sexta-feira, 10 de maio de 2024

Porto Santo - três dias de descanso

 

Nove quilómetros de areia dourada e fina! Águas translúcidas, mornas, de vários tons de azul! Clima ameno todo ano! Sabe onde fica? Porto Santo, uma das ilhas do arquipélago da Madeira. Um paraíso no meio do Atlântico.

E não é preciso programar férias longas. 2/3 dias bastam para recuperar as forças, relaxar na ilha, que está bem perto de Portugal, a somente 1h40 de avião. E muitas vezes a preços espetaculares, mais baratos até do que uma ida ao Porto ou ao Algarve em portagens e combustível. Venha até Porto Santo!

 

Domingo

15h. Estava a aprontar- me para sair de casa e rimar ao aeroporto quando a minha companheira de viagem me telefona a dizer que tinha recebido um SMS a informá-la de que o nosso voo tinha sido cancelado. “Há não vamos para Porto Santo”, constata ela.

Não, não iria desistir e prescindir destes três dias de descanso naquela bela ilha do Atlântico.

Vejo online que alternativas haveria à easyJet. O próximo voo desta companhia aérea só ´seria na 4ª f seguinte, no dia do nosso regresso. Que fazer? O e-mail era claro. Poderíamos remarcar o voo sem custos ou pedir o reembolso ou um voucher.

Liguei para o centro de atendimento, pensando que não iria resolver o assunto. Esperei bastante tempo até ser atendida, sempre a ouvir as mensagens de que seria mais cómodo ir â página web.

Finalmente, alguém atendeu. Uma senhora, Carolina, com uma voz muito simpática que nos ofereceu um voo alternativo, mas via Funchal com chegada a Porto Santo no dia seguinte por volta das 7h30. Nem teríamos de dormir no aeroporto. Poderíamos reservar um hotel num Funchal e a easyJet reembolsar-nos-ia os nossos custos.

A causa do cancelamento: o avião previsto para efetuar o voo sofrera danos no solo em Lisboa, causados por uma roda . Os engenheiros da easyJet verificaram que os danos eram substanciais e foi tomada a decisão de cancelar o voo. Em última análise, e no caso deste voo, os atrasos fizeram com que a tripulação ultrapassasse o limite máximo legal de horas de operação.

Às 22h50 lá partimos na TAP para o Funchal. Aí tomámos o táxi da Sra. D. Dores Abreu, uma mulher de armas todas decidida, que nos levou para o Vila Galé de Santa Cruz.

Tiro e queda, deitámo-nos e dormimos muito rapidamente.

 

2ª f

Um pouco antes das 6h, o despertador tocou. Aprontámo-nos e a Sra. D. Dores Abreu levou-nos de volta para o aeroporto. O avião da Binter Canárias descolou às 7h22. Depois entrámos dentro duma nuvem e, uns minutos depois, o piloto anunciou para nos prepararmos para aterragem. Aterrámos às 7h34. 12 minutos de voo!

Um táxi levou-nos para o apartamento que tínhamos alugado. Rapidamente lá chegámos, pois em Porto Santo tudo é perto. Porto Santo tem uma área de 42,48 km2 e uma população de pouco mais de 5 mil pessoas. O apartamento foi uma boa descoberta. Tinha dois quartos, duas casas de banho e uma boa sala, perfeito para os nossos três dias de relax.

Apartamento Beach Relax




Refrescámo-nos e fomos até ao Shopping Zarco, a aprox. 400 metros comprar o que precisaríamos para os três pequenos-almoços.

 


A descoberta oficial da Ilha de Porto Santo ocorre no século XV durante o reinado Dom João I. Embora a localização das ilhas já fosse conhecida, por já haver referências das mesmas em cartas marítimas, só nessa altura é que o território foi reconhecido perante a corte portuguesa e foi decidido o seu povoamento. Porto Santo foi a primeira ilha do arquipélago da Madeira a ser descoberta pelos navegadores João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Bartolomeu Perestrelo em 1418 – mas por mero acaso. Os marinheiros chegaram esta pequena ilha arrastados por uma tempestade. Chamaram-lhe então Porto Seguro ou Porto Santo, pois livrou a tripulação dum naufrágio e morte certa.

O Infante D. João I foi o primeiro donatário da ilha entre 1418 e 1419, tendo nomeado Bartolomeu Perestrelo para Capitão donatário, que ficou encarregue da sua colonização. Após a morte do João I, o seu sucessor, o rei D. Duarte, doou o arquipélago da Madeira ao Infante Dom Henrique em 1433.

