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terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Singapura também tem herança portuguesa

 

Igreja portuguesa de São José


Quando pensamos em Singapura, relacionamos sempre com a Grã-Bretanha. E temos razão. Singapura foi fundada como um posto comercial da Companhia Britânica das Índias Orientais por Sir Stamford Raffles em 1819 com a permissão do Sultanato de Johor. O Império Britânico obteve soberania completa da ilha em 1824. 

E, no entanto, os Portugueses estiveram lá antes. Quando os portugueses tomaram o controlo de Malaca em 1511, o Sultão de Malaca fugiu para sul e fundou o Sultanato de Johor, que incluía a ilha do que é hoje Singapura. Há registos de uma batalha naval entre navios portugueses e holandeses ao largo da costa de Singapura, em outubro de 1603, que os portugueses perderam. Em 1613, os portugueses destruíram a colónia malaia da ilha e o local ficou praticamente esquecido até à chegada de Sir Stamford Raffles em 1819.

Os Portugueses mantiveram, porém, um “pezinho” na ilha, através da religião. Em 1821, já existia uma pequena comunidade católica que incluía malaios de ascendência portuguesa. A sua ação era exercida por sacerdotes da Diocese de Malaca, criada em 1558, que sobreviveu à tomada de Malaca pelos holandeses protestantes aos portugueses em 1641. Por sua vez, a Diocese de Malaca era apoiada pela Arquidiocese de Goa e pela Diocese de Macau, áreas que os portugueses continuavam a controlar.

Em 1825, o P. Francisco da Silva Pinto e Maia, natural do Porto, mas em missão em Macau, aonde tinha chegado 12 anos antes, foi para Singapura e aí fundou a Missão Portuguesa. No enanto, a ação católica francesa também estava ativa no Sudeste Asiático, nomeadamente no Sião (atual Tailândia), Vietname, Laos e Camboja. Em 1831, o Vigário Apostólico do Sião, francês, reivindicou a jurisdição espiritual sobre Singapura, o que deu origem a uma disputa entre os ramos português e francês da Igreja Católica que se prolongou por vários papas. Finalmente, em 1886, a dupla jurisdição sobre Singapura foi clarificada por uma Concordata entre o Papa Leão XII e o rei português Dom Luís I, estipulando que "Todos os católicos de Malaca e Singapura, que estão sob a jurisdição de Goa, passariam para a jurisdição de Macau".




Curiosamente, a primeira igreja estabelecida em Singapura foi uma colaboração entre as missões portuguesa e francesa. Tratava-se de uma capela inaugurada em 1833 na Bras Basah Road, num terreno que viria a ser o local da escola masculina St. Joseph's Institution que os frades franceses De La Salle fundaram mais tarde, em 1852.

A Missão Portuguesa, sob a direção do Padre Vicente de Santa Catarina, obteve apoio britânico para construir uma igreja a algumas centenas de metros de distância, tendo a Igreja de S. José sido inaugurada em 1853. A pedra fundamental, lançada em dezembro de 1851, faz referência ao "25º ano do reinado de Dona Maria II - Rainha de Portugal" e ao "14º ano do reinado de Sua Majestade Britânica, a Rainha Vitória".

Com o crescimento da população de Singapura, a Igreja de S. José tornou-se demasiado pequena para a congregação e foi demolida em 1906, tendo sido construída no mesmo local uma igreja maior, em estilo manuelino (gótico tardio português), que foi consagrada em 30 de junho de 1912 pelo Bispo de Macau, D. João Paulino d'Azevedo e Castro.

Com a independência de Singapura em 1965 e a separação, em 1972, da Arquidiocese de Singapura da antiga Arquidiocese de Malaca – Singapura, terminou a dupla jurisdição com a assinatura dum acordo, em 1981, entre o Arcebispo de Singapura Gregory Yong e o Bispo de Macau Arquimínio Rodrigues da Costa para a transferência da Paróquia de São José para a Arquidiocese de Singapura. Para manter o carácter português da Igreja, a Diocese de Macau continuou a enviar sacerdotes para a Igreja de S. José até 31 de dezembro de 1999. Nessa altura, o Padre Benito de Sousa reformou-se e, simbolicamente, terminou a Missão Portuguesa em Singapura.

Capela dedicada a Nossa Senhora de Fátima


Mas a nossa herança em Singapura não se resume à igreja de São José. Há muitas palavras malaias de origem portuguesa e, eventualmente, um doce, a serikaya ou somente kaya.

Comecemos pelo doce. Há várias teorias sobre a origem deste doce malaio, feito à base de ovos e leite de coco. Há quem diga que tem origem no bolo alentejano sericaia. Será?

Alguns investigadores afirmam que este doce euro-asiático, que só existe em Singapura e na Malásia, foi originalmente adaptado de um doce de ovos português. Nesta adaptação, o leite de coco e as folhas de pandan foram utilizados em vez do leite e das vagens de baunilha, respetivamente. Outra fonte especula que a kaya se baseia na sobremesa portuguesa, a sericaia, que é feita de ovos, açúcar, leite e canela e tem um sabor semelhante. Só que… a sericaia é um bolo que vai a cozer ao forno e a serikayai é um doce de colher, ou melhor doce de barrar pão.

Outras fontes atribuem aos primeiros imigrantes de Hainan o desenvolvimento da kaya. Quando estes chegaram a Singapura no século XIX, muitos deles trabalharam como cozinheiros a bordo de navios britânicos, em casas de britânicos ou em hotéis geridos por europeus. Com o tempo, muitos destes imigrantes hainaneses começaram a estabelecer os seus próprios negócios, vendendo comida em cafés. Com base na sua experiência de trabalho para os europeus, adaptaram as suas compotas tradicionais de fruta ao sabor ocidental, criando a kaya para barrar as torradas.

Há também fontes que atribui às nonya (mulheres chinesas do Estreito ou de Peranakan) a transmissão o fabrico da kaya aos cozinheiros de Hainan que trabalhavam para famílias chinesas ricas do Estreito.

Mas também pode ser que tudo se tenha passado ao contrário, que tivesse sido o doce kaya a dar origem à nossa sericaia. Segundo se pode ler no portal da Direção Geral de Agricultura e Desenvolvimento, a receita da sericaia terá chegado a Portugal pela mão de D. Constantino de Bragança, vice-rei da Índia entre 1558 e 1561. Este doce era tradicionalmente levado ao forno em pratos de estanho, que ainda se encontram nas velhas casas senhoriais. Também o Khir Johari, político e antiga Ministro da Educação malaio, argumenta que a sericaia portuguesa ter-se-á inspirado na serikaya malaia, uma vez que a serikaya já era provavelmente um alimento básico nas casas reais malaias quando os portugueses contactaram pela primeira vez com o mundo malaio no século XVI.



 

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Da Senhora da Rocha a Armação de Pêra pelo cimo da falésia

Quando ouvimos falar da Senhora da Rocha pensamos de imediato em praia e também em culto católico por causa da capelinha que se eleva numa das falésias. No entanto, a Senhora da Rocha já foi local de culto de visigodos e muçulmanos - o que não nos admira pois a beleza envolvente é tão grande que só nos resta rezar e louvar a Deus ou a outra entidade divina. 

Capela de Nossa Senhora da Rocha

 Em tempos foi aqui construída uma fortaleza ladeada de fosso e ponte levadiça, pois esta grande rocha, atualmente já erodida pelo vento e pelo mar, oferecia as melhores condições para defesa das populações. O terramoto de 1755 destruiu os muros da fortaleza mas deixou intacta a capela , construída no século XVI. A capela, com nártex aberto ao exterior por arcada tripla assente em colunas com capitéis visigóticos dos séculos II e IV. No interior existe uma escultura de madeira de Nossa Senhora com o Menino. 


A capela serviu-nos de ponto de partida para um passeio sempre no cume da falésia até ao hotel Vila Lara, um passeio fantástico com paisagens belíssimas, mas que necessita de muita atenção por causa dos buracos e dos precipícios - é claro que gostaríamos de irmos até algumas das praias sem acesso por terra, mas não chegarmos lá todos partidos!

Praia Nova

 

Estando virados para o mar, temos à nossa direita a Praia Nova e à esquerda a Praia da Rocha. Começamos o passeio indo para a esquerda, em direção ao hotel Pestana Viking donde vimos - e até podemos descer - para a Praia da Ponta da Adega Este.

Conchas presas na grade da janela da capela
 

Seguindo sempre pelo cimo da falésia chegamos à Praia da Cova Redonda, para onde desce um pequeno trilho que nos permite mergulhar nas suas belas águas e assim refrescar um pouco.


Uma das praias sem acesso por terra
 

Não somos porém os únicos seres a naquele caminho. As gaivotas usam a falésia para nidificar e ao longo do passeio vemos diversos ninhos de gaivotas com pássaros bebés e mães gaivotas muito preocupadas com estas visitas inesperadas.

 

Da Praia da Cova Redonda subimos para o empreendimento do Hotel Vila Lara. Daí seguimos até Armação de Pêra, passando por praias maravilhosas, algumas com acesso por terra, outras sem, mas todas elas com maravilhosas formações rochosas quer na água quer na areia.



Ao fundo já se vê Armação de Pêra


 


quarta-feira, 29 de julho de 2020

Howard's Folly, a 1ª adega urbana do Alentejo

Sonhos! Sonhos que se concretizam. Em conjunto. 
Esta poderia ser o resumo dos sonhos de Howard Bilton e David Baverstock e da criação da Howard's Folly. Mas neste projecto há muito mais que sonhos. Há vinho, arte e solidariedade.

Quem é Howard Bilton?
Howard Bilton, um advogado inglês, atualmente empresário e filantropo, nasceu a 3 de Agosto de 1962 perto de Hull no condado de Yorkshire, em Inglaterra. Após a escola primária ganhou uma bolsa de estudo para frequentar a Escola St Peter's em York, a escola mais antiga do Reino Unido, que foi fundada em 627. Howard Bilton seguiu para a Universidade de Keele onde se licenciou em Latim e Direito em 1984. No ano seguinte, foi admitido na Ordem dos Advogados de Inglaterra e País de Gales.
Após ter trabalhado durante dois anos como Consultor Jurídico da International Company Services Ltd (ICS) na Ilha de Man mudou-se para Gibraltar para abrir e gerir um novo escritório para o ICS. Abriu ainda mais dois escritórios para a ICS, um em Hong Kong em 1989 e outro em Portugal em 1990, ano em que foi nomeado Presidente do grupo de empresas ICS.
Em 1998, fundou em Hong Kong a The Sovereign Group, uma empresa especializada em serviços empresariais, fiduciários e de pensões, gerindo mais de 10 mil milhões de dólares. 
Com os conhecimentos práticos adquiridos ao longo duma vida, foi convidado para dar aulas na Texas A&M University School of Law em Fort Worth (EUA), e para escrever regularmente assuntos fiscais e jurídicos para jornais e revistas especializadas.
Arte contemporânea é uma das suas paixões, tendo fundado, em 2003, a Fundação Sovereign Art, que organiza anualmente  o Prémio Prémio Anual de Arte Asiática Soberana e financia programas de terapia artística para crianças carenciadas na Ásia.
A sua outra paixão são os vinhos e, felizmente, o Alentejo. Em 2002, juntou-se ao enólogo australiano David Baverstock e fundaram a empresa Howard's Folly Wines para criar vinhos portugueses que reflectissem o melhor que o país tem para oferecer.
Na HF, Howard Bilton junta as suas duas paixões: vinhos e arte. Os rótulos dos vinhos Howard's Folly mudam anulamente e apresentam obras de arte encomendadas a artistas líderes ou seleccionadas a partir das obras de arte submetidas ao Prémio Anual de Arte Asiática Soberana.



Quem é David Baverstock?

David Baverstock, um australiano nascido perto de Adelaide (Austrália) mas já português de coração (e de nacionalidade desde 2006) é uma das estrelas entre os enólogos que trabalham em Portugal, sendo responsável por uma pequena revolução da indústria vitivinícola portuguesa ao introduzir novas técnicas.
Após terminar o curso de Enologia na Roseworthy Agricultural College em 1978, viajou para a Europa para as vindimas na Alemanha e França. Depois veio fazer férias em Portugal onde se apaixonou pelo país e pela sua futura mulher.
Voltou à Austrália onde trabalhou no Vale de Barossa como enólogo da empresa Saltram durante dois anos.  Em 1982, mudou-se para Portugal, tendo começado a trabalhar nas Caves Aliança. Seguiram-se as C Vinhas, Croft, Grupo Symington e finalmente o Esporão em 1992, no Alentejo. Paralemente tem sido enólogo consultor para novos projectos, como o da Quinta de La Rosa em 1990, o da Quinta do Crasto em 1994, o do Fojo em 1996, o da Adega de Cantor em 1998, o de Azamor em 2004 e agora o de Howard's Folly.
David Baverstock tem defendido as castas portuguesas como fator de diferenciação e, no seu trabalho, tenta maximizar o seu potencial. 
São muitos os prémios que já recebeu como o Troféu Vinho Tinto Português no International Wine Challenge 1999 e 2002. Foi eleito enólogo do ano pelas publicações Revista de Vinhos (1999) e Wine (2013 e 2015), assim como Winemaker of the year (Portugal) 1999, tendo sido o primeiro enólogo não português a receber tal distinção. Em 2015, recebeu o título de Comendador da Ordem do Mérito Empresarial pelo Presidente de Portugal. 

Os vinhos da Howard's Folly

Howard sonhava com vinhos próprios e David podia concretizar esse sonho. Os dois juntaram-se.

Compraram vinhas na Serra de São Mamede em Portalegre, uma zona fresca a 600 m de altitude com muitas vinhas antigas. E juntaram-se a um produtor local no Minho, em Melgaço e Monção, para fazerem vinho Alvarinho.

Durante alguns anos, alugaram espaços em diversas adegas até que em 2018 decidiram comprar a antiga estação militar de comboio de Estremoz. Investiram no restauro desse edifício histórico que transformaram num restaurante e numa adega – a 1ª adega urbana do Alentejo.


Estes vinhos de Howard e de David só podiam chamar-se… Sonhador. Por exemplo, o Sonhador 2011 Tinto é feito com 30% de Alicante Bouschet, 30% de Aragonez, 30% de Syrah e 10% de Touriga Nacional – e já ganhou diversos prémios.  O Sonhador 2012 Tinto é feito com 40% de Alicante Bouschet, 50% de Syrah e 10% de Touriga Nacional – e também já ganhou diversos prémios. O Sonhador Alvarinho 2013 e o Sonhador “Nem por Sombras” Alvarinho 2016 são monoteístas (100% Alvarinho). Mas também os mais novos, como o Sonhador Rosé, 65% Aragonês, 35% Castelão, e engarrafado em abril de 2020. Ou o Sonhador 2016 Tinto, engarrafado em agosto de 2017.





A Senhora da Penha em Portalegre

Ao aproximarmo-nos de Portalegre, a "cidade / Do Alto Alentejo, cercada / De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros", como a descreveu José Régio, vemos ao longe, num alto da serra de São Paulo, uma enorme cruz branca, que fica iluminada quando a noite cai. 
Uma serra indica-nos o caminho para a capela de Nossa Senhora da Penha, local de peregrinação e penitência para os crentes. Para lá chegar a pé, há que subir uma longa escadaria trabalhada em mármore policromo, íngreme, que segue pela colina.  Do adro da capela, localizada na serra em frente da cidade a 645 m de altitude, tem-se uma fantástica vista. Sentimo-nos num teatro. A cidade aparece-nos ali enquadrada num cenário fortemente barroco.


Há alguns séculos, um eremita refugiou-se no meio da serra. A população ficou tão impressionada com a sua fé que mandou construir um templo de pequenas dimensões, de linhas simples.

Em 1620, o então corregedor de Portalegre, João Zuzarte da Fonseca, mandou construir a atual ermida, com nave de planta rectangular, e capela-mor circular - um edifício exemplar da tipologia comum às igrejas barrocas de matriz popular. Na fachada, que termina em frontão triangular com coruchéus laterais, sobressaem quatro grossas pilastras salientes,  pintadas de azul vivo. Sobre o portal principal vê-se uma cruz. 


No interior, destaca-se, na capela-mor, o revestimento azulejar de tipo tapete policromo, bem como a pintura da cúpula representando a Coroação da Virgem com coros angélicos, possivelmente psteriores à construção, já do final século XVIII. 


Em 1675, a capela passou a ser da responsabilidade dos Frades Agostinhos Descalços.

Há uma lenda ligada à construção desta capela. Há muitos anos vivia numa pobre cabana uma velhinha que todos os dias subia a serra, devagarinho. Quando lá chegava sentava-se num pedra a rezar o terço e a admirar a beleza envolvente. Quando sol se punha, a velinha, descia à população e regressava à sua pobre cabana. Um dia, enquanto rezava, foi assaltada por uns meliantes. Um deles, levantou um machado para a matar. Quando a velhinha caiu morta, os meliantes queriam endireitar-se para seguir mas não conseguiram. Ficaram presos ao chão, curvados, como estátuas. Só a garganta não tinha ficado paralisada. Os homens gritavam, gritavam mas ninguém os acudia. Quem passava, pensava que estavam a brincar ou nalguma zaragata na qual não se queriam envolver. Só quando um homem voltou ali a passar dois dias depois e os viu na mesma posição, aproximou-me e tentou ajudá-los, sem nada conseguir. só quando viu o corpo da velhinha morta à machada é que se apercebeu o que se tinha passado. Correu à vila, chamou o oficial de justiça que rapidamente subiu à montanha, acompanhado por muitos populares. Assim que os meliantes confessaram o seu crime, os seus músculos ficaram soltos. O oficial de justiça levou-os para a prisão, sendo julgados e condenados por tão bárbaro crime. 

Da capela parte um caminho para o cimo da serra, num passeio muito aprazível mas algo custoso (é sempre a subir!) até à grande cruz de  8 metros que se ergue no cimo da serra. Daqui vemos km e km à nossa volta, uma maravilhosa paisagem de 360º que nos faz esquecer a dificuldade do trajeto. O regresso é fácil - para baixo todos os santos ajudam. 



segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Romaria da Senhora da Agonia: A rainha das festas portuguesas

Ao longe já se ouvia o ribombar dos bombos. Quando chegámos à Praça da República em Viana do Castelo o barulho era ensurdecedor. Centenas de pessoas acotovelavam-se à volta do secular chafariz para ver os gigantones, os cabeçudos e os Zés Pereiras, não se incomodando com o barulho. Festa é festa e não há festa como a Romaria da Senhora da Agonia.
Em Portugal, o culto à Virgem Maria com o título de Senhora da Agonia, padroeira dos pescadores locais, surgiu em 1674 quando a imagem da Senhora da Agonia entrou na Capela do Bom Jesus do Santo Sepulcro do Calvário em Viana do Castelo.
Em 1772 começou a romaria anual, nascida da devoção dos homens do mar vindos da Galiza e de todo o litoral português, e que incluía celebrações religiosas e pagãs. Mais tarde, em 1783, a Sagrada Congregação dos Ritos (conhecida agora como Capela de Nossa Senhora da Agonia) permitiu que fosse celebrada nesta capela uma Missa Solene, todos os anos no dia 20 de agosto.
Em 1906, começou a ser incluída nesta romaria a Festa do Traje que se transforma, em 1908, numa Parada Agrícola que deu lugar ao atual Cortejo Histórico-Etnográfico. A partir de então a romaria deixou de estar limitada ao Campo da Agonia e invadiu toda a cidade de Viana do Castelo.

Atualmente as Festas da Senhora da Agonia têm uma duração de uma semana. Todos os dias, ao meio-dia, doze morteiros misturam-se com ribombar característico dos bombos, dando início à Revista de "Gigantones e Cabeçudos", onde se juntam mais de 200 tocadores de bombos e duas dezenas de figuras.




Os pontos altos que levam os espectadores ao delírio são os vários despiques entre tocadores de bombos e gaiteiros. No momento de despique entre todos os grupos de bombos, o som ouve-se em praticamente toda a cidade, chegando por exemplo até Darque. É gigantesco o esforço despendido durante o despique, chegando um tocador de bombo a perder entre 800 a 1.000 calorias! 








