terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O desafio da ascensão aeroportuária: Navegando entre expectativas e realidade operacional

Lucio Rosseto e Lars Redeligx 

 

O setor da aviação atravessa um período de transformação sem precedentes. No recente painel sobre os crescentes desafios aeroportuários e a evolução das expectativas dos viajantes, líderes da indústria como Lars Redeligx, CEO do Aeroporto de Düsseldorf, e Lucio Rosseto, COO Regional para a Europa da Lagardère Travel Retail, debateram a urgência de uma mudança de paradigma. O consenso é claro: o passageiro moderno mudou, mas as estruturas que o sustentam ainda lutam para acompanhar o ritmo.

A vontade de viajar vs. o custo da conectividade

Lars Redeligx abriu o debate com uma observação fundamental: "As pessoas querem viajar". O desejo de mobilidade, seja por lazer ou negócios, permanece resiliente, superando até as previsões mais otimistas do período pós-pandemia. No entanto, este entusiasmo enfrenta uma barreira económica crescente. Segundo Redeligx, as taxas aeroportuárias são excessivamente altas, o que cria um entrave direto à competitividade dos hubs europeus.

O CEO utilizou o termo "Self-imposed disadvantages" (desvantagens autoimpostas) para descrever a situação na Alemanha e em partes da Europa. Ao sobrecarregar o setor com taxas de segurança elevadas, impostos sobre passagens e regulamentações ambientais unilaterais, os governos estão, na prática, a dificultar a vida das suas próprias infraestruturas. Quando os custos operacionais sobem, as companhias aéreas reduzem frequências e os passageiros procuram alternativas em hubs fora da União Europeia, onde as condições económicas são mais favoráveis.

A experiência do passageiro: Uma responsabilidade coletiva

Um dos pontos mais críticos discutidos no painel foi a fragmentação da experiência de viagem. Para o passageiro, o aeroporto é uma entidade única. No entanto, operacionalmente, é um mosaico de competências: polícia de fronteira, empresas de segurança privada, equipas de handling, companhias aéreas e retalhistas.

"Quando um passageiro tem um problema no controlo de segurança, ele não quer saber se a causa está na polícia, na falta de pessoal ou nas máquinas. Ele apenas não quer ter problemas. Ele quer passar rapidamente", relembrou Lars Redeligx

Esta afirmação resume o grande desafio da gestão aeroportuária moderna. A eficiência operacional tornou-se o principal KPI (indicador de desempenho) para a satisfação do cliente. Para que o passageiro tenha uma experiência de viagem global positiva, todos os setores têm de trabalhar juntos. A falta de comunicação entre a entidade que gere as filas (segurança) e a entidade que gere o fluxo comercial (retalho) pode arruinar a viagem de um cliente antes mesmo de ele chegar à porta de embarque.

Evolução do comportamento e adaptação do retalho

Lucio Rosseto, da Lagardère Travel Retail, trouxe a perspetiva do consumo para o debate. O comportamento dos passageiros está em constante evolução, impulsionado pela digitalização e por uma nova consciência de valor. O tempo que o passageiro passa no aeroporto — o chamado "dwell time" — já não é garantido. Se o controlo de segurança for lento e stressante, a disposição do passageiro para consumir no Duty Free ou nos restaurantes cai drasticamente.

A adaptação da oferta do aeroporto é, por isso, uma tarefa dinâmica. Rosseto explicou que os aeroportos de sucesso são aqueles que conseguem personalizar a experiência. Isso inclui:

  • Digitalização do retalho: Opções de "click & collect" onde o passageiro compra online e levanta a mercadoria na porta de embarque.
  • Oferta híbrida: Espaços que combinam trabalho, lazer e gastronomia de alta qualidade, respondendo às necessidades do viajante corporativo e do turista de lazer simultaneamente.
  • Agilidade na resposta: Utilizar dados em tempo real para ajustar a oferta. Se um voo para Seul está prestes a partir, a oferta linguística e de produtos naquele terminal específico deve refletir esse público.

