domingo, 27 de setembro de 2026

A aviação em debate: Filadélfia junta líderes aeroportuários e consolida parcerias globais

 



O setor da aviação comercial atravessa um período de transformação profunda, impulsionado pela necessidade de modernização infraestrutural, transição digital e pela adaptação às crescentes exigências dos passageiros e da sustentabilidade ambiental. Neste cenário, a cidade da Filadélfia, nos Estados Unidos, tornou-se o epicentro das grandes decisões da indústria ao acolher a Conferência e Exposição Anual de 2026 do Airports Council International - North America (ACI-NA), o maior encontro do mundo organizado "por aeroportos, para aeroportos".

O evento reuniu no Pennsylvania Convention Center mais de 2 000 profissionais e quadros de topo em representação de cerca de 200 aeroportos. Sob o mote de dar resposta aos desafios prementes do mercado, a agenda de trabalhos focou-se em eixos estratégicos fundamentais: o aumento da capacidade das infraestruturas, o desenvolvimento e retenção do talento humano, a aceleração da transição digital e a melhoria contínua da experiência do passageiro. Kevin M. Burke, presidente e CEO do ACI-NA, destacou que este encontro constitui uma plataforma crucial para enfrentar "as questões que mais importam para os nossos membros e para a nossa indústria".

Um dos elementos de maior destaque da edição deste ano foi a consolidação da parceria mediática estratégica entre o ACI-NA e a plataforma internacional Aviation-Event, marca da alemã DA! GmbH. Esta colaboração visa projetar o ecossistema aeroportuário da América do Norte — um dos maiores mercados mundiais de aviação — no ecossistema mediático e de tomada de decisão global.

Através de uma cobertura editorial abrangente e de entrevistas exclusivas, a Aviation-Event amplificou as vozes dos líderes do setor. Entre as conversas de relevo transmitidas globalmente destacam-se a intervenção de Candace McGraw, antiga presidente do ACI World, sobre o papel do transporte aéreo, na economia global, na aproximação das populações e na ligação entre pessoas, e a análise de RJ Steenstra, presidente e CEO da Autoridade Portuária de Toronto, focada nas dinâmicas de transfronteiriças de viagem e comércio entre o Canadá e os Estados Unidos.

Marcel Riwalsky, CEO da Aviation-Event, sublinhou a relevância de aproximar os mercados continentais: "A Filadélfia proporcionou uma oportunidade excelente para apresentar as perspetivas dos aeroportos norte-americanos a uma audiência internacional. O nosso objetivo passa por trabalhar de forma cada vez mais próxima com o ACI-NA e os seus membros, garantindo que as suas ideias e projetos de inovação alcancem uma visibilidade verdadeiramente global".

O evento serviu também para homenagear personalidades de relevo da aviação, como Doug Kreulen, distinguido com o prémio de liderança visionária, e Patty Clark, galardoada com o Downes Award, além do reconhecimento atribuído a cinco iniciativas de sustentabilidade ambiental promovidas por aeroportos.

Com o encerramento da edição de 2026, os olhares do setor voltam-se agora para o futuro. A próxima conferência anual do ACI-NA já está agendada para decorrer entre 4 e 7 de outubro de 2027, em Nova Orleães, momento para o qual a Aviation-Event e o ACI-NA preveem alargar ainda mais o seu programa editorial conjunto.

Os segredos de Alcoutim, no Alentejo profundo: A magia dos Menires do Lavajo

 



Há no interior do Algarve um encanto que vai muito além das praias douradas e das falésias esculpidas pelo oceano. No concelho de Alcoutim, onde a paisagem se desdobra em colinas suaves, olivais e o silêncio sereno do nordeste algarvio, esconde-se um dos tesouros arqueológicos mais fascinantes de Portugal: os Menires do Lavajo.

