| Painel sobre inovação e regulamentação |
A indústria da aviação vive um paradoxo fascinante: é, simultaneamente, um dos setores mais tecnologicamente avançados do mundo e um dos mais rigidamente regulados. Esta foiuma das conclusóes a que se chegou na Cimiera de Aviação AviationEvent que teve lugar em Frankfurt, na Alemanha, no início de fevereiro,
Enquanto a inteligência artificial (IA) e a robótica prometem revolucionar desde a manutenção de pistas até à limpeza de terminais, uma teia complexa de normas, taxas e resistências psicológicas ameaça travar o ritmo do progresso. A questão que domina os conselhos de administração e os painéis de especialistas é urgente: poderá a inovação prosperar num ambiente onde a regulação parece ser, por definição, um travão?
A barreira invisível: medo e resistência
O primeiro obstáculo à
inovação não é técnico, mas humano. "As pessoas são muito resistentes à
mudança, têm medo do novo", observa-se frequentemente nos debates do
setor. A regulamentação, em princípio, não é um inimigo; ela nasce da
necessidade absoluta de segurança — o valor supremo da aviação. No entanto, o
desafio surge quando o ritmo da lei não acompanha o ritmo da tecnologia.
Jürgen Krumtünger, Diretor Executivo da Prologis, é
direto: "A regulação trava a inovação". Para este líder, o excesso de
camadas administrativas cria um ambiente onde a experimentação é punida pela
lentidão burocrática. Por outro lado, Dietmar Schneider,
Diretor Global de Vendas da ADB SAFEGATE, procura um
caminho de conciliação. Para este profissional, a chave reside em encontrar um
"meio termo" entre a necessidade de segurança normativa e a urgência
de implementar tecnologias que podem salvar o setor da estagnação económica.
Airside 4.0: A tecnologia que desafia os limites
A ADB SAFEGATE é,
talvez, o melhor exemplo de como a inovação está a tentar "dar a
volta" às limitações físicas e regulatórias. Como uma das maiores
referências mundiais em infraestrutura aeroportuária, a empresa foca-se no
"lado ar" (airside) — o ecossistema crítico
onde o avião se move desde a aproximação até ao estacionamento.
A visão da empresa
assenta no conceito Airside 4.0, uma tríade de segurança,
eficiência e sustentabilidade que opera em quatro pilares fundamentais:
- Pista: Líderes em sistemas de iluminação LED inteligente (AGL), que permitem
guiar pilotos em condições de visibilidade quase nula.
- Porta de embarque/placa: Através dos sistemas Safedock
(DGS), os ecrãs digitais orientam o piloto para estacionar com precisão
milimétrica, eliminando o erro humano e acelerando o desembarque.
- Torre de controlo: Software integrado que reduz o esforço manual
dos controladores, unindo radares e sensores de pista.
- Serviços e software: O uso de análise de dados e IA para prever
"engarrafamentos" no solo antes de eles ocorrerem.
Esta tecnologia tem um
impacto económico direto: tempo no chão é tempo em que o avião não gera
lucro. Ao acelerar a atracagem e reduzir os atrasos causados por
nevoeiro ou tempestades, a inovação tecnológica está a fazer o trabalho que a
burocracia muitas vezes impede: aumentar a rentabilidade sem comprometer a
segurança.
Robots e IA: O caso da limpeza e os testes em Luton
Se no ar a tecnologia
é sofisticada, nos terminais ela enfrenta barreiras igualmente complexas. Thomas Jessberger, gestor na Sasse Aviation,
responsável pela limpeza de grandes aeroportos europeus, partilhou as
dificuldades de implementar sistemas apoiados por IA.
Os testes com robots
de limpeza realizados no Aeroporto de Luton revelaram que, embora a tecnologia
estivesse pronta — beneficiando da proximidade geográfica da equipa de
desenvolvimento no Reino Unido —, a regulamentação foi o maior entrave.
Introduzir uma máquina autónoma num ambiente com milhares de passageiros
imprevisíveis exige uma reescrita de normas de segurança que, muitas vezes,
leva anos a ser aprovada.
A velocidade da mudança vs. a lentidão da lei
Esta desfasagem
temporal é o ponto central da análise de Richard Maslen, Diretor
de Análise do CAPA (Centro de Aviação), que realça que a aviação é uma
indústria em movimento perpétuo, mas "leva muito tempo a mudar as
regulamentações". O conselho do analista é pragmático: as empresas têm de
trabalhar tentando "dar a volta" às regulamentações existentes,
inovando dentro das margens possíveis enquanto pressionam por mudanças
legislativas.
A indústria não pode
esperar dez anos por um novo quadro normativo se a tecnologia de
descarbonização ou de IA muda a cada seis meses. Como se viu no outono passado
com as decisões do governo alemão para aumentar a posição da Alemanha como hub
de transporte aéreo, há uma vontade política de simplificar, mas a
implementação no terreno é lenta.
Desburocratização: A única rota de fuga
A necessidade de processos mais rápidos e flexíveis é um grito comum. No
estado de Hesse, Manfred Pentz tem liderado a bandeira da desburocratização,
entendendo que a sobrevivência do Aeroporto de Frankfurt e de outros hubs
depende da eliminação de "desvantagens autoimpostas" (self-imposed disadvantages).
As taxas de aeroporto
e de segurança são altas, em parte, devido à ineficiência de processos manuais
e burocráticos. A digitalização de passageiros e de carga não é apenas um
"luxo tecnológico"; é a ferramenta necessária para baixar a
regulamentação física e, por consequência, reduzir as taxas que retiram
competitividade à Europa face a regiões como a Ásia ou o Médio Oriente.
O caminho futuro: Equidade e colaboração
Para que a inovação
avance verdadeiramente, a proteção ambiental e as regras de segurança têm de
ser justas. A indústria exige as mesmas regras para todos — na Alemanha, na
China ou na Índia. Se a regulação europeia for a única a ser rígida, a inovação
fugirá para outros mercados.
A aviação do futuro
será definida pela capacidade de política e sociedade
trabalharem juntas. A implementação de SAF (Combustível Sustentável de
Aviação), que este ano começa com 2% e aumentará gradualmente, exige uma
infraestrutura de apoio que só a desburocratização pode acelerar.
Os participantes deste
painel na Cimeira da Aviação AviationEvent, que teve lugar em Frankfurt,
reconheceram que a inovação não só pode como tem de avançar
apesar da regulação. O segredo reside na colaboração: os reguladores devem
tornar-se facilitadores, e as empresas, como a ADB SAFEGATE ou a Sasse Aviation,
devem continuar a provar que a tecnologia não é uma ameaça à segurança, mas sim
a sua maior aliada. O Terminal 3 em Frankfurt é o símbolo desta visão: não é
apenas um projeto de construção, é um investimento na competitividade de uma
nação que recusa ficar para trás no tempo.