O papel da digitalização e da desburocratização

Para resolver o dilema entre "taxas altas" e "necessidade de rapidez", a solução reside invariavelmente na tecnologia. A digitalização não é apenas uma conveniência; é o único caminho para a desburocratização.

A implementação de sistemas de biometria facial e controlo de segurança inteligente (CT Scanners que permitem manter líquidos e eletrónicos dentro das malas) é vital. Estes avanços permitem processar mais passageiros com menos atrito, reduzindo a necessidade de aumentos constantes nas taxas de segurança que Redeligx tanto critica.

Além disso, a burocracia documental tem de ceder lugar a processos digitais fluídos. O objetivo é criar um "caminho de menor resistência" do meio-fio à cabine do avião. Quando os processos são rápidos e flexíveis, o aeroporto torna-se mais competitivo, atraindo mais companhias aéreas e, consequentemente, diluindo os custos fixos.

Sustentabilidade e o futuro: Um equilíbrio delicado

O painel também abordou como a proteção ambiental se cruza com estas expectativas. Tanto os passageiros como as entidades reguladoras exigem voos mais limpos. No entanto, a descarbonização não pode ser um fardo solitário da aviação europeia. Como discutido por líderes alemães como Manfred Pentz e Stefan Schnorr, as regras têm de ser globais.

Se a Europa impõe quotas rígidas de SAF (Combustível Sustentável de Aviação) sem que o resto do mundo as acompanhe, o custo das passagens subirá, alimentando o ciclo de taxas altas que Lars Redeligx denunciou. A inovação tecnológica deve ser incentivada por políticas públicas que não penalizem a competitividade das empresas europeias.

Conclusão: Trabalhar em ecossistema

O futuro dos aeroportos depende da transição de "gestores de infraestruturas" para "orquestradores de ecossistemas". O sucesso não é medido apenas pelo número de aviões que aterram, mas pela fluidez com que o passageiro atravessa o sistema.

A colaboração entre aeroportos, fornecedores de retalho e autoridades políticas é o único caminho para superar os desafios atuais. É necessário:

  1. Baixar as taxas para manter a competitividade global.
  2. Digitalizar agressivamente para eliminar gargalos de segurança.
  3. Adaptar a oferta comercial às novas exigências de um viajante cada vez mais informado e impaciente.

A mensagem final do painel foi clara: o passageiro não quer saber de jurisdições ou problemas técnicos internos. Ele quer a liberdade de voar, com conforto, rapidez e a um preço justo. Aqueles que não conseguirem orquestrar esta sinfonia de serviços ficarão para trás num mundo cada vez mais conectado.

 

Descolagem digital: O futuro das viagens passa pela desburocratização e pela digitalização

 

Manfred Pentz falando na Cimeira da Aviação

A indústria da aviação está a viver um momento de viragem e o destino final é claro: uma viagem mais fluida, tecnológica e sustentável. Na última Cimeira AviationEvent, em Frankfurt, o debate foi dominado por dois conceitos que vão mudar a forma como todos viajamos: desburocratização e digitalização.

Frankfurt: Mais do que um hub, um motor de inovação

Se já passou pelo Aeroporto de Frankfurt, sabe que a sua magnitude é impressionante. Mas o aeroporto é muito mais do que pistas e terminais; é um dos maiores empregadores da região de Hesse. Atualmente, o grande destaque é a construção do Terminal 3. Longe de ser apenas uma obra, este é um investimento estratégico para garantir que a Europa não perde terreno para os gigantes do Médio Oriente e da Ásia.

Menos burocracia, melhores viagens

Stefan Schnorr


Ninguém gosta de taxas altas ou filas intermináveis. Stefan Schnorr (Secretário de Estado federal dos Transportes) e Manfred Pentz (Ministro dos Assuntos Federais e Europeus e da Desburocratização do Estado de Hesse) estão na linha da frente para mudar isto. A meta é clara:

  • Guerra à "selva" regulatória: Implementar a regra "one in, two out" (por cada nova lei, eliminam-se duas antigas) para tornar o setor mais ágil.
  • Taxas mais competitivas: Reduzir os custos operacionais e de segurança para que os bilhetes de avião não sofram aumentos asfixiantes.

