Há visitas ao património que se gravam na memória não apenas pelo interesse histórico, mas pela experiência humana que as envolve. A nossa jornada até à Villa Romana da Horta da Torre, em Cabeço de Vide, concelho de Fronteira, foi precisamente um desses momentos inesquecíveis, onde o passado romano e o presente da investigação arqueológica se entrelaçaram de forma inesperadamente literal.
Contudo, o terreno pregou-nos
uma partida. Ao tentar fazer uma inversão de marcha no caminho poeirento, a
carrinha acabou por ficar com uma das rodas suspensa no ar, sem qualquer adesão
à terra.
| Com trabalho de equipa, a carrinha conseguiu avançar |
Apesar dos nossos esforços iniciais para resolver o problema, a viatura recusava-se a mover. A nossa salvação surgiu sob a forma de três estudantes de arqueologia, que interromperam o seu trabalho de escavação e vieram em nosso auxílio empunhando as suas picaretas. Num esforço de equipa notável — entre muita força braçal, entreajuda, pedregulhos debaixo das rodas e densas nuvens de pó —, conseguimos finalmente libertar a carrinha.
Estudantes portugueses e internacionais participam na campanha de escavações
A Villa Romana da Horta da Torre tem
vindo a ser revelada graças à liderança e ao rigor científico do Professor
André Carneiro, da Universidade de Évora. O trabalho ali desenvolvido é um
exemplo de dedicação, funcionando através de duas campanhas anuais de escavação,
com a duração de duas semanas cada, onde estudantes de História e Arqueologia
trocam as férias pelo trabalho árduo de campo.
Num
panorama onde a arqueologia em Portugal enfrenta frequentemente a escassez de
apoios institucionais, o projeto subsiste muito graças ao amor à camisola, a
carolice e também à cooperação local. A Câmara Municipal de Fronteira assegura
a cedência da carrinha de apoio, garante o alojamento dos jovens estudantes no
Centro de Estágios de Fronteira e fornece as refeições diárias à equipa.
A arquitetura
da opulência: o luxo romano no interior alentejano
Ao
caminhar pelas ruínas, torna-se claro que a Villa da Horta da Torre não era uma
simples exploração agrícola rústica, mas sim uma residência senhorial de um dominus de elevadíssimo
estatuto social. O complexo apresenta características arquitetónicas
verdadeiramente únicas no contexto hispano-romano.
A villa destaca-se por uma
sala de banquetes cenográfica articulada com um nymphaeum (sistema de espelho d'água). A água fluía
continuamente por espaços cénicos, arrefecendo a temperatura ambiente durante o
verão e proporcionando um ambiente relaxante de ostentação visual e sonora para
os convidados.
| A estrutura do stibadium / nymphaeum |
Enquanto no período romano clássico o habitual era o triclinium (composto por três sofás retangulares dispostos em forma de "U" em redor de uma mesa), na Antiguidade Tardia o stibadium, uma espécie de divã semicircular, tornou-se o elemento central da ostentação social. Outro ponto que torna a arquitetura da sala fascinante é exatamente o stibadium que estava integrado nesta divisão com um nymphaeum (espelho d'água), permitindo que os nobres jantassem deitados enquanto apreciavam o som e o arrefecimento da água a correr logo atrás deles.
As paredes e pavimentos estavam
cobertos por elegantes placas de mármore, muitas delas extraídas das
prestigiadas pedreiras locais de Estremoz e Vimieiro, formando padrões
geométricos luxuosos. Além disso, os fragmentos de estuque pintado resgatados
do solo revelam pigmentos vivos, indicando uma decoração pictórica rica que
cobria as abóbadas e paredes dos aposentos nobres.
O grande peristilo da Villa da Horta da Torre funcionava como o coração monumental do complexo residencial. Este pátio central colunado articulava a circulação entre os aposentos nobres, as termas e a área de receção, promovendo a luz natural, a ventilação e a ostentação arquitetónica típica do luxo rural romano tardio.
| O grande peristilo |
A villa
contava ainda com um complexo termal com um sofisticado sistema de piso
suspenso onde o ar quente, alimentado por fornos (praefurnia), circulava para aquecer o caldarium (sala quente) e
o tepidarium (sala
morna).
Esta
arquitetura sumptuosa no interior do Alentejo desafia as perspetivas
tradicionais sobre o mundo rural hispano-romano, provando que as elites
provinciais investiam somas avultadas para replicar o luxo urbano no coração do
campo.
Tão fascinante como a arquitetura
monumental é a informação retirada das lixeiras domésticas romanas (depósitos de detritos ou
lixeiras de cozinha). O estudo zooarqueológico dos ossos de animais, a
carpologia (análise de sementes carbonizadas) e o estudo dos fragmentos permitem
traçar um retrato detalhado do estilo de vida e da alimentação dos domini.
Assim, no que respeita à proteína animal de elite, os achados revelam a
presença de ossos de gado doméstico (vaca, porco), mas também de veado, javali e
coelho. A consumo de caça maior e menor funcionava como um claro indicador de
prestígio, representando um privilégio e um passatempo de lazer reservado às
elites.
Surpreendentemente, foram
também identificados recursos marinhos, tais como conchas de ostras, mexilhões
e espinhas de peixe. Estes achados provam a existência de rotas comerciais
eficientes capazes de transportar marisco fresco e produtos como o garum
desde a costa até ao interior alentejano.
Por fim, o estudo da cerâmica
importada, através do achado de fragmentos de terra sigillata e ânforas,
demonstra que, embora os alimentos pudessem ser confecionados localmente, eram
acompanhados por azeites, vinhos e louças finas importados de diversas regiões
do Império Romano.
A partir do século V d.C., com a
desestruturação do Império Romano, a villa perdeu o seu esplendor
original. O espaço residencial sofreu reutilizações pragmáticas durante os
períodos visigótico e islâmico, até ser progressivamente soterrado pelo tempo.
Classificada como Sítio de Interesse
Público, a Villa Romana da Horta da Torre é hoje um testemunho vivo do
património nacional. Visitar este local é testemunhar o encontro fascinante
entre a monumentalidade de uma civilização que, há cerca de milénio e meio,
transformou a paisagem alentejana num cenário de luxo e engenharia hidráulica,
e a dedicação da sociedade atual na sua salvaguarda.
Na
nossa visita, pudemos contemplar a memória da Roma Antiga e, por outro, admirar
a força e o empenho de uma dezena de estudantes de História e dos seus
orientadores que, contra a escassez de recursos, o calor escaldante — e até
empurrando carrinhas atoladas se preciso for —, continuam, dia a dia, a devolver
à luz a nossa história. E, quem quiser ficar com uma ideia de como seria esta villa, pode espreitar aqui: