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quarta-feira, 9 de julho de 2025

Elvas: A Sentinela Muralhada do Alentejo

 

Elvas vista do Forte da Graça

Aninhada no coração do Alto Alentejo, a cidade de Elvas ergue-se majestosamente como um testemunho vivo da história militar e da arquitetura fortificada. Classificada como Património Mundial da UNESCO desde 2012, a sua singularidade reside no seu impressionante complexo de fortificações abaluartadas, o maior do mundo, que lhe valeu o epíteto de "Rainha da Raia".



Forte da Graça

Ao percorrer as ruas de Elvas, somos imediatamente transportados para um passado glorioso, onde cada pedra parece contar uma história de batalhas, defesas e resistências. As imponentes muralhas medievais abraçam o centro histórico, revelando um labirinto de ruas estreitas e casas caiadas de branco, onde o tempo parece abrandar. No interior, a riqueza arquitetónica é palpável, com destaque para a antiga Sé de Elvas, originalmente uma mesquita e posteriormente adaptada a igreja, que exibe uma mistura fascinante de estilos.

Entrada do Forte da Graça


No entanto, são as fortificações externas que verdadeiramente definem a identidade de Elvas. O colossal Forte de Santa Luzia e o imponente Forte da Graça, ambos exemplos notáveis de arquitetura militar do século XVII e XVIII, são de visita obrigatória. Estas fortalezas, estrategicamente posicionadas, oferecem vistas panorâmicas deslumbrantes sobre a paisagem circundante, um mar de planícies douradas pontuadas por olivais e sobreiros.

O aqueduto da Amoreira visto do carro @Flobela Barão da Silva

Outro ícone inconfundível de Elvas é o Aqueduto da Amoreira. Esta magnífica obra de engenharia, construída entre os séculos XVI e XVII, estende-se por mais de 7 quilómetros, com os seus arcos monumentais a dominar a paisagem. Além de ser uma proeza arquitetónica, o aqueduto foi vital para o abastecimento de água da cidade, especialmente em tempos de cerco, evidenciando a engenhosidade das suas defesas.

  

Mas Elvas não é apenas história e pedra. A cidade vibra com a cultura alentejana, visível na sua rica gastronomia – onde o porco preto, o queijo e os doces conventuais são reis –, no artesanato local e na hospitalidade calorosa dos seus habitantes. Os eventos e festividades ao longo do ano trazem vida às praças e ruas, convidando os visitantes a mergulhar nas tradições locais.

Visitar Elvas é embarcar numa viagem no tempo, onde a grandiosidade militar se funde com a autenticidade de uma cidade alentejana. É uma experiência que cativa pela sua história, impressiona pela sua arquitetura e encanta pela sua alma.

segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Um fim de semana com História em Alcáçovas

Monte do Sobral

 No meio da planície alentejana, perto de Évora e de Viana do Alentejo, Alcáçovas é um lugar cheio de História onde vale a pena passar um fim de semana.

Comecemos pela história mais recente. A 9 de setembro de 1973, 130 capitães reuniram-se no Monte do Sobral sem levantar suspeitas nem à PIDE nem à PSP. O Monte do Sobral,  um típico monte alentejano, estava muito isolado. O caseiro, um homem adverso ao regime, aceitou o repto dum primo para se reunir aí com os seus camaradas de armas que não concordavam com dois decretos assinados pelo então ministro do Exército e publicados em julho e em agosto de 1973, através dos quais o regime pretendia fazer face à falta de candidatos à Academia Militar, promovendo rapidamente os oficiais milicianos ao quadro permanente das Forças Armadas. Desta reunião nasceu um movimento que meses mais tarde traria a liberdade e a democracia a Portugal.

Mas já desde o século XV que Alcáçovas faz parte ativa da História de Portugal. Foi nesta vila, que na altura era sede de concelho, que, a 4 de setembro de 1479, foi assinado o tratado de paz de Alcáçovas-Toledo entre os representantes dos Reis Católicos, Isabel de Castela e Fernando de Aragão, e o rei D. Afonso V de Portugal e seu filho João II. Com este tratado pretendia-se terminar a Guerra de sucessão de Castela, que já durava havia quatro anos. No entanto, como Castela não cumpriu partes do acordo, foi necessário voltar às negociações, das quais resultou um novo acordo: o Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494 em Tordesilhas.

O Tratado de Alcáçovas foi assinado no Paço dos Henriques, na altura o grande senhor de Alcáçovas.  Foi construído nos finais do século XIII, no local do antigo castelo, por ordem do rei D. Dinis, para servir como residência real.

D. Fernando Henriques (1365-1438), filho bastardo de D. Henrique de Castela, chegou a Portugal no reinado do rei D. João I, que criou o Senhorio das Alcáçovas em 1429. Foram- lhe igualmente doados as jurisdições e os direitos reais do Reguengo ou julgado de Alcalá. O senhorio foi tornado de juro e herdade em 1518 por D. Manuel I. O 14.º Senhor foi elevado a Conde das Alcáçovas, de juro e herdade, por Decreto de 1 de Dezembro de 1834 de D. Maria II

No Paço dos Henriques realizaram- se em 1447 os contratos nupciais da infanta D. Isabel como. João II, rei de Castela, e de D. Beatriz com D. Fernando, 2º duque de Viseu e 1º duque de Beja.

E em 1495 o rei D. João II mandou redigir o seu testamento. O rei deparava-se com um grave problema de sucessão uma vez que o único herdeiro do trono, filho do seu casamento com a Rainha D. Leonor, o Príncipe Afonso, tinha morrido em 1491. O rei tinha ainda um filho bastardo D. Jorge que tentou legitimar e apresentar como sucessor, um plano contrariado pela rainha que defendia os direitos sucessórios para o seu irmão D.  Manuel. Prevaleceu a vontade da rainha D. Leonor e, no seu testamento, D. João II passa a coroa a D. Manuel.

Junto ao paço, foi construído um jardim muito especial, conhecido como Jardim das Conchinhas,  todo decorado com conchas e pedaços de porcelana, vindos de todo o mundo. Muito interessantes são as duas janelas conversadeiras, ainda existentes.

Rosácea






Altar da capela



Janela namoradeira

No horto do Paço dos Henriques existe ainda a capela de nossa Senhora da Conceição. O período exato da sua construção é desconhecido. Todavia terá sido adquirida pela família Henriques por contestação com a câmara em 1622. O edifício existente resultará de campanhas de obras da década de 40 ou 50 do século XVII sendo resultado dos desígnios de D. Jorge Henriques. 6º senhor de Alcáçovas, e de D. Henrique Henriques, 7º senhor de Alcáçovas.

Cavaleiro no Horto dos Henriques
Em 1680 foi fundada nesta igreja uma confraria dedicada a Nossa Senhora da Conceição pelo que a capela passou a ser-lhe votada. Anexo a capela existe um outro espaço fechado que terá sido uma sacristia ou um oratório. Ambos os edifícios apresentam uma profusão de conchas e porcelana.

Para quem quiser, pernoitar num local com História, pode ficar no Monte do Sobral, atualmente um Turismo Rural, O Lodge Monte do Sobral. Tem uma mão cheia de suítes, com um ou dois quartos, alguns deles virados para a piscina. 

Um quarto


Sala


Lareira



Zona da piscina do Monte do Sobral
Em Alcáçovas há inúmeros restaurantes que servem a deliciosa comida alentejana. 
Torresmos


Grelhada mista de porco preto

Se quiser ter um fim de semana mais ativo, pode juntar-se ao grupo Alcáçovas Outdoor que organiza caminhadas na região. 

Caminhada organizada pelo Alcáçovas Outdoor


quarta-feira, 29 de julho de 2020

Howard's Folly, a 1ª adega urbana do Alentejo

Sonhos! Sonhos que se concretizam. Em conjunto. 
Esta poderia ser o resumo dos sonhos de Howard Bilton e David Baverstock e da criação da Howard's Folly. Mas neste projecto há muito mais que sonhos. Há vinho, arte e solidariedade.