A digitalização não é um luxo, é a solução para o passageiro moderno. Imagine um fluxo onde o papel desaparece e o tempo de espera é reduzido ao mínimo:

  • Biometria em tempo real: Sistemas de identificação que permitem atravessar o aeroporto com menos controlos físicos e mais rapidez.
  • Logística inteligente: Substituição de processos manuais por redes digitais para passageiros e carga.


Sustentabilidade: O sol como aliado

O aeroporto de Frankfurt está a dar o exemplo no caminho para as "emissões zero". No outono de 2025, entrou em funcionamento uma impressionante instalação fotovoltaica vertical com 37 000 módulos solares.

Além disso, a transição para o SAF (Combustível Sustentável de Aviação) já é uma realidade: a quota de mistura começou nos 2% e irá subir gradualmente. A mensagem dos líderes é justa: a proteção ambiental é essencial, mas as regras devem ser iguais para todos — da Alemanha à China — para garantir que a aviação europeia continue forte.


O próximo destino: Alianças globais

A ambição de Hesse atravessa continentes. Estão a ser reforçadas parcerias estratégicas com a Coreia do Sul e, em breve, com a Índia, atraindo tecnologia de ponta para melhorar a conectividade global.

O futuro da aviação desenha-se com processos mais rápidos, taxas mais baixas e um compromisso sério com o planeta. Quando a tecnologia resolve a burocracia, quem ganha é o viajante.

 

A inovação pode avançar apesar da regulação? O dilema digital nos céus e em terra

 

Painel sobre inovação e regulamentação


A indústria da aviação vive um paradoxo fascinante: é, simultaneamente, um dos setores mais tecnologicamente avançados do mundo e um dos mais rigidamente regulados. Esta foiuma das conclusóes a que se chegou na Cimiera de Aviação AviationEvent que teve lugar em Frankfurt, na Alemanha, no início de fevereiro,

Enquanto a inteligência artificial (IA) e a robótica prometem revolucionar desde a manutenção de pistas até à limpeza de terminais, uma teia complexa de normas, taxas e resistências psicológicas ameaça travar o ritmo do progresso. A questão que domina os conselhos de administração e os painéis de especialistas é urgente: poderá a inovação prosperar num ambiente onde a regulação parece ser, por definição, um travão?

A barreira invisível: medo e resistência

O primeiro obstáculo à inovação não é técnico, mas humano. "As pessoas são muito resistentes à mudança, têm medo do novo", observa-se frequentemente nos debates do setor. A regulamentação, em princípio, não é um inimigo; ela nasce da necessidade absoluta de segurança — o valor supremo da aviação. No entanto, o desafio surge quando o ritmo da lei não acompanha o ritmo da tecnologia.

Jürgen Krumtünger, Diretor Executivo da Prologis, é direto: "A regulação trava a inovação". Para este líder, o excesso de camadas administrativas cria um ambiente onde a experimentação é punida pela lentidão burocrática. Por outro lado, Dietmar Schneider, Diretor Global de Vendas da ADB SAFEGATE, procura um caminho de conciliação. Para este profissional, a chave reside em encontrar um "meio termo" entre a necessidade de segurança normativa e a urgência de implementar tecnologias que podem salvar o setor da estagnação económica.

Airside 4.0: A tecnologia que desafia os limites

A ADB SAFEGATE é, talvez, o melhor exemplo de como a inovação está a tentar "dar a volta" às limitações físicas e regulatórias. Como uma das maiores referências mundiais em infraestrutura aeroportuária, a empresa foca-se no "lado ar" (airside) — o ecossistema crítico onde o avião se move desde a aproximação até ao estacionamento.

A visão da empresa assenta no conceito Airside 4.0, uma tríade de segurança, eficiência e sustentabilidade que opera em quatro pilares fundamentais:

  1. Pista: Líderes em sistemas de iluminação LED inteligente (AGL), que permitem guiar pilotos em condições de visibilidade quase nula.
  2. Porta de embarque/placa: Através dos sistemas Safedock (DGS), os ecrãs digitais orientam o piloto para estacionar com precisão milimétrica, eliminando o erro humano e acelerando o desembarque.
  3. Torre de controlo: Software integrado que reduz o esforço manual dos controladores, unindo radares e sensores de pista.
  4. Serviços e software: O uso de análise de dados e IA para prever "engarrafamentos" no solo antes de eles ocorrerem.

