Mostrar mensagens com a etiqueta Trujillo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Trujillo. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Trujillo: A cidade dos conquistadores, monumentos e tradição

Trujillo vista do castelo
A apenas 1h30 de Elvas (o destino ideal para quem vive no Alto Alentejo), 3h30 de Lisboa e 5h30 do Porto, Trujillo é uma escapadinha monumental e imperdível para um fim de semana, uma viagem inesquecível por palácios renascentistas, um castelo árabe, ruas medievais, sabores estremenhos e a magia de ruelas misteriosas à noite.

Há lugares cuja beleza transcende o simples olhar e nos transportam de imediato para outras épocas. Trujillo, situada no coração da Estremadura espanhola, é um desses destinos magnéticos. Vista quase sempre como uma joia monumental medieval e renascentista, períodos em que atingiu o seu esplendor máximo, a cidade guarda em cada pedra, em cada calçada e em cada fachada armoriada a memória de séculos de batalhas, comércio e expansão global.


Contudo, circunscrever Trujillo apenas à Idade Média ou ao Renascimento seria redutor. Trata-se de uma cidade de múltiplas camadas históricas, onde a arte barroca também deixou marcas profundas. Um exemplo perfeito desta riqueza patrimonial é a Igreja consagrada ao Precioso Sangue de Cristo, erguida entre 1627 e 1675 graças ao patrocínio e devoção dos capitães da cidade e que agora alberga o museu da história dos descobrimentos. Atravessando os múltiplos reveses da sua história, este templo chegou a encontrar-se num estado de degradação lamentável, à beira da ruína. Numa intervenção exemplar de resgate cultural, o município de Trujillo, com o apoio da Junta da Estremadura, adquiriu e restaurou o edifício para exibir o extraordinário património histórico e cultural da localidade.


Das origens romanas às fortificações muçulmanas

A aventura humana neste território remonta a tempos remotos. Foram os romanos que fundaram Turgalium no ano 20 a.C., sobre um povoado indígena anterior. A sua localização inicial, no cerro da Cabeça do Zorro, converteu-se num ponto estratégico inapreciável de defesa. Como dependência de Emerita Augusta (a atual Mérida), Trujillo transformou-se num enclave crucial da rota comercial e militar que unia Emerita a Cesar Augusta (a atual Saragoça).

A presença romana ao longo de mais de cinco séculos moldou a cultura e a sociedade, enriquecidas depois pelos povos que a povoaram, como os visigodos (que entre os séculos VI e VII a chamaram Turcallion). A partir do século VIII, Trujillo foi tomada pelos muçulmanos, passando a chamar-se Torgielo. Uma vez mais, a posição estratégica da cidade fez com que desempenhasse um papel relevante na rede defensiva entre o Tejo e o Guadiana.

Na segunda metade do século IX, os muçulmanos dotaram a povoação do seu castelo com imponentes muralhas. Dentro destas, os artesãos muçulmanos vendiam os seus produtos em bazares, destacando-se pelas belas cerâmicas e modelos inovadores muito apreciados e imitados na arte europeia. 

A 25 de janeiro de 1232, Trujillo foi definitivamente reconquistada pela Coroa de Castela e, em 1430, o Rei João II de Castela reconheceu-a com o título de "Ciudad Muy Noble, Muy Leal, Insigne y Muy Heroica".


O brasão mais antigo da cidade, na Porta de Santiago



Monumentos Imperdíveis: Do castelo aos palácios renascentistas

Passear por Trujillo é folhear um livro de história ao ar livre. Durante a sua visita, há monumentos fundamentais que não pode deixar de explorar. 


Sino do castelo


Erguido no ponto mais elevado da cidade, temos a Alcazaba de Trujillo, a antiga fortaleza militar. Classificada como Monumento Histórico-Artístico em 1925, o castelo oferece do topo das suas muralhas e ameias uma vista panorâmica sobre o centro histórico de Trujillo e as planícies da Extremadura. O recinto serviu também como cenário para diversas produções audiovisuais de relevo, destacando-se as filmagens da sétima temporada da série Game of Thrones (onde representou as muralhas de Casterly Rock).



Erguida no topo de uma colina granítica chamada Cabeza de Zorro, esta fortaleza domina a paisagem envolvente e representa um testemunho da arquitetura militar defensiva na Península Ibérica.