Quem é Howard Bilton?
Howard Bilton, um advogado inglês, atualmente empresário e filantropo, nasceu a 3 de Agosto de 1962 perto de Hull no condado de Yorkshire, em Inglaterra. Após a escola primária ganhou uma bolsa de estudo para frequentar a Escola St Peter's em York, a escola mais antiga do Reino Unido, que foi fundada em 627. Howard Bilton seguiu para a Universidade de Keele onde se licenciou em Latim e Direito em 1984. No ano seguinte, foi admitido na Ordem dos Advogados de Inglaterra e País de Gales.
Após ter trabalhado durante dois anos como Consultor Jurídico da International Company Services Ltd (ICS) na Ilha de Man mudou-se para Gibraltar para abrir e gerir um novo escritório para o ICS. Abriu ainda mais dois escritórios para a ICS, um em Hong Kong em 1989 e outro em Portugal em 1990, ano em que foi nomeado Presidente do grupo de empresas ICS.
Em 1998, fundou em Hong Kong a The Sovereign Group, uma empresa especializada em serviços empresariais, fiduciários e de pensões, gerindo mais de 10 mil milhões de dólares. 
Com os conhecimentos práticos adquiridos ao longo duma vida, foi convidado para dar aulas na Texas A&M University School of Law em Fort Worth (EUA), e para escrever regularmente assuntos fiscais e jurídicos para jornais e revistas especializadas.
Arte contemporânea é uma das suas paixões, tendo fundado, em 2003, a Fundação Sovereign Art, que organiza anualmente  o Prémio Prémio Anual de Arte Asiática Soberana e financia programas de terapia artística para crianças carenciadas na Ásia.
A sua outra paixão são os vinhos e, felizmente, o Alentejo. Em 2002, juntou-se ao enólogo australiano David Baverstock e fundaram a empresa Howard's Folly Wines para criar vinhos portugueses que reflectissem o melhor que o país tem para oferecer.
Na HF, Howard Bilton junta as suas duas paixões: vinhos e arte. Os rótulos dos vinhos Howard's Folly mudam anulamente e apresentam obras de arte encomendadas a artistas líderes ou seleccionadas a partir das obras de arte submetidas ao Prémio Anual de Arte Asiática Soberana.



Quem é David Baverstock?

David Baverstock, um australiano nascido perto de Adelaide (Austrália) mas já português de coração (e de nacionalidade desde 2006) é uma das estrelas entre os enólogos que trabalham em Portugal, sendo responsável por uma pequena revolução da indústria vitivinícola portuguesa ao introduzir novas técnicas.
Após terminar o curso de Enologia na Roseworthy Agricultural College em 1978, viajou para a Europa para as vindimas na Alemanha e França. Depois veio fazer férias em Portugal onde se apaixonou pelo país e pela sua futura mulher.
Voltou à Austrália onde trabalhou no Vale de Barossa como enólogo da empresa Saltram durante dois anos.  Em 1982, mudou-se para Portugal, tendo começado a trabalhar nas Caves Aliança. Seguiram-se as C Vinhas, Croft, Grupo Symington e finalmente o Esporão em 1992, no Alentejo. Paralemente tem sido enólogo consultor para novos projectos, como o da Quinta de La Rosa em 1990, o da Quinta do Crasto em 1994, o do Fojo em 1996, o da Adega de Cantor em 1998, o de Azamor em 2004 e agora o de Howard's Folly.
David Baverstock tem defendido as castas portuguesas como fator de diferenciação e, no seu trabalho, tenta maximizar o seu potencial. 
São muitos os prémios que já recebeu como o Troféu Vinho Tinto Português no International Wine Challenge 1999 e 2002. Foi eleito enólogo do ano pelas publicações Revista de Vinhos (1999) e Wine (2013 e 2015), assim como Winemaker of the year (Portugal) 1999, tendo sido o primeiro enólogo não português a receber tal distinção. Em 2015, recebeu o título de Comendador da Ordem do Mérito Empresarial pelo Presidente de Portugal. 

Os vinhos da Howard's Folly

Howard sonhava com vinhos próprios e David podia concretizar esse sonho. Os dois juntaram-se.

Compraram vinhas na Serra de São Mamede em Portalegre, uma zona fresca a 600 m de altitude com muitas vinhas antigas. E juntaram-se a um produtor local no Minho, em Melgaço e Monção, para fazerem vinho Alvarinho.