Apesar de estarem bem sinalizados, conseguimo-nos perder – o que também não foi mau, pois ficámos a conhecer algumas das aldeias do Alentejo profundo. Descobertos na década de 1990 no âmbito de prospeções arqueológicas, estes monumentos megalíticos remontam ao Neolítico (entre o quinto e o quarto milénios a.C.). Revelam-nos a vivência, a espiritualidade e a arte dos povos que habitaram estas terras há mais de cinco mil anos, numa altura em que a relação entre o ser humano e a natureza assumia uma dimensão sagrada.

Lavajo 1


O complexo do Lavajo integra dois conjuntos principais, conhecidos como Lavajo 1 e Lavajo 2. O grande protagonista deste recinto é o soberbo menir de Lavajo 1. Esculpido em grauvaca, uma rocha característica da região, cujo nome deriva do alemão Grauwacke, sobressai com os seus imponentes três metros de altura, figurando entre os maiores e mais bem conservados menires do sul da Península Ibérica.

Mais do que a dimensão, é o rigor do trabalho de escultura que impressiona quem o contempla. Com a sua silhueta fálica, símbolo ancestral de fertilidade e renovação da vida, o menir apresenta gravuras entalhadas na pedra, como motivos vasculiformes e cazoletas (pequenas cavidades circulares). Estas marcas representam verdadeiras manifestações do pensamento simbólico pré-histórico.



Erguidos em pontos elevados da paisagem, os menires do Lavajo cumpriam uma dupla função. Por um lado, eram marcos territoriais visíveis à distância, sinalizando o domínio e a presença de uma comunidade sobre o território. Por outro, constituíam locais de culto e reunião, autênticos eixos sagrados onde se realizavam rituais comunitários e oferendas ligadas aos ciclos agrícolas e à observação dos astros.



A visita ao Lavajo oferece uma experiência única de comunhão com a história e com a natureza. O menir principal de Lavajo 2, que se encontrava tombado e fraturado pela passagem do tempo, foi cuidadosamente restaurado e reerguido, permitindo admirar o monumento na sua orientação e postura originais.

Passear por estes caminhos e contemplar estas pedras milenares é fazer uma viagem no tempo, escutando os ecos de uma herança ancestral no coração do interior algarvio.

 


O segredo gravado na pedra: Uma viagem ao enigma da escrita peninsular mais antiga no Museu da Escrita do Sudoeste de Almodôvar

 

MESA - Museu da Escrita do Sudoeste de Almodôvar

 

No coração do Sudoeste da Península Ibérica, entre os últimos contornos da planície do Baixo Alentejo e as primeiras serranias que anunciam o Algarve, guarda-se um dos maiores mistérios da arqueologia europeia. É nesta paisagem dominada pelo xisto e pelo sobressaltado relevo das serras, onde nascem rios como o Mira, o Sado, o Vascão ou o Arade, que se concentra o conjunto mais expressivo de estelas com a chamada Escrita do Sudoeste.

Cruzamento de rotas ancestrais que ligavam o vale do Guadiana aos campos de Ourique e ao litoral algarvio, este território interior viu florescer, durante a Primeira Idade do Ferro (entre os séculos VII e V a.C.), uma cultura singular. Almodôvar, estrategicamente posicionada no centro desta geografia, afirma-se hoje como o epicentro deste legado patrimonial e o ponto de partida ideal para uma incursão fascinante pelas origens da palavra escrita na Península Ibérica.

 

MESA - Museu da Escrita do Sudoeste de Almodôvar

Almodôvar e o guardião da memória

Para quem visita a vila de Almodôvar, a paragem no Museu da Escrita do Sudoeste  - MESA - é incontornável. Inaugurado em setembro de 2007, o museu ocupa o espaço do antigo teatro oitocentista local, um edifício demolido na década de 1980 cuja vocação cultural renasceu graças ao empenho da Câmara Municipal e ao envolvimento científico do professor Amílcar Guerra e do arqueólogo Rui Cortes.