Um bombo grande pode pesar cerca de 12 quilogramas e um gigantone três vezes mais. Por isso, durante os vários desfiles, os gigantones têm de parar a sua vertiginosa dança à roda e ser pousados para os homens que os carregam poderem repousar – e acima de tudo, apanhar ar e beber água.


Na véspera do principal cortejo, o Desfile Histórico-Etnográfico, ao final da tarde, tem lugar o Desfile da Mordomia, durante o qual mais de 400 mulheres desfilam pelas ruas de Viana do Castelo, envergando os trajes típicos da cada freguesia. Atualmente, o Desfile da Mordomia simboliza um “cumprimento” da organização da Romaria d’Agonia às entidades oficiais.
As mordomas desfilam orgulhosamente pelas principais artérias da cidade, sempre acompanhadas pelos bombos, pelos gigantones e pelos cabeçudos e enchendo-se da típica “chieira” para mostrarem diferentes trajes e peças de ouro seculares – algumas mordomas chegam a carregar dezenas de quilos de ouro, reunindo as peças de família e amigos num único peito - estimou-se em cerca de 14 milhões de euros o valor das centenas de quilos de peças de ouro usadas pelas mordomas neste desfile.

É uma tradição que passa de mães para filhas. Há mordomas que desfilam continuamente neste quadro da Romaria d’Agonia há mais de 50 anos
No sábado das Festas realiza-se o famosíssimo desfile histórico-etnográfico, admirado por milhares de pessoas vindas de todo o mundo, no qual, num percurso de 2.300 metros ao longo das ruas da cidade, as freguesias do concelho mostram o seu melhor à cidade e aos forasteiros.
Com mais de 3 000 participantes, o cortejo é um verdadeiro museu vivo. Através de uma centena de quadros e dezenas de carros alegóricos, atualmente puxados por tratores mas antigamente por juntas de bois, mostram a História de Viana do Castelo e os seus usos e costumes.
Durante o desfile, os participantes atiram para o ar grãos e espigas de milho, distribuem, em andamento, pedaços de broa, rodelas de chouriça, azeitonas ou mesmo copinhos de vinho verde tinto.
Este ano, tiveram especial destaque as comemorações do 60º aniversário do Santuário de Santa Luzia, cuja construção foi começada em 1904 e só terminada em 1959. O responsável pelo projeto foi o arquiteto Manuel Terra Ventura. O longo período de construção deveu-se ao facto de a 5 de outubro de 1910 ter sido implantada a República. A consequente Lei da Separação do Estado da Igreja foi outro obstáculo que surgiu. Finalmente as obras foram retomadas em 1926, sob a direcção de Miguel Nogueira. 
A sua instituição deve-se ao Capitão de Cavalaria Luís de Andrade e Sousa que, tendo um grave problema de visão, pede auxílio a Santa Luzia, advogada da vista e cujo atributo são os seus olhos dispostos numa bandeja. Tendo ficado curado, agradece a graça recebida com a construção de um santuário no local da antiga pequena ermida medieval dedicada.
Do cimo do monte tem-se uma espetacular vista soberba de 360º sobre a região.
Em 1923 foi inaugurado o Elevador de Santa Luzia, conhecido como Funicular de Santa Luzia, que liga a cidade ao santuário.










domingo, 1 de abril de 2018

El Marco e o fim do contrabando


À esquerda, Portugal. à direita, Espanha.
No meio a ponte internacional mais pequena do mundo
Agustina aproximou -se do nosso carro. Abrimos a janela e ela começou a falar. “Antigamente El Marco tinha muito movimento. Os meus pais tinham um comércio ali mesmo atrás. Agora já ninguém aqui vem.” Realmente a aldeia parecia morta.
Só a mini ponte internacional, de madeira, construída em 2008 com fundos europeus sobre a ribeira de Abrilongo, e que faz a ligação entre Portugal e Espanha estava com um ar atual, lembrando as pontes decorativas dos parques ecológicos. Agustina continua as explicações: “Sempre se passou a ribeira. Fazia-se muito contrabando. Em Portugal ou não havia as coisas ou eram muito caras. E as pessoas passavam a ribeira a pé. Quando tinha muita água punha-se uma escada e passava-se”.
A ponte internacional mais pequena do mundo

