domingo, 26 de julho de 2026

As ruínas da antiga fábrica de seca de bacalhau da Companhia Atlântica de Pesca

Ruína da fábrica de seca do bacalhau

Na Baía do Seixal com uma vista privilegiada para Lisboa, a restinga da Ponta dos Corvos guarda um dos segredos mais emblemáticos do património industrial da Margem Sul: as ruínas da antiga fábrica de seca de bacalhau da Companhia Atlântica de Pesca.

Vista de Lisboa a partir da Praia da Ponta dos Corvos

Mesmo atrás da calma Praia da Ponta dos Corvos veem-se gigantes de cimento esventrados, tanques antigos e esqueletos de estruturas cobertos por arte urbana. Longe da agitação das grandes áreas urbanas, este cenário foi durante quase meio século um dos grandes motores económicos da região e um marco fundamental da indústria piscatória nacional.

Instalada em 1947, a fábrica de seca de bacalhau da Companhia Atlântica de Pesca nasceu para responder à grande procura nacional de bacalhau. Durante o Estado Novo, o governo impulsionou a autossuficiência no consumo de bacalhau. O peixe era capturado nos mares frios da Terra Nova e Gronelândia e trazido salgado em navios da "Frota Branca". Quando regressavam a Portugal carregados de peixe salgado, o Seixal surgia como o porto de abrigo ideal para o seu processamento.

Tanque para a lavagem do bacalhau


Estacas para a seca do bacalhau


A Ponta dos Corvos oferecia as condições microclimáticas perfeitas: uma ponta de areia aberta, exposição solar contínua e a brisa constante do Estuário do Tejo. Nos momentos de pico de produção, a fábrica chegou a empregar cerca de 600 trabalhadores, em grande parte mulheres. O trabalho era árduo e minucioso: o bacalhau era lavado em grandes tanques e estendido manualmente em extensos campos de seca ao ar livre, compostos por redes e estacas que cobriam hectares de terreno, cujas ruínas ainda hoje se podem ver.

Com o passar das décadas, a chegada da seca industrial de ar quente e o desenvolvimento das tecnologias de congelação rápida tornaram o processo de seca tradicional ao sol obsoleto. A Companhia Atlântica de Pesca acabou por encerrar definitivamente as suas portas no início dos anos 1990, deixando para trás um vasto complexo industrial abandonado.

Além da seca do bacalhau, a Praia da Ponta dos Corvos tem mais histórias. Ao passear na praia, podemos encontrar grandes conchas, as conchas das ostras portuguesas (Magallana angulata, anteriormente Crassostrea angulata).

Desde os séculos XVII e XVIII, a qualidade excecional das ostras apanhadas no Tejo e na Baía do Seixal tornou-as num produto altamente cobiçado pelas elites e cortes do Norte e Noroeste da Europa (especialmente em França, Inglaterra e nos Países Baixos).

Para resistirem às longas viagens marítimas sem se estragarem, era utilizado um método engenhoso de conservação e transporte. As ostras eram cuidadosamente acomodadas em barris de madeira atestados com água do mar. Este método mantinha os moluscos vivos e frescos durante semanas de viagem até ao canal da Mancha e aos portos do mar do Norte. As ostras do Seixal ganharam fama de iguaria de luxo (Delikatessen), rivalizando e muitas vezes superando o prestígio das ostras nativas europeias (Ostrea edulis).

Um dos episódios mais célebres desta história ocorreu em 1868 com o navio francês Le Saint-Michel. Carregado com milhões de ostras portuguesas em barris e porões a caminho de Inglaterra, o barco foi apanhado por uma forte tempestade na costa francesa. Para evitar o naufrágio, o capitão teve de lançar toda a carga ao mar na região da Bacia de Arcachon.


Para surpresa de todos, as ostras portuguesas não só sobreviviam à tempestade como se aclimataram e reproduziram com enorme sucesso nas águas francesas. Como uma doença dizimara as ostras nativas de França na época, a ostra-portuguesa salvou literalmente a indústria ostreícola francesa, passando a ser cultivada massivamente em França durante décadas sob o nome de Huitre Portugaise.

Na Baía do Seixal, a apanha e criação de ostras dinamizou durante gerações a economia local. Apanhadores e ostricultores locais (muitas vezes em pequenas embarcações conhecidas como canoas ou batéis) trabalhavam nos bancos naturais de lodo e salinas do Tejo. O Seixal funcionava como um centro produtivo de excelência devido à riquíssima mistura de água doce das marés com a água salgada, que fornecia alimento abundante (fitoplâncton) para o crescimento rápido e sabor apurado das ostras.

Durante a segunda metade do século XX, o aumento da poluição industrial na bacia do Tejo e a proliferação de um vírus específico que afetou a Crassostrea angulata nos anos 1970 dizimaram praticamente os bancos naturais e interromperam a produção em grande escala na Baía do Seixal. Nas últimas décadas, com a melhoria substancial da qualidade da água do estuário e o investimento na aquacultura sustentável, a produção de ostras tem estado a renascer na região do Seixal e na Península de Setúbal, recuperando a tradição secular do cultivo deste famoso molusco.







O encerramento da fábrica da seca de bacalhau não significou o fim do local. Ao longo dos últimos anos, as ruínas sofreram uma transformação espontânea. Os  muros de cimento transformaram-se em telas para artistas de arte urbana, enquanto a vegetação  e as aves do sapal recolonizaram o espaço.

Visitar a Ponta dos Corvos é realizar uma dupla viagem: uma imersão na memória do trabalho árduo da pesca do bacalhau e um passeio num refúgio natural de rara beleza, local para observar aves aquáticas, como garças, flamingos e íbis pretas.