Na génese do projeto esteve uma importante concertação institucional. Como a maioria das estelas descobertas se encontrava dispersa por grandes acervos — nomeadamente no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, e no Museu Regional de Beja —, o apoio generoso do diretor do MNA foi decisivo para reunir e expor em Almodôvar este património único, devolvendo-o à paisagem onde foi concebido.

 

Povos abertos ao mundo: A génese de um alfabeto

Tivemos com guia na nossa visita ao MESA o arqueólogo Rui Cortes, atualmente responsável pelo departamento de cultura da Câmara Municipal de Almodôvar, que nos contou, com todo o saber e paixão, histórias e histórias da História. Este arqueólogo tem dedicado grande parte da sua atividade ao estudo da Primeira Idade do Ferro no Sudoeste peninsular, investigando as necrópoles, os povoamentos e o fenómeno das estelas gravadas em xisto com a mais antiga escrita da Península Ibérica. Não poderíamos ter tido melhor guia!

Os tartéssos e as comunidades do Sudoeste peninsular formaram a primeira civilização da região a adotar a escrita. Longe de viverem isolados, estes povos mantinham contactos intensos com navegadores e comerciantes do Mediterrâneo Oriental — designadamente os fenícios de Tiro e da sua colónia Cartago, presentes nestas costas desde o século IX a.C. — e com o mundo celta.

A região era abundante em minérios cobiçados, trocados por bens de luxo trazidos de terras distantes. Influenciadas por esses visitantes, as populações locais adaptaram o sistema de escrita fenício para transcrever a sua própria língua. Acrescentaram caracteres específicos para responder às suas necessidades fonéticas e começaram a gravar no xisto, uma matéria-prima abundante de superfícies lisas e fáceis de entalhar. Curiosamente, a prática epigráfica não floresceu nos grandes entrepostos costeiros de forte presença fenícia (como Cádiz, Huelva, Castro Marim ou Tavira), mas sim nas zonas do interior, onde o impacto oriental se fundiu de forma mais subtil com as tradições locais.

A escrita do Sudoeste, inicialmente apelidada de escrita tartessa ou sul-lusitana, cobria todo o território do Sudoeste peninsular com uma notável uniformidade gráfica. A sua notoriedade era tal que os próprios escritores clássicos da Antiguidade consideravam os tartéssos o povo mais culto da época.

 

O mistério da língua não decifrada

Embora os especialistas consigam hoje ler os caracteres paleo-hispânicos do Sudoeste e reconhecer as suas particularidades — como a característica "redundância das vogais", em que a consoante surge acompanhada por uma vogal que funciona quase como um eco —, a língua subjacente permanece indecifrada. Não existe até à data uma tradução literal do seu vocabulário.

As estelas, contudo, revelam uma estrutura tipificada. Na sua grande maioria, tratava-se de monumentos funerários destinados a assinalar as sepulturas de membros de elite de pequenas comunidades agrícolas e pastoris. As inscrições serpenteiam pelas margens da pedra em estilo boustrophedon ou em espiral, contornando o bloco do exterior para o interior. É frequente encontrarem-se sequências repetitivas como lokobon ou bare lokobon, que os linguistas julgam corresponder a fórmulas dedicatórias semelhantes a "aqui jaz" ou "em memória de", seguidas dos nomes próprios dos falecidos e da sua filiação ou tribo.

O reconhecimento pioneiro destes monumentos remonta ao virar do século XVIII para o século XIX, graças à ação do bispo de Beja, D. Frei Manuel do Cenáculo Villas Boas, que identificou os primeiros espécimes.