Durante alguns anos, alugaram espaços em diversas adegas até que em 2018 decidiram comprar a antiga estação militar de comboio de Estremoz. Investiram no restauro desse edifício histórico que transformaram num restaurante e numa adega – a 1ª adega urbana do Alentejo.


Estes vinhos de Howard e de David só podiam chamar-se… Sonhador. Por exemplo, o Sonhador 2011 Tinto é feito com 30% de Alicante Bouschet, 30% de Aragonez, 30% de Syrah e 10% de Touriga Nacional – e já ganhou diversos prémios.  O Sonhador 2012 Tinto é feito com 40% de Alicante Bouschet, 50% de Syrah e 10% de Touriga Nacional – e também já ganhou diversos prémios. O Sonhador Alvarinho 2013 e o Sonhador “Nem por Sombras” Alvarinho 2016 são monoteístas (100% Alvarinho). Mas também os mais novos, como o Sonhador Rosé, 65% Aragonês, 35% Castelão, e engarrafado em abril de 2020. Ou o Sonhador 2016 Tinto, engarrafado em agosto de 2017.





A Senhora da Penha em Portalegre

Ao aproximarmo-nos de Portalegre, a "cidade / Do Alto Alentejo, cercada / De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros", como a descreveu José Régio, vemos ao longe, num alto da serra de São Paulo, uma enorme cruz branca, que fica iluminada quando a noite cai. 
Uma serra indica-nos o caminho para a capela de Nossa Senhora da Penha, local de peregrinação e penitência para os crentes. Para lá chegar a pé, há que subir uma longa escadaria trabalhada em mármore policromo, íngreme, que segue pela colina.  Do adro da capela, localizada na serra em frente da cidade a 645 m de altitude, tem-se uma fantástica vista. Sentimo-nos num teatro. A cidade aparece-nos ali enquadrada num cenário fortemente barroco.


Há alguns séculos, um eremita refugiou-se no meio da serra. A população ficou tão impressionada com a sua fé que mandou construir um templo de pequenas dimensões, de linhas simples.

Em 1620, o então corregedor de Portalegre, João Zuzarte da Fonseca, mandou construir a atual ermida, com nave de planta rectangular, e capela-mor circular - um edifício exemplar da tipologia comum às igrejas barrocas de matriz popular. Na fachada, que termina em frontão triangular com coruchéus laterais, sobressaem quatro grossas pilastras salientes,  pintadas de azul vivo. Sobre o portal principal vê-se uma cruz. 


No interior, destaca-se, na capela-mor, o revestimento azulejar de tipo tapete policromo, bem como a pintura da cúpula representando a Coroação da Virgem com coros angélicos, possivelmente psteriores à construção, já do final século XVIII. 


Em 1675, a capela passou a ser da responsabilidade dos Frades Agostinhos Descalços.

Há uma lenda ligada à construção desta capela. Há muitos anos vivia numa pobre cabana uma velhinha que todos os dias subia a serra, devagarinho. Quando lá chegava sentava-se num pedra a rezar o terço e a admirar a beleza envolvente. Quando sol se punha, a velinha, descia à população e regressava à sua pobre cabana. Um dia, enquanto rezava, foi assaltada por uns meliantes. Um deles, levantou um machado para a matar. Quando a velhinha caiu morta, os meliantes queriam endireitar-se para seguir mas não conseguiram. Ficaram presos ao chão, curvados, como estátuas. Só a garganta não tinha ficado paralisada. Os homens gritavam, gritavam mas ninguém os acudia. Quem passava, pensava que estavam a brincar ou nalguma zaragata na qual não se queriam envolver. Só quando um homem voltou ali a passar dois dias depois e os viu na mesma posição, aproximou-me e tentou ajudá-los, sem nada conseguir. só quando viu o corpo da velhinha morta à machada é que se apercebeu o que se tinha passado. Correu à vila, chamou o oficial de justiça que rapidamente subiu à montanha, acompanhado por muitos populares. Assim que os meliantes confessaram o seu crime, os seus músculos ficaram soltos. O oficial de justiça levou-os para a prisão, sendo julgados e condenados por tão bárbaro crime. 

