domingo, 2 de agosto de 2026

Uma Visita à Villa Romana da Horta da Torre

 


Há visitas ao património que se gravam na memória não apenas pelo interesse histórico, mas pela experiência humana que as envolve. A nossa jornada até à Villa Romana da Horta da Torre, em Cabeço de Vide, concelho de Fronteira, foi precisamente um desses momentos inesquecíveis, onde o passado romano e o presente da investigação arqueológica se entrelaçaram de forma inesperadamente literal.

 A nossa chegada ao sítio arqueológico teve todos os ingredientes de uma autêntica aventura de verão no Alentejo. O calor escaldante fazia-se sentir com rigor e a viagem prosseguia por um caminho de terra batida. A meio do trajeto, com uma generosidade que reflete a sua paixão pelo acolhimento e pela divulgação científica, o arqueólogo responsável pelas escavações, o professor André Carneiro, veio ao nosso encontro de carrinha para nos guiar e poupar à caminhada sob o sol inclemente.

Contudo, o terreno pregou-nos uma partida. Ao tentar fazer uma inversão de marcha no caminho poeirento, a carrinha acabou por ficar com uma das rodas suspensa no ar, sem qualquer adesão à terra.

Com trabalho de equipa, a carrinha conseguiu avançar

Apesar dos nossos esforços iniciais para resolver o problema, a viatura recusava-se a mover. A nossa salvação surgiu sob a forma de três estudantes de arqueologia, que interromperam o seu trabalho de escavação e vieram em nosso auxílio empunhando as suas picaretas. Num esforço de equipa notável — entre muita força braçal, entreajuda, pedregulhos debaixo das rodas e densas nuvens de pó —, conseguimos finalmente libertar a carrinha.

 

Estudantes portugueses e internacionais participam na campanha de escavações

A Villa Romana da Horta da Torre tem vindo a ser revelada graças à liderança e ao rigor científico do Professor André Carneiro, da Universidade de Évora. O trabalho ali desenvolvido é um exemplo de dedicação, funcionando através de duas campanhas anuais de escavação, com a duração de duas semanas cada, onde estudantes de História e Arqueologia trocam as férias pelo trabalho árduo de campo.





Num panorama onde a arqueologia em Portugal enfrenta frequentemente a escassez de apoios institucionais, o projeto subsiste muito graças ao amor à camisola, a carolice e também à cooperação local. A Câmara Municipal de Fronteira assegura a cedência da carrinha de apoio, garante o alojamento dos jovens estudantes no Centro de Estágios de Fronteira e fornece as refeições diárias à equipa.

 

A arquitetura da opulência: o luxo romano no interior alentejano

Ao caminhar pelas ruínas, torna-se claro que a Villa da Horta da Torre não era uma simples exploração agrícola rústica, mas sim uma residência senhorial de um dominus de elevadíssimo estatuto social. O complexo apresenta características arquitetónicas verdadeiramente únicas no contexto hispano-romano.

A villa destaca-se por uma sala de banquetes cenográfica articulada com um nymphaeum (sistema de espelho d'água). A água fluía continuamente por espaços cénicos, arrefecendo a temperatura ambiente durante o verão e proporcionando um ambiente relaxante de ostentação visual e sonora para os convidados.

A estrutura do stibadium / nymphaeum 

Enquanto no período romano clássico o habitual era o triclinium (composto por três sofás retangulares dispostos em forma de "U" em redor de uma mesa), na Antiguidade Tardia o stibadium, uma espécie de divã semicircular,  tornou-se o elemento central da ostentação social. Outro ponto que torna a arquitetura da sala fascinante é exatamente o stibadium que estava integrado nesta divisão com um nymphaeum (espelho d'água), permitindo que os nobres jantassem deitados enquanto apreciavam o som e o arrefecimento da água a correr logo atrás deles.

As paredes e pavimentos estavam cobertos por elegantes placas de mármore, muitas delas extraídas das prestigiadas pedreiras locais de Estremoz e Vimieiro, formando padrões geométricos luxuosos. Além disso, os fragmentos de estuque pintado resgatados do solo revelam pigmentos vivos, indicando uma decoração pictórica rica que cobria as abóbadas e paredes dos aposentos nobres.



O grande peristilo da Villa da Horta da Torre funcionava como o coração monumental do complexo residencial. Este pátio central colunado articulava a circulação entre os aposentos nobres, as termas e a área de receção, promovendo a luz natural, a ventilação e a ostentação arquitetónica típica do luxo rural romano tardio.

O grande peristilo

A villa contava ainda com um complexo termal com um sofisticado sistema de piso suspenso onde o ar quente, alimentado por fornos (praefurnia), circulava para aquecer o caldarium (sala quente) e o tepidarium (sala morna).

Esta arquitetura sumptuosa no interior do Alentejo desafia as perspetivas tradicionais sobre o mundo rural hispano-romano, provando que as elites provinciais investiam somas avultadas para replicar o luxo urbano no coração do campo.

Tão fascinante como a arquitetura monumental é a informação retirada das lixeiras domésticas romanas (depósitos de detritos ou lixeiras de cozinha). O estudo zooarqueológico dos ossos de animais, a carpologia (análise de sementes carbonizadas) e o estudo dos fragmentos permitem traçar um retrato detalhado do estilo de vida e da alimentação dos domini. Assim, no que respeita à proteína animal de elite, os achados revelam a presença de ossos de gado doméstico (vaca, porco), mas também de veado, javali e coelho. A consumo de caça maior e menor funcionava como um claro indicador de prestígio, representando um privilégio e um passatempo de lazer reservado às elites.

Surpreendentemente, foram também identificados recursos marinhos, tais como conchas de ostras, mexilhões e espinhas de peixe. Estes achados provam a existência de rotas comerciais eficientes capazes de transportar marisco fresco e produtos como o garum desde a costa até ao interior alentejano.

Por fim, o estudo da cerâmica importada, através do achado de fragmentos de terra sigillata e ânforas, demonstra que, embora os alimentos pudessem ser confecionados localmente, eram acompanhados por azeites, vinhos e louças finas importados de diversas regiões do Império Romano.












 

A partir do século V d.C., com a desestruturação do Império Romano, a villa perdeu o seu esplendor original. O espaço residencial sofreu reutilizações pragmáticas durante os períodos visigótico e islâmico, até ser progressivamente soterrado pelo tempo.

 

Classificada como Sítio de Interesse Público, a Villa Romana da Horta da Torre é hoje um testemunho vivo do património nacional. Visitar este local é testemunhar o encontro fascinante entre a monumentalidade de uma civilização que, há cerca de milénio e meio, transformou a paisagem alentejana num cenário de luxo e engenharia hidráulica, e a dedicação da sociedade atual na sua salvaguarda.

Na nossa visita, pudemos contemplar a memória da Roma Antiga e, por outro, admirar a força e o empenho de uma dezena de estudantes de História e dos seus orientadores que, contra a escassez de recursos, o calor escaldante — e até empurrando carrinhas atoladas se preciso for —, continuam, dia a dia, a devolver à luz a nossa história. E, quem quiser ficar com uma ideia de como seria esta villa, pode espreitar aqui: https://youtu.be/0zyEanG9aVk?is=bqKZgeScPr2CvlK7