 

Oito séculos de História em cinco peças fundamentais

Um itinerário pelo património da Escrita do Sudoeste leva-nos a conhecer peças extraordinárias espalhadas por museus da região e além-fronteiras:

Signário de Espanca


  • O Signário de Espanca (Castro Verde): Descoberto perto da aldeia de Sete, este achado é uma joia pedagógica sem equivalente funerário. Trata-se de uma pedra de aprendizagem com 27 caracteres (5 vogais, 15 signos silábicos e 7 consoantes). Apresenta duas linhas seguidas: a primeira foi gravada por um mestre com traço firme; a segunda, logo abaixo, é a cópia hesitante de um aprendiz a imitar a lição.
Estela de Bensafrim


  • A Estela de Bensafrim (Loulé): Exposta no Museu Municipal de Arqueologia de Silves, destaca-se pelo seu texto gravado nas margens que delimita um retângulo central vazio, contornando o bordo da pedra em espiral.
Estela da Abóboda


  • A Estela da Abóboda (Almodôvar): Descoberta na Necrópole da Abóboda, em Almodôvar, a Estela da Abóboda é uma das peças mais emblemáticas da Escrita do Sudoeste. Datada da Primeira Idade do Ferro, esta lápide funerária em xisto destaca-se por apresentar caracteres paleo-hispânicos gravados em espiral em redor de uma representação figurativa, que se pensa ser um guerreiro. Constitui um testemunho fundamental da ancestralidade e complexidade cultural da região
Estela do Cerro dos Enforcados


  • A Estela do Cerro dos Enforcados (Ourique): Pertencente ao acervo do Museu Nacional de Arqueologia, ilustra com precisão as lápides dedicadas a figuras prestigiadas da Idade do Ferro na região do Baixo Alentejo.
Estela del Capote


  • A Estela del Capote (Higuera la Real, Badajoz): Conservada no Museu Arqueológico Provincial de Badajoz, representa uma impressionante estela figurativa. Sob os caracteres em arco, exibe a silhueta gravada de um guerreiro munido de lança e escudo circular, afirmando a dimensão heroica do monumento.

 

 

O desaparecimento de um enigma

O hábito de gravar estelas atingiu o seu declínio por volta do século V a.C. Com as profundas transformações sociais e as invasões celtas marcantes da Segunda Idade do Ferro, o sistema de escrita caiu em desuso até desaparecer completamente dos registos arqueológicos. Embora a língua falada possa ter resistido na tradição oral durante mais algum tempo, a pedra deixou de falar.

Hoje, percorrer o território de Almodôvar e visitar o seu Museu da Escrita do Sudoeste é viajar até ao limiar da História. É escutar o eco distante de uma comunidade que, há mais de 2500 anos, decidiu imortalizar os seus nomes e memórias nas lâminas de xisto da serra — um convite imperdível para os apreciadores de arqueologia, cultura e mistérios por desvendar.

 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Trujillo: A cidade dos conquistadores, monumentos e tradição

Trujillo vista do castelo
A apenas 1h30 de Elvas (o destino ideal para quem vive no Alto Alentejo), 3h30 de Lisboa e 5h30 do Porto, Trujillo é uma escapadinha monumental e imperdível para um fim de semana, uma viagem inesquecível por palácios renascentistas, um castelo árabe, ruas medievais, sabores estremenhos e a magia de ruelas misteriosas à noite.

Há lugares cuja beleza transcende o simples olhar e nos transportam de imediato para outras épocas. Trujillo, situada no coração da Estremadura espanhola, é um desses destinos magnéticos. Vista quase sempre como uma joia monumental medieval e renascentista, períodos em que atingiu o seu esplendor máximo, a cidade guarda em cada pedra, em cada calçada e em cada fachada armoriada a memória de séculos de batalhas, comércio e expansão global.


Contudo, circunscrever Trujillo apenas à Idade Média ou ao Renascimento seria redutor. Trata-se de uma cidade de múltiplas camadas históricas, onde a arte barroca também deixou marcas profundas. Um exemplo perfeito desta riqueza patrimonial é a Igreja consagrada ao Precioso Sangue de Cristo, erguida entre 1627 e 1675 graças ao patrocínio e devoção dos capitães da cidade e que agora alberga o museu da história dos descobrimentos. Atravessando os múltiplos reveses da sua história, este templo chegou a encontrar-se num estado de degradação lamentável, à beira da ruína. Numa intervenção exemplar de resgate cultural, o município de Trujillo, com o apoio da Junta da Estremadura, adquiriu e restaurou o edifício para exibir o extraordinário património histórico e cultural da localidade.