Há pouco tempo construiu-se a ponte. A ponte internacional mais pequena do mundo. 1,90 m sobre a ribeira de Abrilongo ligam El Marco a Várzea Grande, também conhecida por Marco. Duas aldeias raianas,esquecidas.Com um nome que vem do facto de terem sido instalados marcos fronteiriços depois do Tratado de Lisboa de 1864 (https://pt.wikipedia.org/wiki/Tratado_de_Lisboa_(1864)), assinado a 29 de setembro desse ano e que estabeleceu definitivamente as fronteiras entre Portugal e Espanha.
Torragem do café para consumo
em Espanha: com açúcar
Do lado português José Maria tem uma loja, Casa Palmeira, que vende tudo: café, castanhas piladas, farinha 33, galochas, ferramentas, veneno para ratos, enfim tudo.
E explica a diferença entre o café português e o espanhol. Ou melhor, todo o café é português mas a torrefação é diferente. “Os espanhóis gostam muito de café com leite. Então a torrefação do café já é feita com açúcar e alfarroba. Os grãos são pretos e brilhantes”.

Também em Várzea Grande não passa ninguém. José Maria tem muitos dias em que não abre a caixa registadora.
As vidas entre as duas aldeias estão entrelaçadas. Artur, filho de pai português e mãe espanhola, nasceu na Várzea Grande há mais de 70 anos. Fez a escola primária em Esperança, uma aldeia a uns 4 km. Quando chegou à idade de ir para a tropa, mudou-se para El Marco para fugir à guerra colonial. Tornou-se espanhol e fez o serviço militar em Espanha. Casou com Agustina, filha de pai espanhol e mãe portuguesa, natural de El Marco. Montaram um negócio que muito rendeu quando os portugueses iam a Espanha fazer compras. Agora a grande loja é um café praticamente sem clientes. As prateleiras estão vazias. Na televisão mostra o jogo entre o Guimarães e a Académica . Assim se passam os dias em duas aldeias no fim de Portugal e de Espanha.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Fábrica da Pólvora de Barcarena - do fabrico da pólvora a um local idílico

De 1791 a 1869, esta fábrica foi uma dependência do Arsenal do Exercito. Depois a fábrica foi extinta, mas em 1895 voltou a ficar sob sua alçada com o nome de Fábrica de Pólvoras Físicas e Artifícios. Servia para o fabrico das pólvoras negras, à manufatura dos artifícios pirotécnicos, ao carregamento dos cartuchos e, a partir dos anos de 1940, ao fabrico de pólvora química.









Entre 1927 e 1947, a Fábrica de Pólvoras Físicas e Artifícios desenvolveu-me muito adquirindo nova maquinaria e modernizando o seu laboratório. Paralelamente, estreitou a cooperação com as escolas práticas do Exército, produzindo diversos tipos de pólvoras de caça e militares, rastilhos e artifícios e engenhos aplicados à nova maquinaria de guerra.

No final da 2ª Grande Guerra, a fábrica passou  a denominar-se Fábrica Militar de Pólvora e Explosivos. Em 1951, registou o número mais elevado de trabalhadores e passou a a Companhia de Pólvoras e Munições de Barcarena, após ter sido arrendada, por um período de 25 anos, a uma sociedade mista. 
Em 1972, uma violenta explosão no edifício das oficinas a vapor obrigou a terminar o fabrico de pólvora negra na fábrica. A fábrica reabriu em 1976, já com grandes dificuldades económicas, para produzir pólvora de caça. É encerrada definitivamente em 1988.



Em 1995 a Câmara Municipal de Oeiras adquiriu as ruínas existentes e as instalações ainda em pé, transformando-a num complexo aberto à população, tendo aí instalado alguns serviços da CMO, vocacionados para atividades culturais, lazer e divertimento.





Ribeira de Barcarena

#Barcarena #fábrica #Pólvora #Queluz #Portugal