A estrutura original remonta aos séculos IX e X, durante o período de ocupação muçulmana (al-Andalus). Construída sobre antigas bases de assentamentos romanos e visigóticos, a alcáçova islâmica servia como ponto estratégico de controlo de vias de comunicação e defesa do território.




Ao longo dos séculos XII e XIII, a fortaleza mudou várias vezes de mãos entre cristãos e muçulmanos no contexto da Reconquista, até ser definitivamente tomada por Fernando III de Leão e Castela em 1233. Após a reconquista cristã, o castelo sofreu sucessivas remodelações e ampliações nos séculos XIV e XV, incluindo a adição de uma barbacã nos tempos dos Reis Católicos.

A fortaleza é construída em alvenaria de granito, blocos de pedra e argamassa, apresentando dois grandes recintos geométricos interligados:

·         Pátio de Armas (Recinto Principal): Corresponde à antiga alcáçova árabe. Tem uma planta sensivelmente quadrada e é flanqueado por 17 torres quadradas ameadas, típicas da arquitetura militar islâmica. O acesso faz-se através de um portão com arco em ferradura.

·         Albacar: Um recinto secundário de planta hexagonal irregular que servia de refúgio e abrigo para a população civil e os seus rebanhos em momentos de cerco ou perigo.

·         Cisternas (Aljibes): No seu interior conservam-se cisternas de época islâmica, escavadas na rocha, essenciais para garantir o abastecimento de água durante eventuais cercos.


Imagem de Nossa Senhora da Vitória

·         Capela de Nossa Senhora da Vitória: Entre duas das torres principais (torres albarrãs) encontra-se a capela que alberga a imagem em pedra da Virgem da Vitória, padroeira de Trujillo, colocada de frente para a cidade, cujas festas duram nove dias e têm lugar entre finais de agosto e início de setembro.




A Igreja de Santa Maria Maior, o templo religioso mais importante de Trujillo, construído entre os séculos XIII e XVI, combina elementos românicos e góticos. Localizada na zona alta e histórica da cidade, foi erguida após a reconquista cristã no século XIII — acredita-se que sobre as fundações da antiga mesquita muçulmana — e expandida entre os séculos XV e XVI.


O estábulo do altar-mor

Esta igreja destaca-se por reunir vários elementos de grande valor histórico e artístico. O interior acolhe um soberbo retábulo em estilo gótico florido, pintado por volta de 1490 no atelier do prestigiado mestre Fernando Gallego e do Mestre Bartolomé. É composto por 25 painéis a óleo que retratam a vida da Virgem Maria, a Paixão e a Ressurreição de Cristo.

Os sinos da torre sineira

Vista das torres


Não perder a subida às duas torres donde se têm as melhores vistas panorâmicas sobre os telhados medievais de Trujillo e sobre a paisagem da Estremadura. torre românica é a primitiva do século XIII, que sofreu graves danos com os terramotos de 1521 e 1755, vindo a ser restaurada e reconstruída no século XX, e a torre nova (a torre sineira), já mais moderna, onde no 1º piso está o Coro de Sancho de Cabrera, construído em 1550 em estilo plateresco, e está apoiado sobre uma abóbada em cruz estrelada na parte posterior da nave.

O chão do templo e as suas capelas laterais abrigam túmulos e pedras sepulcrais das principais famílias nobres de Trujillo (Pizarro, Orellana, Vargas-Carvajal e Altamirano). Destaca-se também o túmulo de Diego García de Paredes, o famoso militar espanhol conhecido como o "Sansão da Estremadura".


Plaza Mayor

No entanto, o verdadeiro centro nevrálgico da cidade, rodeado por arcadas medievais e edifícios nobres, é a Plaza Mayor, onde se encontra a monumental estátua equestre em bronze de Francisco Pizarro, montado a cavalo com armadura completa. É uma obra do escultor americano Charles Rumsey e que se tornou a imagem de marca de Trujillo.





A Plaza Mayor  é o coração da cidade e uma das praças mais impressionantes e cenográficas de Espanha. De formato irregular e declive acentuado, este espaço urbano rodeado de palácios renascentistas e arcadas medievais serviu historicamente como mercado, palco de festividades e centro da vida social extremenha.


Rosácea da igreja de São Martinho de Tours
Mesmo ao lado da estátua, num dos ângulos mais nobres da Plaza Mayor, temos a Igreja de São Martinho de Tours. Mandada construir no século XIV sobre as ruínas de uma edificação medieval anterior, sofreu ampliações substanciais durante os séculos XV e XVI, o que resultou numa imponente fusão dos estilos gótico tardio e renascentista.