Das origens romanas às fortificações muçulmanas

A aventura humana neste território remonta a tempos remotos. Foram os romanos que fundaram Turgalium no ano 20 a.C., sobre um povoado indígena anterior. A sua localização inicial, no cerro da Cabeça do Zorro, converteu-se num ponto estratégico inapreciável de defesa. Como dependência de Emerita Augusta (a atual Mérida), Trujillo transformou-se num enclave crucial da rota comercial e militar que unia Emerita a Cesar Augusta (a atual Saragoça).

A presença romana ao longo de mais de cinco séculos moldou a cultura e a sociedade, enriquecidas depois pelos povos que a povoaram, como os visigodos (que entre os séculos VI e VII a chamaram Turcallion). A partir do século VIII, Trujillo foi tomada pelos muçulmanos, passando a chamar-se Torgielo. Uma vez mais, a posição estratégica da cidade fez com que desempenhasse um papel relevante na rede defensiva entre o Tejo e o Guadiana.

Na segunda metade do século IX, os muçulmanos dotaram a povoação do seu castelo com imponentes muralhas. Dentro destas, os artesãos muçulmanos vendiam os seus produtos em bazares, destacando-se pelas belas cerâmicas e modelos inovadores muito apreciados e imitados na arte europeia. 

A 25 de janeiro de 1232, Trujillo foi definitivamente reconquistada pela Coroa de Castela e, em 1430, o Rei João II de Castela reconheceu-a com o título de "Ciudad Muy Noble, Muy Leal, Insigne y Muy Heroica".


O brasão mais antigo da cidade, na Porta de Santiago



Monumentos Imperdíveis: Do castelo aos palácios renascentistas

Passear por Trujillo é folhear um livro de história ao ar livre. Durante a sua visita, há monumentos fundamentais que não pode deixar de explorar. 


Sino do castelo


Erguida no ponto mais elevado de Trujillo, sobre a colina granítica conhecida como Cabeza de Zorro, a Alcazaba domina toda a paisagem envolvente e é um dos mais notáveis testemunhos da arquitetura militar defensiva na Península Ibérica. Classificada como Monumento Histórico-Artístico em 1925, o castelo oferece do topo das suas muralhas e ameias uma vista panorâmica sobre o centro histórico da cidade e as planícies da Extremadura. O recinto serviu ainda como cenário para diversas produções audiovisuais de relevo, destacando-se as filmagens da sétima temporada da série Game of Thrones, onde representou as muralhas de Casterly Rock.



A estrutura original remonta aos séculos IX e X, durante o período de ocupação muçulmana (al-Andalus). Erguida sobre antigas bases de assentamentos romanos e visigóticos, a alcáçova islâmica servia como ponto estratégico de controlo das vias de comunicação e de defesa do território. Ao longo dos séculos XII e XIII, a fortaleza mudou várias vezes de mãos entre cristãos e muçulmanos no contexto da Reconquista, até ser definitivamente tomada por Fernando III de Leão e Castela, em 1233. Já sob domínio cristão, o castelo sofreu sucessivas remodelações e ampliações nos séculos XIV e XV, das quais se destaca a adição de uma barbacã nos tempos dos Reis Católicos.