Da capela parte um caminho para o cimo da serra, num passeio muito aprazível mas algo custoso (é sempre a subir!) até à grande cruz de  8 metros que se ergue no cimo da serra. Daqui vemos km e km à nossa volta, uma maravilhosa paisagem de 360º que nos faz esquecer a dificuldade do trajeto. O regresso é fácil - para baixo todos os santos ajudam. 



terça-feira, 3 de abril de 2018

Adega da Herdade do Freixo - uma adega subterrânea


Ao longe só se viam umas espécies de claraboias em tom de terra alentejana no verão. Onde estava a adega da Herdade do Freixo? Ao aproximarmo-nos pudemos então ver que o edifício estava “escondido” debaixo da terra.

Esse tinha sido o desafio do arquiteto Frederico Valsassinha: construir um edifício que não causasse impacto visual na natureza “Quando a vinha está crescida, a adega fica totalmente escondida”, explicou Lisa Serrachino que nos guiou durante a visita à adega.
No início do século XXI, Pedro Vasconcellos e Souza, enólogo ligado à Casa de Santar, no Dão que pertence à família da mãe, apaixonou-se por uma propriedade no Alentejo, herdada pela família do pai: a Herdade do Freixo, perto de Redondo, com aproximadamente de mil hectares e uma longa história. No século XIX, Pedro de Sousa Coutinho Monteiro Paim, filho dos primeiros marqueses de Santa Iria, herdou estas terras que já tinham pertencido ao seu trisavô, Fernão de Sousa de Castelo-Branco Coutinho e Menezes, 10º Conde de Redondo. A 31 de Agosto de 1839, Pedro Sousa Coutinho Monteiro Paim casou com Eugénia Maria de Assis Castelo Branco e Lancastre, 6.ª condessa de Óbidos e de Sabugal e 7.ª condessa de Palma, reunindo assim as casas de Óbidos, Sabugal e Palma com a Casa de Santa Iria. Essas casas nobiliárquicas são hoje representadas pela família Vasconcellos e Souza.
Nos conturbados anos da Revolução de Abril, a família perdeu a herdade mas conseguiu recuperá-la mais tarde, como aconteceu a muitas outras propriedades no Alentejo.
Por volta de 2011, Pedro Vasconcellos e Souza conseguiu angariar um grupo de investidores, primeiro a Wacola Investments, S.a, e que três anos mais tarde se alterou para Herdade do Freixo Ii, S.a, e juntos lançaram o projeto que tem uma área total de 300 hectares, dos 50 estão reservados para vinha. No entanto, atualmente, como explicou Lisa Serrachino, “só estão a produzir em pleno 36 hectares (12 hectares com castas para vinho branco e 24 hectares com castas para vinho tinto)”.
Mas para fazer vinho é necessário uma adega. O projeto, que em fevereiro passado foi distinguido com um prémio “Edifício do Ano 2018” da ArchDaily, na categoria de Arquitetura Industrial, foi entregue ao arquiteto Frederico Valsasinha que concebeu uma adega totalmente subterrânea, a única na Europa, com elementos que lembram a cultura e a identidade alentejana.
O coração do edifício é uma espiral que liga os três pisos da adega. Da claraboia central, que inunda o edifício com luz natural, ao solo temos 26 metros. Aliás esta espiral serve também para separar turismo da produção. Assim as pessoas podem estar a trabalhar sem serem incomodadas pelos visitantes. Todas as áreas de trabalho estão isoladas: som, cheiro. Só a visão está disponível: durante o horário de trabalho, os visitantes podem ver como é produzido o vinho.
A adega tem uma capacidade de armazenagem para 300 mil litros de vinho. Para os responsáveis pela Herdade do Freixo, mais importante que a quantidade é a qualidade do vinho que produzem. Por isso, houve muito cuidados para a temperatura, a humidade e a pressão dentro da adega sejam sempre constantes. O ar condicionado só é acionado para fazer circular o ar. A vindima é feita por castas. A uva é despejada no cimo da adega e desce naturalmente por gravidade até aos lagares troncocónicos previamente arrefecidos, onde um robot efetua uma pisa suave e demorada.