Esta tecnologia tem um impacto económico direto: tempo no chão é tempo em que o avião não gera lucro. Ao acelerar a atracagem e reduzir os atrasos causados por nevoeiro ou tempestades, a inovação tecnológica está a fazer o trabalho que a burocracia muitas vezes impede: aumentar a rentabilidade sem comprometer a segurança.

Robots e IA: O caso da limpeza e os testes em Luton

Se no ar a tecnologia é sofisticada, nos terminais ela enfrenta barreiras igualmente complexas. Thomas Jessberger, gestor na Sasse Aviation, responsável pela limpeza de grandes aeroportos europeus, partilhou as dificuldades de implementar sistemas apoiados por IA.

Os testes com robots de limpeza realizados no Aeroporto de Luton revelaram que, embora a tecnologia estivesse pronta — beneficiando da proximidade geográfica da equipa de desenvolvimento no Reino Unido —, a regulamentação foi o maior entrave. Introduzir uma máquina autónoma num ambiente com milhares de passageiros imprevisíveis exige uma reescrita de normas de segurança que, muitas vezes, leva anos a ser aprovada.

A velocidade da mudança vs. a lentidão da lei

Esta desfasagem temporal é o ponto central da análise de Richard Maslen, Diretor de Análise do CAPA (Centro de Aviação), que realça que a aviação é uma indústria em movimento perpétuo, mas "leva muito tempo a mudar as regulamentações". O conselho do analista é pragmático: as empresas têm de trabalhar tentando "dar a volta" às regulamentações existentes, inovando dentro das margens possíveis enquanto pressionam por mudanças legislativas.

A indústria não pode esperar dez anos por um novo quadro normativo se a tecnologia de descarbonização ou de IA muda a cada seis meses. Como se viu no outono passado com as decisões do governo alemão para aumentar a posição da Alemanha como hub de transporte aéreo, há uma vontade política de simplificar, mas a implementação no terreno é lenta.

Desburocratização: A única rota de fuga

A necessidade de processos mais rápidos e flexíveis é um grito comum. No estado de Hesse, Manfred Pentz tem liderado a bandeira da desburocratização, entendendo que a sobrevivência do Aeroporto de Frankfurt e de outros hubs depende da eliminação de "desvantagens autoimpostas" (self-imposed disadvantages).

As taxas de aeroporto e de segurança são altas, em parte, devido à ineficiência de processos manuais e burocráticos. A digitalização de passageiros e de carga não é apenas um "luxo tecnológico"; é a ferramenta necessária para baixar a regulamentação física e, por consequência, reduzir as taxas que retiram competitividade à Europa face a regiões como a Ásia ou o Médio Oriente.

O caminho futuro: Equidade e colaboração

Para que a inovação avance verdadeiramente, a proteção ambiental e as regras de segurança têm de ser justas. A indústria exige as mesmas regras para todos — na Alemanha, na China ou na Índia. Se a regulação europeia for a única a ser rígida, a inovação fugirá para outros mercados.

A aviação do futuro será definida pela capacidade de política e sociedade trabalharem juntas. A implementação de SAF (Combustível Sustentável de Aviação), que este ano começa com 2% e aumentará gradualmente, exige uma infraestrutura de apoio que só a desburocratização pode acelerar.

Os participantes deste painel na Cimeira da Aviação AviationEvent, que teve lugar em Frankfurt, reconheceram que a inovação não só pode como tem de avançar apesar da regulação. O segredo reside na colaboração: os reguladores devem tornar-se facilitadores, e as empresas, como a ADB SAFEGATE ou a Sasse Aviation, devem continuar a provar que a tecnologia não é uma ameaça à segurança, mas sim a sua maior aliada. O Terminal 3 em Frankfurt é o símbolo desta visão: não é apenas um projeto de construção, é um investimento na competitividade de uma nação que recusa ficar para trás no tempo.