Uma das filhas de Bartolomeu Perestrelo, Filipa Moniz, casou com o navegador Cristóvão Colombo. A casa onde supostamente terão vivido é agora um museu.

Naquele tempo, as ilhas eram muito vulneráveis a ataques de piratas e  corsários. Também Porto Santos não foi poupada a esses ataques violentos. O mais cruel aconteceu em agosto de 1617, efetuado por uma frota argelina de oito navios. Foram levados para Argel 900 habitantes, tendo ficado na ilha apenas 18 homens e sete mulheres que se esconderam em grutas nos montes e em silos de cereais, escavados no pavimento de algumas casas.

O objetivo principal destes ataques era a captura de cristãos para serem vendidos como escravos. Para isto eram escolhidos principalmente os homens válidos e jovens, as mulheres em idade fértil e as crianças por constituírem mais fácil veículo de propagação da fé.

 




Fortalecidas com um bom pequeno-almoço, fomos até Vila Baleira, a capital da ilha, sempre pela maravilhosa praia de areia dourada. 

Saímos na Praia da Fontinha, junto ao hotel Torre Praia e aos balneários bem coloridos. No final da rua, há a fábrica da água, agora desativada, que em tempos engarrafou água que vinha duma nascente , daí o nome da praia. Foi fundada em 1921 por João Vicente da Silva, adquirida pouco tempo depois pela empresa Araújo, Tavares & Passos Lda., cujas quotas ainda pertencem às famílias Araújo e Tavares.

Fábrica da Água


Desde finais do século XIX, falava-se da hipótese de exploração das águas minerais da Fontinha, havendo mesmo quem a levasse para a Madeira, pois dizia-se que tinhas propriedades medicinais. A 7 de janeiro de 1893 foi efetuada em Paris a primeira análise das águas da Fontinha, que revelaram serem bicarbonatadas, cloretadas e sulfatadas sódicas, aconselháveis, portanto, para o tratamento de doenças de pele e do aparelho digestivo.

Infelizmente, em 1995, após uma vistoria realizada pela Direção Regional de Saúde Pública, foi ordenada a cessação de laboração da unidade fabril.

Cristóvão Colombo

Infante D. Henrique


"Pau de sabão"


Seguimos até ao jardim municipal, um local muito agradável, com o busto do Cristóvão Colombo, uma estátua do infante D. Henrique, inaugurada em 2018, e o Padrão dos Descobrimentos, conhecido por “Pau de Sabão”.

Igreja de Nossa Senhora da Piedade



altar -mor

Jesus e os onze apóstolos


Subimos a rua e chegámos à igreja-matriz, a Igreja de Nossa Senhora da Piedade, edificada em 1430. No entanto somente em 1500 é determinada igreja paroquial. A igreja foi destruída várias vezes durante os ataques de piratas. Talvez seja esta a razão por o seu nome ter sido alterado de Nossa Senhora da Conceição para Nossa Senhora da Piedade. A igreja é composta por dois corpos retangulares, donde se salienta a torre sineira. O interior é de nave única com quatro capelas laterais. Na capela-mor realça o retábulo de estilo maneirista que compreende três pinturas, sendo a central dedicada ao Cristo morto, de Martin Conrado,  de 1650, e as laterais de Max Römer, inspiradas em duas figuras de Albrecht Dürer.

Casa-museu Cristóvão Colombo


Mesmo ao lado temos a Casa-Museu de Cristóvão Colombo. No decorrer das obras de remodelação em finais da década 90 do século 20 foram colocadas a descoberto duas janelas de arco. No edifício ao lado está instalado o Museu dos Descobrimentos onde se dá a conhecer a posição estratégica que o arquipélago teve nas expedições marítimas dos descobrimentos.

Jantámos no restaurante Mar e Sol de Maria Miquelina Paixão, uma madeirense que vive na ilha há 35 anos e que faz uma comida verdadeiramente caseira, que nos deliciou, enquanto olhávamos o mar. O restaurante está mesmo na praia e foi um ótimo fim de dia. As lapas grelhadas e o bolo do caco com manteiga de alho estavam divinais.

Lapas grelhadas


O bolo do caco remontará ao século XV. O seu nome vem do facto de ser cozido, antigamente, em cima de uma pedra de basalto. Como não precisa de forno para ser feito tornou-se uma excelente opção para a maioria das pessoas que viviam em condições económicas muito frágeis. Batata doce, farinha, água, sal e fermento são os ingredientes do bolo do caco.

 

 

3ªf

Começámos o passeio procurando o Moinho das Lombas. Os moinhos de vento terão  surgido na ilha no século XVII por volta de 1794, sendo muito úteis para a população na moagem de cereais,  necessária ao fabrico do pão, usando a força motriz do vento. A difusão dos moinhos foi tão expressiva que na atualidade constitui uma imagem de marca da região. À tarde, aquando  da volta que demos de autocarro pela ilha, vimos três belos exemplares junto ao miradouro da Portela. A maioria dos moinhos de Porto Santos, construída de madeira, é giratória, pois a ilha está exposta ao vento vindo de vários quadrantes.


Moinho das Lombas


Percorremos ruas e ruelas até chegarmos a Vila Baleira, passando pelo Forte de São José, seguindo depois até à marina que está situada na costa sul da Ilha, dentro do porto comercial e protegida por dois molhes com farolins. É a 1ª marina para os velejadores que vêm de Portugal Continental ou do estreito de Gibraltar.

Entrada do forte de São José


Marina de Porto Santo


À tarde resolvemos fazer uma volta à ilha de autocarro que nos levou à Calheta, onde pudemos ver bem de perto o Ilhéu da Cal que é o maior de Porto Santo. Recebeu a sua denominação da predominância do minério da cal neste local. A extração da cal foi durante muitos anos e uma importante fonte de receita para economia local. Atualmente as meninas estão desativadas. A separação do ilhéu da ilha deu-se por erosão.

Ilhéu da Cal


Seguimos para a Fonte da Areia. A grande quantidade de areia deu o nome a esta localidade, onde outrora se encontrava a água mais pura do Porto Santo e que chegou mesmo a ser considerada uma fonte sagrada pelos habitantes.

Do Miradouro da Fonte de Areia, Porto Santo, avista-se o Ilhéu da Fonte de Areia, bem como a falésia e a costa norte da ilha.
As rochas arenosas, moldadas pela erosão do vento, são extensas acumulações de arenitos biogénicos carbonatados, classificados como eolianitos, provocadas pela ação secular do vento.

Os eolianitos são a rocha-mãe da atual areia da praia do Porto Santo, cujas partículas arenosas são, na sua larga maioria, constituídas por fragmentos de conchas de moluscos e algas calcárias, uma herança da vida marinha que aqui terá existido.

A paragem seguinte foi no Pico do Castelo. Este pico está intimamente ligado à história da ilha, tendo durante séculos como abrigo da população face aos ataques e saques de piratas e corsários.

Este pico, que corresponde a uma antiga cratera vulcânica,  encontra-se localizado a 437 m de altitude e proporciona uma vista excecional sobre Porto Santo. Aqui foi construída uma pequena fortaleza no século XVI para fazer frente às invasões de piratas. Lá há uma homenagem a António Bon de Sousa Schiappa de Azevedo (1870-1926), responsável pela reflorestação de Porto Santo que se encontrava desprovido de qualquer vegetação. O êxito obtido neste pico deveu-se ao trabalho persistente de arranjar o terreno e construir muretos em pedra para suporte e sustentação da pouca terra que existia na encosta.

A costa vista do miradouro da Portela

Antes de regressarmos a Vila Baleira, donde partíramos, parámos ainda no miradouro da Portela, com os seus três belos moinhos de vento.


 

 











4ªf





Capela do Espírito Santo

Depois do pequeno-almoço e do café na Pastelaria Zarco começámos a nossa caminhada. A primeira paragem foi na capela do Espírito Santo. A atividade deste local de culto é remota, havendo referências a uma ermida no século XVI dedicado ao Espírito Santo. A capela foi reconstruída no final do século XVIII - princípios do século XIX em estilo protobarroco. A fachada tem linhas simples, mas no interior destaca-se o altar em talha dourada e policromada em estilo maneirista, de meados do século XVII.

Fontanário do Espírito Santo

Logo ao lado está o Fontanário do Espírito Santo. Os trabalhos de construção desse fontanário tiveram início em agosto de 1890 para servir a população local, aproveitando as águas do Ribeiro Coxinho. A falta de água foi desde sempre um desafio, com influência direta na vida das populações. O seu transporte era feito ou em latas transportadas às costas, ou em bilhas ao pescoço ou até em barris. Enquanto esperavam que as latas de água se enchessem, tarefa que muitas vezes demorava duas a três horas, as mulheres aproveitam esse tempo para conviver, conversar e bordar.

Pico Ana Ferreira

A caminho da praia e da baía do Zimbralinho, temos o Pico de Ana Ferreira de grande interesse geológico não só pela raridade como dimensão. Este é o ponto mais elevado do lado ocidental da ilha. Nesta área, que outrora foi uma antiga pedreira, podem ver-se formações rochosas que resultaram do arrefecimento do magma no interior das condutas vulcânicas. São popularmente conhecidos como o “piano”.

Praia do Zimbralinho
Ilhéu da Cal e costa vista do Zimbralinho


Continuando a subir em direção ao mar, chegámos finalmente à Baía do Zimbralinho. A praia , de calhau, tem, porém, fantásticas águas azul turquesa, onde se podem ver formações vulcânicas submarinas (pillow lavas). Infelizmente os acessos estão cortados e não se pode descer até à praia.

Restaurante Casa da Avó

Regressámos ao apartamento, não sem antes mergulharmos nas águas cálidas. Jantámos divinalmente na restaurante Casa da Avó, onde fomos muito bem recebidas pelo empregado Alexandre, que nos preparou uma deliciosa poncha: misture sumo de 2 limões e 1 laranja. Meça o sumo e junte a mesma quantidade de aguardente de cana e mel a gosto. Mexa com o caralhinho, e delicie-se.

Alexandre a preparar a poncha

Poncha

Repetimos as lapas grelhadas com bolo do caco. E como prato principal pedimos a famosa espetada. A carne derretia-se na boca. Só tivemos pena que não houvesse milho frito para acompanhar.

A espetada de vitela

Do restaurante fomos diretamente para o aeroporto. Foram três maravilhosos dias de relaxamento.

 

 

 

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Wye, uma sossegada vila inglesa

Igreja anglicana de Wye


 Tínhamos somente algumas horas antes de partir de Kent. As opções de visita eram muito reduzidas. Os pontos de maior interesse estavam a aproximadamente 1 hora de viagem, o que significava que não teríamos tempo para a viagem. Teria de ser algo realmente muito perto.

Olhámos de novo o mapa e descobrimos Wye, uma pequena vila (será mesmo aladeia?) na junção dos rios Wye e Stour. Metemo-nos então a caminho e passados 12 minutos estávamos a chegar a Wye.

O nome da vila deriva da palavra em inglês antigo "Wēoh", que significa ídolo ou santuário. Pensa-se que terá sido um local de adoração pré-cristã.

Wye tornou-se um importante centro de comunicações devido a um vau que atravessa o rio Stour. Os romanos construíram uma estrada entre Cantuária e Hastings. Foram encontrados vestígios de uma fábrica de ferro na margem oeste do rio, desse período. Na época medieval, Wye tinha um mercado.

Em 1798, Edward Hasted descreveu Wye como “...uma cidade bem construída, composta por duas ruas paralelas e duas transversais, todas elas não pavimentadas. Tem uma grande área verde, construída em redor, num dos lados da qual se situa a igreja e a universidade.”

No final do século XVIII, foi aberto um caminho que contornava a aldeia pela margem oeste do rio Stour. A estação ferroviária de Wye foi construída para a linha South Eastern Railway de Ashford a Margate e inaugurada em 1 de dezembro de 1846.

Atualmente, é uma vila muito sossegada, escolhida por muitas pessoas para aí viverem as suas reformas. Em 2013, os leitores do Sunday Times votaram Wye como o terceiro melhor sítio para viver no Reino Unido.



A sua grande atração é, sem duvida, a Igreja Anglicana de São Gregório e São Martinho. Inicialmente, a igreja foi dedicada somente ao Papa Gregório Magno. São Martinho foi acrescentado por volta de 1475, possivelmente para reconhecer o papel da Abadia de Battle, que era dedicada a São Martinho e possuía o Solar de Wye.

A igreja tem uma longa história. Em 1290 foi aqui construída uma grande igreja com uma enorme nave e uma capela-mor também muito grande. O campanário tinha um pináculo, muito alto, de madeira revestido de chumbo. Desta igreja inicial, apenas subsistem as paredes exteriores da nave

No século XV, o Cardeal Kempe fundou a universidade de Wye, construiu os edifícios para a universidade funcionar e reconstruiu a igreja. A porta principal passou a ser numa parede lateral para condizer com a entrada da universidade. As paredes foram revestidas com superfícies planas de sílex fendido. A estrutura mais forte suportava um clerestório e um telhado fino.

Com a Reforma, em 1548, as imagens dos santos foram proibidas nas igrejas. Tudo foi retirado e vendido. Sobreviveram a divisória entre a nave e a capela-mor assim como os vitrais.

O único vitral que ainda existe 


Só que com a chegada ao trono de uma rainha católica, Maria, o culto e as tradições católicas foram reintroduzidas. Infelizmente, a intolerância também. Richard Thornden, bispo de Dover, e Nicholas Harpsfield, arquidiácono de Cantuária, mandaram queimar dez protestantes que se mantinham fiel à sua fé, entre os quais John Philpot, de Tenterden, e Thomas Stephens, de Biddenden, cujo auto-de-fé teve lugar junto ao portão da igreja, em janeiro de 1557. No ano seguinte, porém, subiu ao trono uma rainha anglicana, Isabel I, e a religião protestante foi restabelecida.

As desgraças continuaram porém. Em 1572, o campanário foi atingido por um raio e ardeu completamente, derretendo o revestimento de chumbo do pináculo e danificando seriamente os cinco grandes sinos. De imediato começaram as obras de reconstrução, que foram terminadas em 1579. Infelizmente, o grande tremor de terra de 1580, com epicentro em Dover, fez estragos em muitos edifícios, incluindo a igreja.

Em 1593, foram finalmente recolocados no seu lugar os sinos danificados pelo incêndio e já reconstruídos.

Em 1628, o pináculo de madeira foi novamente substituído, mas, devido ao peso dos sinos, desmoronou-se sessenta anos mais tarde, destruindo grande parte da capela-mor e da nave e a maioria dos vitrais. Entre 1700 e 1711, a igreja foi reconstruída na sua forma atual, mas bastante mais pequena.

No nosso século, Wye voltou a ter direito a lugars nos jornais, por causa do seu vigário, o Reverendo Ravi Holy. Antigo estudante da escola de elite de Eton, foi alcoólico, toxicodependente, satanista, músico de punk rock e membro de uma congregação pentacostal.

Cemitério à volta da igreja



quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

MSC Euríbia, o navio mais sustentável da frota MSC, passou por Lisboa na sua viagem inaugural

 

@MSC Cruzeiros

Na sua viagem inaugural, o MSC Euribia, o  22º navio da frota da MSC Cruzeiros, a terceira maior marca de cruzeiros do mundo, completou a viagem de Saint-Nazaire a Copenhaga com zero emissões de gases de efeito estufa, graças à utilização do bio-LNG,  o combustível marítimo mais limpo atualmente disponível em escala, e pela aplicação de abordagem de balanço de massa. Tal foi realçado por Linden Coppell, Corporate Vice-President Sustainability and ESG da MSC Cruises.

Apesar dos seus 19 decks, 43 metros de largura, 2 419 camarotes e 35 000 metros quadrados de área pública, é o navio de cruzeiro com maior eficiência energética de todos os tempos, sendo o segundo navio da MSC Cruzeiros a ser movido a LNG, apresentando uma variedade de tecnologias e soluções ambientais de vanguarda que minimizam o impacto atmosférico e no ambiente marinho, incluindo sistemas avançados e tratamentos de águas residuais e gestão de resíduos. A água potável é 90% ganha da água do mar que é desalinhada e purificada. As águas sujas são tratadas a bordo numa pequena ETAR. Relembremos que o objetivo da indústria de cruzeiros é ser carbon-neutral até 2050.

@Isabel figueira


Visualmente, o MSC Euribia apresenta uma nova silhueta em relação aos outros navios da MSC com um cresco personalizado exclusivo intitulado #SavetheSea, pintado no seu exterior que celebra a dedicação contínua da MSC Cruzeiros ao mar e o compromisso de alcançar zero emissões até 2050.

Pertencendo ao grupo de navios da classe Meraviglia-Plus, o MSC Euribia oferece muitas experiências dinâmicas aos passageiros com recursos inovadores, instalações e entretenimento enriquecedor não só para os adultos, mas também para as crianças. Estas estão cada vez mais no foco da MSC. A área infantil foi totalmente repensada em relação aos outros navios: 700 metros quadrados de espaço interior inteiramente dedicado às crianças e adolescentes com sete salas, cada uma delas para diferentes faixas etárias dos 0 aos 17 anos. Grande novidade é o MSC Foundation Lab, uma nova área para crianças e um programa de atividades dedicado a educar crianças e adolescentes sobre temas ambientais. Água é essencial para as crianças e além de várias piscinas, os mais novos têm à sua disposição o Ocean Cay Aquapark, um dos maiores parques aquáticos no mar, com três escorregas.



Para relaxarem durante o dia, os adultos  têm à sua disposição o Carousel Lounge, localizado na popa do navio,   com um novo layout, oferecendo fantásticas vistas panorâmicas sobre o oceano. À noite, música ao vivo, com a Big Band at Sea, uma das maiores big bands do mar, ou um espetáculo de grande produção no Delphi Theatre, com 945 lugares, podem terminar o dia em grande.

Para as refeições, os passageiros têm à sua escolha 10 restaurantes, dos quais cinco restaurantes de especialidade, um bistrô francês e steakhouse, Le Grill, e o Kaito Sushi & Robatayaki, um dos pilares da MSC Cruzeiros que apresenta um robatayaki pela primeira vez. O navio tem ainda 21 bares e lounges com cinco áreas exteriores e 16 interiores.



Os passageiros poderão passear-se pela Galleria Euribia, a maior cúpula LED no mar, com uma grande variedade de lojas e restaurantes.

Galleria Euribia


A MSC Cruzeiros é a marca líder de cruzeiros na Europa, incluindo Portugal, na América do Sul, na região do Golfo e no Sul de África com mais market share, bem como a companhia de cruzeiros com maior crescimento no mundo, com forte presença nos mercados das Caraíbas, América do Norte e Extremo Oriente.

A prioridade número um da MSC em todas as suas operações sempre foi a saúde, segurança e o bem-estar dos hóspedes e tripulantes, bem como das comunidades nos destinos onde os seus navios operam. Em Agosto de 2020, a MSC Cruzeiros implementou um novo abrangente e robusto protocolo de Saúde, Higiene e Segurança para se tornar na primeira grande companhia de cruzeiros a regressar ao mar.

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Singapura também tem herança portuguesa

 

Igreja portuguesa de São José


Quando pensamos em Singapura, relacionamos sempre com a Grã-Bretanha. E temos razão. Singapura foi fundada como um posto comercial da Companhia Britânica das Índias Orientais por Sir Stamford Raffles em 1819 com a permissão do Sultanato de Johor. O Império Britânico obteve soberania completa da ilha em 1824. 

E, no entanto, os Portugueses estiveram lá antes. Quando os portugueses tomaram o controlo de Malaca em 1511, o Sultão de Malaca fugiu para sul e fundou o Sultanato de Johor, que incluía a ilha do que é hoje Singapura. Há registos de uma batalha naval entre navios portugueses e holandeses ao largo da costa de Singapura, em outubro de 1603, que os portugueses perderam. Em 1613, os portugueses destruíram a colónia malaia da ilha e o local ficou praticamente esquecido até à chegada de Sir Stamford Raffles em 1819.

Os Portugueses mantiveram, porém, um “pezinho” na ilha, através da religião. Em 1821, já existia uma pequena comunidade católica que incluía malaios de ascendência portuguesa. A sua ação era exercida por sacerdotes da Diocese de Malaca, criada em 1558, que sobreviveu à tomada de Malaca pelos holandeses protestantes aos portugueses em 1641. Por sua vez, a Diocese de Malaca era apoiada pela Arquidiocese de Goa e pela Diocese de Macau, áreas que os portugueses continuavam a controlar.

Em 1825, o P. Francisco da Silva Pinto e Maia, natural do Porto, mas em missão em Macau, aonde tinha chegado 12 anos antes, foi para Singapura e aí fundou a Missão Portuguesa. No enanto, a ação católica francesa também estava ativa no Sudeste Asiático, nomeadamente no Sião (atual Tailândia), Vietname, Laos e Camboja. Em 1831, o Vigário Apostólico do Sião, francês, reivindicou a jurisdição espiritual sobre Singapura, o que deu origem a uma disputa entre os ramos português e francês da Igreja Católica que se prolongou por vários papas. Finalmente, em 1886, a dupla jurisdição sobre Singapura foi clarificada por uma Concordata entre o Papa Leão XII e o rei português Dom Luís I, estipulando que "Todos os católicos de Malaca e Singapura, que estão sob a jurisdição de Goa, passariam para a jurisdição de Macau".