Segue-se a prensagem: a uva preta é prensada na vertical, enquanto a uva branca é prensada na horizontal. O mosto de branco previamente desengaçado escorre suavemente para uma prensa pneumática com total ausência de oxigénio, inviabilizando qualquer possibilidade de oxidação.

O passo seguinte é o da fermentação nos tanques de inox que dura 20 dias, para depois ir para estágio de barrica no local mais profundo da adega. 80% das barricas são de 100% carvalho francês e as restantes de carvalho americano. Cada barrica só é utilizada duas vezes para dar aos vinhos a frescura da juventude. A localização da cave de estágio em barricas, no local mais profundo da adega, potencia a manutenção de uma temperatura entre os 15º e 18º C e uma humidade média de 85% com reduzida utilização de aclimatização artificial, determinando as condições ideais para a boa evolução do vinho.

Por fim, segue-se o estágio de garrafa.  

Na conceção do edifício foram muitos os desafios que se puseram a Frederico Valsassinha. À volta do edifício existem várias nascentes e lençóis freáticos – que já estão a dar dores de cabeça, pois já são visíveis muitas infiltrações. Por outro lado, durante a construção, foi descoberta uma enorme rocha magmática, a “pedra grande” que serve de humidificador natural na zona do estágio em barrica.
O respeito pela natureza marca a atuação da Herdade do Freixo. O marco geodésico a 454 m altitude vê-se à distância. Segundo a lei, nada se pode construir humanamente acima do marco, algo que poderá ter inspirado a construção subterrânea.
Como se pode ler no portal da empresa, para a instalação da vinha recorreu-se a materiais vegetais de elevada qualidade genética e sanitária e adotaram-se sistemas de condução que permitem um excelente microclima, que origina noites frescas durante o mês anterior á vindima, e permitem uma longa e correta maturação das uvas. Os solos são predominantemente derivados de rochas eruptivas das quais se destacam os quartzo dioritos, argila e algumas rochas derivadas de xisto.
Nesta paisagem idílica vive a cegonha negra, uma ave em vias de extinção que se encontra somente nas regiões mais interiores, inóspitas, isoladas e com fraca perturbação humana.
A imagem corporativa da sociedade Herdade do Freixo é o brasão da família que teve de ser redesenhado. O trabalho foi realizado pelo estúdio de design 3H, em conjunto com o mestre gravador inglês Christopher Wormell e em consonância com o respeito por uma história familiar centenária, ligada à cultura única da região e da propriedade.









terça-feira, 13 de maio de 2014

Cabeço de Vide

A somente 30 minutos de Alter do Chão, temos a vila de Cabeço de Vide. Sobre a sua fundação há poucos registos. Segundo histórias orais contadas à lareira, o nome nasceu da acidentada vida dos seus habitantes. O primeiro povoamento foi feito junto do ribeiro; porém, por razões nunca totalmente apuradas, as pessoas adoeciam muito e morriam. Decidiu-se então a mudança para o cimo do monte que se elevava mesmo ali. As doenças acabaram e os habitantes deram à vila o nome de Cabeço da Vida, que com o correr dos tempos, passou a Cabeço-de-Vide. No entanto, o brasão da vila contém uma vide e há que fale duma grande vide que se encontrava nos terrenos da vila aquando da sua fundação.
A vida na vila concentra-se no Rossio, uma ampla avenida, oficialmente denominada Avenida da Libertação desde 1932 quando a vila deixou de pertencer ao concelho de Alter do Chão e passou a integrar o concelho de Fronteira. Num dos topos do Rossio encontra-se a escola primária e no outro uma casa senhorial do século XIX. No meio, um largo passeio com pequenos lagos com peixes, cascatas, repuxos para tirar a sede a quem por lá se passeia, ladeado por laranjeiras a todo o comprimento, convida a amenas e longas cavaqueiras, especialmente ao fim do dia quando o calor deixa de apertar.
Há dois locais famosos na vila. Um é a estação dos caminhos de ferro, hoje desactivada e transformada em hotel e restaurante, e as termas da Sulfúrea.  O edifício da estação está decorado com azulejos que mostram cenas da vida alentejana, desde a ceifa ao mungimento das vacas, passando pelo lançamento das sementes, pela apanha da azeitona e pelo lavrar das terras.
Não longe da estação encontram-se as termas. Os jardins à volta do estabelecimento termal, com as suas grandes e velhas árvores, fazem da sulfúrea um oásis no Verão. A Junta de Freguesia mandou construir uma piscina natural no ribeiro que corta os jardins, retendo as águas por meio de comportas. As águas medicinais vêm de quatro nascentes e contêm ácido sulfúrico e daí o nome de Sulfúrea e são aconselhadas a diversas doenças.
Como a maioria das aldeias e vilas alentejanas, também Cabeço de Vide tem as suas casas caiadas de branco, com as janelas e portas pintadas a azul (para afastar os maus espíritos) ou outra cor forte.
Com o cair da noite, escolhamos um local para pernoitar. Qualquer que seja a casa que se escolha, terá de certeza uma belíssima lareira, grande, onde no Inverno se passam longos serões a conversar, a ler ou a jogar… ou somente a olhar o lume.