Construída em alvenaria de granito, blocos de pedra e argamassa, a fortaleza apresenta dois grandes recintos geométricos interligados:

  • Pátio de Armas (Recinto Principal): corresponde à antiga alcáçova árabe. Tem planta sensivelmente quadrada e é flanqueado por 17 torres quadradas ameadas, típicas da arquitetura militar islâmica. O acesso faz-se através de um portão com arco em ferradura.
  • Albacar: recinto secundário de planta hexagonal irregular, que servia de refúgio e abrigo para a população civil e os seus rebanhos em momentos de cerco ou de perigo.
  • Cisternas (Aljibes): no interior conservam-se cisternas de época islâmica, escavadas na rocha, essenciais para garantir o abastecimento de água durante eventuais cercos.
  • Capela de Nossa Senhora da Vitória: entre duas das torres principais (torres albarrãs) encontra-se a capela que alberga a imagem em pedra da Virgem da Vitória, padroeira de Trujillo, colocada de frente para a cidade. As suas festas duram nove dias e decorrem entre finais de agosto e início de setembro.


Imagem de Nossa Senhora da Vitória



A Igreja de Santa Maria Maior, o templo religioso mais importante de Trujillo, construído entre os séculos XIII e XVI, combina elementos românicos e góticos. Localizada na zona alta e histórica da cidade, foi erguida após a reconquista cristã no século XIII — acredita-se que sobre as fundações da antiga mesquita muçulmana — e expandida entre os séculos XV e XVI.


O estábulo do altar-mor

Esta igreja destaca-se por reunir vários elementos de grande valor histórico e artístico. O interior acolhe um soberbo retábulo em estilo gótico florido, pintado por volta de 1490 no atelier do prestigiado mestre Fernando Gallego e do Mestre Bartolomé. É composto por 25 painéis a óleo que retratam a vida da Virgem Maria, a Paixão e a Ressurreição de Cristo.

Os sinos da torre sineira

Vista das torres


Não perder a subida às duas torres donde se têm as melhores vistas panorâmicas sobre os telhados medievais de Trujillo e sobre a paisagem da Estremadura. A torre românica é a primitiva do século XIII, que sofreu graves danos com os terramotos de 1521 e 1755, vindo a ser restaurada e reconstruída no século XX, e a torre nova (a torre sineira), já mais moderna, onde no 1º piso está o Coro de Sancho de Cabrera, construído em 1550 em estilo plateresco, e está apoiado sobre uma abóbada em cruz estrelada na parte posterior da nave.

O chão do templo e as suas capelas laterais abrigam túmulos e pedras sepulcrais das principais famílias nobres de Trujillo (Pizarro, Orellana, Vargas-Carvajal e Altamirano). Destaca-se também o túmulo de Diego García de Paredes, o famoso militar espanhol conhecido como o "Sansão da Estremadura".


Plaza Mayor

No entanto, o verdadeiro centro nevrálgico da cidade, rodeado por arcadas medievais e edifícios nobres, é a Plaza Mayor, onde se encontra a monumental estátua equestre em bronze de Francisco Pizarro, montado a cavalo com armadura completa. É uma obra do escultor americano Charles Rumsey e que se tornou a imagem de marca de Trujillo.





A Plaza Mayor  é o coração da cidade e uma das praças mais impressionantes e cenográficas de Espanha. De formato irregular e declive acentuado, este espaço urbano rodeado de palácios renascentistas e arcadas medievais serviu historicamente como mercado, palco de festividades e centro da vida social extremenha.


Rosácea da igreja de São Martinho de Tours
Mesmo ao lado da estátua, num dos ângulos mais nobres da Plaza Mayor, temos a Igreja de São Martinho de Tours. Mandada construir no século XIV sobre as ruínas de uma edificação medieval anterior, sofreu ampliações substanciais durante os séculos XV e XVI, o que resultou numa imponente fusão dos estilos gótico tardio e renascentista.

Este templo desempenhou um papel civil e religioso de enorme relevância histórica na cidade, servindo frequentemente de ponto de reunião para o conselho concelhio e de panteão para várias famílias nobres extremenhas.




Construída inteiramente em grandes blocos de granito, a igreja apresenta duas entradas principais: a Porta das Limas (de estilo gótico florido, decorada com motivos vegetais) e a Porta Principal (renascentista). Nas paredes exteriores é possível observar diversos sinais escavados na pedra, correspondentes às marcas de artesãos e pedreiros medievais que organizavam a construção.

