sucesso na aquisição da ITA Airways e
que agora pavimenta o caminho da Lufthansa rumo à TAP.
A consolidação do setor aéreo na Europa deixou de ser uma mera questão de
balanços financeiros para se tornar um complexo jogo de xadrez geopolítico. No
centro deste tabuleiro encontra-se o estado alemão de Hesse, onde se situa o
aeroporto de Frankfurt — a principal plataforma giratória (hub) da Lufthansa e um dos maiores empregadores da
região. O governo de Hesse assumiu um papel de relevo na defesa dos interesses
da sua "campeã nacional".
Manfred Pentz, Ministro para os Assuntos Federais, Europeus e
Desburocratização de Hesse, clarificou a natureza do lobby
exercido em Bruxelas: não se tratou de romper regras, mas de uma
"desburocratização estratégica" destinada a moldar as concessões
exigidas pela União Europeia (UE).
O precedente ITA que pode ajudar Lisboa
O caso da aquisição de 41% da ITA Airways pela Lufthansa, aprovado em julho
de 2024, é agora visto como o "o modelo" para a operação em Portugal.
Embora o escrutínio oficial tenha cabido à Direção-Geral da Concorrência,
liderada por Margrethe Vestager, Hesse atuou nos bastidores para apoiar a
Lufthansa neste negócio.
O argumento central foi a competitividade global. Para Hesse, a
sobrevivência da Lufthansa face às gigantes do Golfo e dos EUA depende da sua
capacidade de absorver outros operadores. Ao adquirir a ITA, o grupo alemão não
só estabilizou o mercado mediterrânico, como protegeu a conectividade de
Frankfurt com o sul da Europa. O sucesso deste lobby mediu-se na
"limpeza" do remédio regulatório: a Lufthansa cedeu o número
estritamente necessário de slots em aeroportos
congestionados, como Milão-Linate, preservando as suas lucrativas rotas
transatlânticas.
TAP: O caminho regulatório "limpo"
Para Manfred Pentz, o desfecho italiano criou um precedente jurídico e
estratégico que favorece a posição do grupo alemão em Lisboa. Se a aprovação da
ITA foi o balão de ensaio, a TAP é o objetivo estratégico final.
Diferente do cenário da ITA, o "caminho regulatório" para a TAP
parece mais desimpedido. Não existe uma sobreposição significativa de rotas:
enquanto a Lufthansa domina as ligações para o Centro/Norte da Europa e Ásia, a
TAP é a "joia da coroa" no Atlântico Sul e Brasil. Esta
complementaridade é o trunfo da Lufthansa para convencer Bruxelas de que a
fusão não prejudica a concorrência, mas reforça a rede europeia.
Além disso, a estrutura de negócio "passo-a-passo" — testada com
sucesso em Itália — já foi replicada. Em novembro de 2025, a Lufthansa
formalizou junto da Parpública o interesse numa participação minoritária
inicial (até 44,9%). Esta entrada gradual minimiza a resistência política em
Portugal e permite uma integração operacional suave, já sinalizada pelo reforço
de parcerias com a United Airlines nas rotas tradicionalmente operadas pela
companhia portuguesa.
Os desafios: Concorrência e identidade nacional
Apesar do otimismo de Hesse, o dossier português apresenta variáveis
distintas do italiano. Em primeiro lugar, a Lufthansa não corre sozinha;
enfrenta a concorrência direta da Air France-KLM e do IAG (British
Airways/Iberia), cujas propostas finais são esperadas este verão.
Em segundo lugar, a sensibilidade política em Lisboa é mais acentuada no
que toca à soberania da marca. Se na ITA a Lufthansa era vista como a única
salvação viável, em Portugal o Governo exige garantias de manutenção do hub em Lisboa e da identidade nacional da companhia. Aqui,
a diplomacia de Hesse tem usado o seu melhor argumento histórico: o sucesso do
modelo multi-marca do grupo, que preservou a identidade e a autonomia
operacional da Swiss e da Austrian Airlines após as respetivas aquisições.
Para Manfred Pentz e o governo de Hesse, a equação é simples: o futuro de
Frankfurt como motor económico da Alemanha está intrinsecamente ligado à
capacidade da Lufthansa em dominar os céus do Atlântico. E esse futuro passa,
inevitavelmente, por Lisboa.