Curiosamente, a primeira igreja estabelecida em Singapura foi uma colaboração entre as missões portuguesa e francesa. Tratava-se de uma capela inaugurada em 1833 na Bras Basah Road, num terreno que viria a ser o local da escola masculina St. Joseph's Institution que os frades franceses De La Salle fundaram mais tarde, em 1852.

A Missão Portuguesa, sob a direção do Padre Vicente de Santa Catarina, obteve apoio britânico para construir uma igreja a algumas centenas de metros de distância, tendo a Igreja de S. José sido inaugurada em 1853. A pedra fundamental, lançada em dezembro de 1851, faz referência ao "25º ano do reinado de Dona Maria II - Rainha de Portugal" e ao "14º ano do reinado de Sua Majestade Britânica, a Rainha Vitória".

Com o crescimento da população de Singapura, a Igreja de S. José tornou-se demasiado pequena para a congregação e foi demolida em 1906, tendo sido construída no mesmo local uma igreja maior, em estilo manuelino (gótico tardio português), que foi consagrada em 30 de junho de 1912 pelo Bispo de Macau, D. João Paulino d'Azevedo e Castro.

Com a independência de Singapura em 1965 e a separação, em 1972, da Arquidiocese de Singapura da antiga Arquidiocese de Malaca – Singapura, terminou a dupla jurisdição com a assinatura dum acordo, em 1981, entre o Arcebispo de Singapura Gregory Yong e o Bispo de Macau Arquimínio Rodrigues da Costa para a transferência da Paróquia de São José para a Arquidiocese de Singapura. Para manter o carácter português da Igreja, a Diocese de Macau continuou a enviar sacerdotes para a Igreja de S. José até 31 de dezembro de 1999. Nessa altura, o Padre Benito de Sousa reformou-se e, simbolicamente, terminou a Missão Portuguesa em Singapura.

Capela dedicada a Nossa Senhora de Fátima


Mas a nossa herança em Singapura não se resume à igreja de São José. Há muitas palavras malaias de origem portuguesa e, eventualmente, um doce, a serikaya ou somente kaya.

Comecemos pelo doce. Há várias teorias sobre a origem deste doce malaio, feito à base de ovos e leite de coco. Há quem diga que tem origem no bolo alentejano sericaia. Será?

Alguns investigadores afirmam que este doce euro-asiático, que só existe em Singapura e na Malásia, foi originalmente adaptado de um doce de ovos português. Nesta adaptação, o leite de coco e as folhas de pandan foram utilizados em vez do leite e das vagens de baunilha, respetivamente. Outra fonte especula que a kaya se baseia na sobremesa portuguesa, a sericaia, que é feita de ovos, açúcar, leite e canela e tem um sabor semelhante. Só que… a sericaia é um bolo que vai a cozer ao forno e a serikayai é um doce de colher, ou melhor doce de barrar pão.

Outras fontes atribuem aos primeiros imigrantes de Hainan o desenvolvimento da kaya. Quando estes chegaram a Singapura no século XIX, muitos deles trabalharam como cozinheiros a bordo de navios britânicos, em casas de britânicos ou em hotéis geridos por europeus. Com o tempo, muitos destes imigrantes hainaneses começaram a estabelecer os seus próprios negócios, vendendo comida em cafés. Com base na sua experiência de trabalho para os europeus, adaptaram as suas compotas tradicionais de fruta ao sabor ocidental, criando a kaya para barrar as torradas.

Há também fontes que atribui às nonya (mulheres chinesas do Estreito ou de Peranakan) a transmissão o fabrico da kaya aos cozinheiros de Hainan que trabalhavam para famílias chinesas ricas do Estreito.

Mas também pode ser que tudo se tenha passado ao contrário, que tivesse sido o doce kaya a dar origem à nossa sericaia. Segundo se pode ler no portal da Direção Geral de Agricultura e Desenvolvimento, a receita da sericaia terá chegado a Portugal pela mão de D. Constantino de Bragança, vice-rei da Índia entre 1558 e 1561. Este doce era tradicionalmente levado ao forno em pratos de estanho, que ainda se encontram nas velhas casas senhoriais. Também o Khir Johari, político e antiga Ministro da Educação malaio, argumenta que a sericaia portuguesa ter-se-á inspirado na serikaya malaia, uma vez que a serikaya já era provavelmente um alimento básico nas casas reais malaias quando os portugueses contactaram pela primeira vez com o mundo malaio no século XVI.



