sexta-feira, 10 de julho de 2026

O templo do bom comer em Portalegre

 


Quando José Régio escreveu a famosa Toada a Portalegre — “Portalegre, cidade do Alto Alentejo, cercada de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros...”—, não havia ainda o restaurante Tombalo
bos. Penso que, se este já tivesse existido, o grande poeta português teria dedicado pelo menos um poema a este verdadeiro templo do bom comer, onde a identidade alentejana se senta à mesa com a máxima dignidade.

Situado junto ao histórico Arco do Bispo, num antigo convento de freiras clarissas, o Convento de Santa Clara, o restaurante nasceu em 2002 pelas mãos da família Vintém. O espaço em si é uma viagem no tempo. Os tetos em arco feitos de tijolo burro, a pedra exposta e a iluminação acolhedora convidam a que aí se fique a gozar o ambiente. Ali, o tempo corre mais devagar. O serviço, dotado de uma grande simpatia e profissionalismo, faz-nos sentir imediatamente em casa.

A cozinha, atualmente nas mãos do portalegrense de gema José Júlio Vintém, o cozinheiro que se tornou um verdadeiro embaixador da gastronomia da região, faz valer a pena, por si só, qualquer viagem a esta cidade do Alto Alentejo. José Júlio Vintém não se limita a cozinhar; ele interpreta a paisagem, a caça, as ervas aromáticas e os saberes antigos, elevando-os à categoria de arte. Como se pode ler no portal do restaurante, "na sua cozinha, José Júlio elege por excelência os produtos alentejanos, aos quais junta a riqueza dos ingredientes e condimentos próprios de cada estação do ano. Inspirado na tradição ancestral apresenta-nos uma cozinha de base bem tradicional com algumas inovações e criações. Acredita ainda que o seu segredo está em cozinhar com simplicidade respeitando os aromas e sabores de cada produto."


Cozido de grão


Voltámos mais uma vez ao Tombalobos para comer o fantástico Cozido de Grão Alentejano, que parecia um poema moldado pelo fogo brando. Rico, reconfortante e com o caldo apurado e aromatizado pela hortelã, trazia a alma dos campos alentejanos num equilíbrio perfeito entre o grão tenro, as carnes de porco de qualidade e os enchidos tradicionais da região. É a verdadeira cozinha de panela e a herança das nossas avós.


Cação frito com migas de coentros


Hoje, de manhã, ouvi, fortuitamente, alguém falar de cação frito. Fiquei logo com muito vontade de voltar a comer este prato bem alentejano. Por sorte, havia na ementa do Tombalobos Cação frito com migas de coentros. Não pensei duas vezes. Pedi e estava divinal. O cação, completamente sem espinha central, vinha cortado em pedacinhos pequeninos e apresentava-se incrivelmente bem feito: uma crosta estaladiça por fora e uma carne muito branca que se desfazia na nossa boca, num contraste perfeito com os coentros e o aveludado das migas.

Para encerrar esta sinfonia de sabores, terminámos a refeição com o  Torrão Real. Este doce, um bolo rico de amêndoa e ovos que antigamente saía das mãos sábias e pacientes das freiras dos conventos da região, é o remate perfeito. Com a humidade certa e doçura equilibrada, honra o receituário da doçaria conventual que outrora habitava aquelas mesmas paredes.

O TombaLobos não é apenas um restaurante; é uma paragem obrigatória para quem procura a essência do Alto Alentejo. José Régio cantou a cidade em versos; José Júlio Vintém canta-a no prato. E que belo dueto eles fariam.