As lareiras alentejanas são para mim um espelho da grandeza das suas terras. No Alentejo há espaço, nada é acanhado. Pode respirar-se à vontade. Como diz Miguel Torga: “Encho os olhos de terra. / No Alentejo, há muita e é de graça. [...] / O Alentejo é o fôlego, a extensão do alento” (in “Alentejo”, 1988). 

segunda-feira, 24 de março de 2014

A forca de Cabeço de Vide

Quando estudamos História, encontramos várias situações em que as personagens históricas são condenadas à forca. A morte por enforcamento era muito comum em períodos históricos antigos – por exemplo, em Roma, a forca era para os cidadãos romanos, pois os bárbaros, ou seja, estrangeiros não romanos, eram crucificados.
Portugal foi o segundo país da Europa, após o Grão-Ducado da Toscana (1786), a abolir a pena de morte. Em 1852, foi abolida para crimes políticos como nos revela o artigo 16º do Ato Adicional à Carta Constitucional de 5 de Julho, sancionado por D. Maria II. Na década seguinte, em 1867, foi abolida para crimes civis, exceto por traição durante a guerra.
Nos tempos atuais, já quase não se ouve falar de penas de morte por enforcamento. Exceto em 2006, quando alguns dos altos responsáveis pelo Iraque, incluindo Saddam Hussein, foram enforcados por traição.
Quando este fim de semana me passeava por Cabeço de Vide, uma simpática vila no Alto Alentejo, descobri uma forca no meio dum campo, à saída da vila, a caminho de Fronteira. Este é o único exemplar conhecido que escapou à destruição na sequência da abolição da pena de morte - sabendo-se que Cabeço de Vide deixou de ser sede de concelho em 1855, tal facto pode ter motivado a não destruição deste monumento.
Trata-se de dois obeliscos paralelepípedos de alvenaria, claro, gastos pelo tempo. Era complemento da função do pelourinho para os casos de pena de morte e, ao contrário deste, localizava-se fora do aglomerado populacional.
O condenado era pendurado com uma corda ao pescoço suspensa de uma viga atravessada horizontalmente e sustentada pelos prismas que ainda hoje se mantêm no seu lugar. A morte dava-se por asfixia devido à estrangulação e distensão das vértebras cervicais.
Quem terão sido os condenados desta forca? Certamente, criminosos graves, Mas quem sabe se também não terão morrido ali judeus perseguidos pela Inquisição.
Sabemos pela leitura dos relatórios da Inquisição de Évora que em Cabeço de Vide havia nos séculos XVI e XVII uma numerosa e ativa comunidade judaica. Aliás, Cabeço de Vide terá sido mesmo, nesta época, uma das vilas do Alentejo mais atingidas pelo terror inquisitorial: entre 1533-1668, 211 videnses terão sido condenados por penas que iam da abjuração, perda de bens, prisão, tortura, tendo transformado esta vila uma das mais sacrificadas pelo braço forte da Inquisição de Évora.
Ali, bem ereta no meio do campo, a forca faz-nos não esquecer o passado.