Este templo desempenhou um papel civil e religioso de enorme relevância histórica na cidade, servindo frequentemente de ponto de reunião para o conselho concelhio e de panteão para várias famílias nobres extremenhas.




Construída inteiramente em grandes blocos de granito, a igreja apresenta duas entradas principais: a Porta das Limas (de estilo gótico florido, decorada com motivos vegetais) e a Porta Principal (renascentista). Nas paredes exteriores é possível observar diversos sinais escavados na pedra, correspondentes às marcas de artesãos e pedreiros medievais que organizavam a construção.

O interior impressiona pela amplitude de uma grande nave única coberta por abóbadas em cruz estrelada tipicamente góticas. Abriga um retábulo de estilo neoclássico e baroco, juntamente com vários altares laterais com imagens religiosas de grande devoção local. Na zona do coro encontra-se um magnífico órgão do século XVIII, perfeitamente integrado na estrutura do templo. O pavimento e as capelas albergam túmulos de figuras ilustres de Trujillo, decorados com heráldica e brasões da época das explorações ultramarinas.


Esquina do palácio da Conquista

Na Plaza Mayor, os palácios de estilo renascentista exibem uma elegância contida, contrastando com a arquitetura religiosa mais esplendorosa. No canto oposto à igreja de São Martinho de Tours, encontra-se o Palacio de la Conquista  (também conhecido como Palacio de los Marqueses de la Conquista), o edifício civil de maior destaque na Plaza Mayor de Trujillo. Mandado construir no século XVI por vontade de Francisco Pizarro no seu testamento, a edificação foi levada a cabo pelo seu irmão Hernando Pizarro e pela esposa deste, Francisca Pizarro Yupanqui (filha do conquistador e da princesa inca Inés Huaylas).

Esta residência senhorial reflete a riqueza e o estatuto alcançados pela família Pizarro após a conquista do Império Inca e a concessão do título de Marqueses de la Conquista por Carlos V.

Busto de Francisco Pizarro

Busto de Inés Huaylas


O elemento mais fotogénico e monumental é a sua imponente varanda de esquina de estilo plateresco. A varanda está encimada pelo grande brasão de armas concedido por Carlos V à família Pizarro. Ladeando o escudo, encontram-se os bustos esculpidos em pedra de Francisco Pizarro, da sua esposa Inés Huaylas, de Hernando Pizarro e de Francisca Pizarro Yupanqui. O edifício apresenta ainda uma imponente crista em pedra com estátuas alegóricas e motivos renascentistas ao longo do seu piso superior e no topo da fachada.


Gastronomia estremenha e a magia das noites na Praza Mayor 


Migas estremenhas com ovo estrelado e enchidos


Depois de percorrer a história e os monumentos, a experiência de Trujillo completa-se à mesa. Para o jantar, nada se compara a sentar-se numa das acolhedoras esplanadas da Plaza Mayor para degustar a autêntica gastronomia da Estremadura. O repasto começa com umas tradicionais migas acompanhadas por enchidos regados da região, seguidas de

uns reconfortantes ovos mexidos com cogumelos e uns estaladiços aros de lulas fritas. Tudo isto acompanhado por um ótimo vinho da região — uma garrafa por uns inacreditáveis 5,50 €! Para terminar com chave de ouro, as sobremesas locais são obrigatórias.  

Os doces típicos de Trujillo celebram a tradição e os heróis da terra. Destacam-se as delicadas Gemas de Pizarro e as estaladiças Orellanas, de inspiração conventual. Os saborosos Monfraguitos e Hurdanitos homenageiam a gastronomia regional estremenha, enquanto a emblemática Trécula completa uma pastelaria rica, autêntica e verdadeiramente irresistível.


Os robertos Pepito y sus amigos

À noite, a Plaza Mayor ganha uma vida mágica. Quando lá estivemos,  às 22h, as escadas da praça encheram-se de famílias para assistir ao

espetáculo 'Pepito y sus amigos'. As crianças estavam animadíssimas, a interagir efusivamente com os teatrais robertos!






Embora conte atualmente com cerca de 8.000 habitantes — um número que tem vindo a diminuir —, Trujillo mantém para sempre o seu orgulhoso título de cidade e uma vivacidade contagiante. Seja pelo património monumental, pela gastronomia generosa ou pelo ambiente caloroso da sua vida noturna, esta joia da Estremadura está apenas a um pulinho de distância.