sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O "Eixo de Frankfurt": Como o Estado de Hesse molda a consolidação da aviação europeia

 



À margem da Cimeira de Aviação AviationEvent, Manfred Pentz detalhou a estratégia de diplomacia corporativa que garantiu o sucesso na aquisição da ITA Airways e que agora pavimenta o caminho da Lufthansa rumo à TAP.

A consolidação do setor aéreo na Europa deixou de ser uma mera questão de balanços financeiros para se tornar um complexo jogo de xadrez geopolítico. No centro deste tabuleiro encontra-se o estado alemão de Hesse, onde se situa o aeroporto de Frankfurt — a principal plataforma giratória (hub) da Lufthansa e um dos maiores empregadores da região. O governo de Hesse assumiu um papel de relevo na defesa dos interesses da sua "campeã nacional".

Manfred Pentz, Ministro para os Assuntos Federais, Europeus e Desburocratização de Hesse, clarificou a natureza do lobby exercido em Bruxelas: não se tratou de romper regras, mas de uma "desburocratização estratégica" destinada a moldar as concessões exigidas pela União Europeia (UE).

O precedente ITA que pode ajudar Lisboa

O caso da aquisição de 41% da ITA Airways pela Lufthansa, aprovado em julho de 2024, é agora visto como o "o modelo" para a operação em Portugal. Embora o escrutínio oficial tenha cabido à Direção-Geral da Concorrência, liderada por Margrethe Vestager, Hesse atuou nos bastidores para apoiar a Lufthansa neste negócio.

O argumento central foi a competitividade global. Para Hesse, a sobrevivência da Lufthansa face às gigantes do Golfo e dos EUA depende da sua capacidade de absorver outros operadores. Ao adquirir a ITA, o grupo alemão não só estabilizou o mercado mediterrânico, como protegeu a conectividade de Frankfurt com o sul da Europa. O sucesso deste lobby mediu-se na "limpeza" do remédio regulatório: a Lufthansa cedeu o número estritamente necessário de slots em aeroportos congestionados, como Milão-Linate, preservando as suas lucrativas rotas transatlânticas.



TAP: O caminho regulatório "limpo"

Para Manfred Pentz, o desfecho italiano criou um precedente jurídico e estratégico que favorece a posição do grupo alemão em Lisboa. Se a aprovação da ITA foi o balão de ensaio, a TAP é o objetivo estratégico final.

Diferente do cenário da ITA, o "caminho regulatório" para a TAP parece mais desimpedido. Não existe uma sobreposição significativa de rotas: enquanto a Lufthansa domina as ligações para o Centro/Norte da Europa e Ásia, a TAP é a "joia da coroa" no Atlântico Sul e Brasil. Esta complementaridade é o trunfo da Lufthansa para convencer Bruxelas de que a fusão não prejudica a concorrência, mas reforça a rede europeia.

Além disso, a estrutura de negócio "passo-a-passo" — testada com sucesso em Itália — já foi replicada. Em novembro de 2025, a Lufthansa formalizou junto da Parpública o interesse numa participação minoritária inicial (até 44,9%). Esta entrada gradual minimiza a resistência política em Portugal e permite uma integração operacional suave, já sinalizada pelo reforço de parcerias com a United Airlines nas rotas tradicionalmente operadas pela companhia portuguesa.

Os desafios: Concorrência e identidade nacional

Apesar do otimismo de Hesse, o dossier português apresenta variáveis distintas do italiano. Em primeiro lugar, a Lufthansa não corre sozinha; enfrenta a concorrência direta da Air France-KLM e do IAG (British Airways/Iberia), cujas propostas finais são esperadas este verão.

Em segundo lugar, a sensibilidade política em Lisboa é mais acentuada no que toca à soberania da marca. Se na ITA a Lufthansa era vista como a única salvação viável, em Portugal o Governo exige garantias de manutenção do hub em Lisboa e da identidade nacional da companhia. Aqui, a diplomacia de Hesse tem usado o seu melhor argumento histórico: o sucesso do modelo multi-marca do grupo, que preservou a identidade e a autonomia operacional da Swiss e da Austrian Airlines após as respetivas aquisições.

Para Manfred Pentz e o governo de Hesse, a equação é simples: o futuro de Frankfurt como motor económico da Alemanha está intrinsecamente ligado à capacidade da Lufthansa em dominar os céus do Atlântico. E esse futuro passa, inevitavelmente, por Lisboa.