 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Cozinha portuguesa autêntica em Singapura

 





Quando viajo, gosto de experimentar novos sabores, novas texturas, novos modos de preparar partos e, por isso, normalmente nunca aconselho ir-se comer comida portuguesa quando se está temporariamente fora de Portugal. No enanto, há sempre exceções. E neste caso, não posso deixar de falar sobre o Lusitano, o restaurante português do chef Tiago Martins.

Tínhamos passado uns dias em Malaca, e no regresso a Singapura, talvez ainda imbuídos pelo espírito português dessa cidade malaia (que, verdade seja dita é mínimo…) fomos jantar ao Lusitano e conversar com o seu dono. Tiago Martins, natural do berço de Portugal, recebeu-nos com a hospitalidade bem típica portuguesa. De braços abertos, uma “mesa farta e boa pinga”. Que poderíamos querer melhor após uma viagem algo atribulada?


O ambiente acolhedor do restaurante fez-nos logo sentir bem-vindos. Alojado num ponta dum centro comercial, mas com porta para a rua, as paredes estão tapadas por milhares de garrafas de vinho, português, obviamente, o que nos faz logo esquecer que estamos num centro comercial. Olhamos à volta e vemos uma enorme variedade de vinho vindos de quintas do Norte a Sul do país.

Em 2019, após três décadas a trabalhar em diversos restaurantes no Norte do país, Tiago Martins decidiu fazer um corte geográfico e mudou-se de armas e bagagens para Singapura. Nesta metrópole asiática, começou por trabalhar no restaurante português Tuga, mas no final de 2022 sentiu que precisava de abrir as asas e voar para um local próprio. Com um sócio local, abriu o Lusitano onde serve a verdadeira cozinha portuguesa, sem cedências nem tentações de cozinha de fusão. 

Um dos aspetos do interior da sala


Os produtos essenciais são importados de Portugal ou de Espanha. Tiago Martins conta-nos como servir a verdadeira cozinha portuguesa é um desafio. Um exemplo, a batata. Aqui em Portugal pensaríamos que com esse ingrediente não haveria problemas. É porque não conhecemos a realidade asiática. As batatas na Ásia são duma espécie diferente das que encontramos em Portugal. Arranjar a batata ideal foi difícil, mas Tiago Martins conseguiu-o. O mesmo se passa com o arroz. Sabemos que o arroz é a comida básica na Ásia. Qual o problema então? Nós cozinhamos com arroz carolino, uma espécie que não existe nessa parte do mundo. E como Tiago não segue o caminho mais fácil, mas o correto, não utiliza basmati ou outro arroz asiático para fazer os pratos portugueses.


Ameijoas à Bulhão Pato


Nem poderia ser doutra maneira. Tiago Martins anda nestas lides desde os 13 anos. Aprendeu o básico da cozinha, ajudando a avó a cozinhar para a família. Começar a trabalhar no ramo, como empregado de mesa, passando rapidamente para a cozinha, donde nunca mais quis sair. Grandes cozinhas, preparando eventos para mil pessoas, ou cozinhas de pequenos restaurantes.


Polvo á lagareiro


E com que nos deliciámos quando aqui jantámos? As ameijoas à Bulhão Pato com o indispensável coentro estavam de comer e chorar por mais. As gambas com alho estavam gulosas. O polvo tenríssimo. O arroz de feijão bem malandrinho. Os secretos no ponto certo. O bacalhau à brás de repetir.



Gambas ao alho




Arroz de feijão malandrinho

Os vinhos são todos portugueses. Para aconselhar os clientes, Tiago Martins conta a preciosa ajuda duma escanção filipina, há muito radicada em Singapura que reconhece as castas no primeiro gole de vinho que bebe e conhece tão bem os nossos vinhos que façamos espantados ao saber que nunca esteve em Portugal.


No Lusiatno só se servem vinhos portugueses


No Lusitano temos assim a certeza de que encontramos uma cozinha portuguesa honesta, verdadeira, muito saborosa e servida com requinte