O interior impressiona pela amplitude de uma grande nave única coberta por abóbadas em cruz estrelada tipicamente góticas. Abriga um retábulo de estilo neoclássico e baroco, juntamente com vários altares laterais com imagens religiosas de grande devoção local. Na zona do coro encontra-se um magnífico órgão do século XVIII, perfeitamente integrado na estrutura do templo. O pavimento e as capelas albergam túmulos de figuras ilustres de Trujillo, decorados com heráldica e brasões da época das explorações ultramarinas.


Esquina do palácio da Conquista

Na Plaza Mayor, os palácios de estilo renascentista exibem uma elegância contida, contrastando com a arquitetura religiosa mais esplendorosa. No canto oposto à igreja de São Martinho de Tours, encontra-se o Palacio de la Conquista  (também conhecido como Palacio de los Marqueses de la Conquista), o edifício civil de maior destaque na Plaza Mayor de Trujillo. Mandado construir no século XVI por vontade de Francisco Pizarro no seu testamento, a edificação foi levada a cabo pelo seu irmão Hernando Pizarro e pela esposa deste, Francisca Pizarro Yupanqui (filha do conquistador e da princesa inca Inés Huaylas).

Esta residência senhorial reflete a riqueza e o estatuto alcançados pela família Pizarro após a conquista do Império Inca e a concessão do título de Marqueses de la Conquista por Carlos V.

Busto de Francisco Pizarro

Busto de Inés Huaylas


O elemento mais fotogénico e monumental é a sua imponente varanda de esquina de estilo plateresco. A varanda está encimada pelo grande brasão de armas concedido por Carlos V à família Pizarro. Ladeando o escudo, encontram-se os bustos esculpidos em pedra de Francisco Pizarro, da sua esposa Inés Huaylas, de Hernando Pizarro e de Francisca Pizarro Yupanqui. O edifício apresenta ainda uma imponente crista em pedra com estátuas alegóricas e motivos renascentistas ao longo do seu piso superior e no topo da fachada.


Gastronomia estremenha e a magia das noites na Praza Mayor 


Migas estremenhas com ovo estrelado e enchidos


Depois de percorrer a história e os monumentos, a experiência de Trujillo completa-se à mesa. Para o jantar, nada se compara a sentar-se numa das acolhedoras esplanadas da Plaza Mayor para degustar a autêntica gastronomia da Estremadura. O repasto começa com umas tradicionais migas acompanhadas por enchidos regados da região, seguidas de

uns reconfortantes ovos mexidos com cogumelos e uns estaladiços aros de lulas fritas. Tudo isto acompanhado por um ótimo vinho da região — uma garrafa por uns inacreditáveis 5,50 €! Para terminar com chave de ouro, as sobremesas locais são obrigatórias.  

Os doces típicos de Trujillo celebram a tradição e os heróis da terra. Destacam-se as delicadas Gemas de Pizarro e as estaladiças Orellanas, de inspiração conventual. Os saborosos Monfraguitos e Hurdanitos homenageiam a gastronomia regional estremenha, enquanto a emblemática Trécula completa uma pastelaria rica, autêntica e verdadeiramente irresistível.


Os robertos Pepito y sus amigos

À noite, a Plaza Mayor ganha uma vida mágica. À noite, as escadas da praça encheram-se de famílias para assistir ao espetáculo de marsionetas 'Pepito y sus amigos'. As crianças estavam animadíssimas, a interagir efusivamente com os robertos!






Embora conte atualmente com cerca de 8.000 habitantes — um número que tem vindo a diminuir —, Trujillo mantém para sempre o seu orgulhoso título de cidade e uma vivacidade contagiante. Seja pelo património monumental, pela gastronomia generosa ou pelo ambiente caloroso da sua vida noturna, esta joia da Estremadura está apenas a um pulinho de distância.