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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A Capela de Nossa Senhora de Entre Águas em Benavila

Capela de Nossa Senhora de Entre Águas em Benavila


No coração do Alto Alentejo, na vila de Benavila (concelho de Avis), a fé popular encontra uma das suas expressões mais serenas e profundas na Capela de Nossa Senhora de Entre Águas. Inserida numa paisagem moldada pelo ritmo da terra e pelos cursos de água, esta ermida é um testemunho vivo da ligação secular entre a religiosidade, a agricultura e a proteção divina.

A devoção a esta invocação mariana está intimamente ligada à geografia física e espiritual dos locais onde se estabelece. Tal como acontece noutras regiões do país, o nome "Entre Águas" remete para a confluência de ribeiros ou para a proximidade de linhas de água vitais para a sobrevivência das comunidades rurais. A água, símbolo primordial de vida, purificação e fertilidade, torna-se o cenário perfeito para o surgimento de um espaço de oração e recolhimento.

A tradição oral associada a esta ermida partilha traços com o imaginário mariano português. Frequentemente, estas origens ligam-se a narrativas populares em que a imagem da Virgem terá sido encontrada por pastores ou lavradores junto à vegetação e às águas. Conta a lenda que, por mais que a imagem fosse transportada para a igreja matriz ou para o centro da povoação, ela reaparecia misteriosamente no seu local de origem. Este "regresso" milagroso interpretava-se como um desejo expresso da Senhora em ver erguido o seu templo exatamente ali, no meio da natureza que cuidava.

Placa de uma campa romana encontrada no local


Em Benavila, a Capela de Nossa Senhora de Entre Águas sempre assumiu um papel central na vida dos agricultores e rurais da região. Num território marcado pelas exigências do clima alentejano, a Virgem é invocada como a grande protetora dos campos. A Ela recorriam os devotos em momentos de aflição, pedindo a chuva abençoada nos anos de seca prolongada, a proteção do gado contra doenças ou o sucesso do trabalho árduo nas sementeiras e colheitas.

Curiosamente, a devoção adapta-se com grande sensibilidade ao meio envolvente. Enquanto em zonas com forte tradição vitivinícola a designação por vezes se cruza com "Nossa Senhora de Entre Vinhas", simbolizando a guardiã do fruto da videira e do trabalho dos viticultores, em Benavila prevalece a força da água. A Senhora é a guardiã das margens, a presença maternal que protege quem trabalha a terra e depende da generosidade dos recursos naturais.

A oliveira centenária

As celebrações e festividades associadas à capela mantêm vivo o elo entre o sagrado e o ciclo agrícola. Realizadas tradicionalmente em momentos marcantes do calendário rural, estas festas unem a comunidade em momentos de ação de graças pelas dádivas recebidas ao longo do ano.

Visitar a Capela de Nossa Senhora de Entre Águas em Benavila é, assim, mais do que conhecer um património religioso; é descobrir a identidade cultural de uma comunidade que aprendeu a ler a presença do divino na simplicidade da
paisagem, na frescura das águas e na esperança das colheitas.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

A Senhora da Penha em Portalegre

Ao aproximarmo-nos de Portalegre, a "cidade / Do Alto Alentejo, cercada / De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros", como a descreveu José Régio, vemos ao longe, num alto da serra de São Paulo, uma enorme cruz branca, que fica iluminada quando a noite cai. 
Uma serra indica-nos o caminho para a capela de Nossa Senhora da Penha, local de peregrinação e penitência para os crentes. Para lá chegar a pé, há que subir uma longa escadaria trabalhada em mármore policromo, íngreme, que segue pela colina.  Do adro da capela, localizada na serra em frente da cidade a 645 m de altitude, tem-se uma fantástica vista. Sentimo-nos num teatro. A cidade aparece-nos ali enquadrada num cenário fortemente barroco.


Há alguns séculos, um eremita refugiou-se no meio da serra. A população ficou tão impressionada com a sua fé que mandou construir um templo de pequenas dimensões, de linhas simples.

Em 1620, o então corregedor de Portalegre, João Zuzarte da Fonseca, mandou construir a atual ermida, com nave de planta rectangular, e capela-mor circular - um edifício exemplar da tipologia comum às igrejas barrocas de matriz popular. Na fachada, que termina em frontão triangular com coruchéus laterais, sobressaem quatro grossas pilastras salientes,  pintadas de azul vivo. Sobre o portal principal vê-se uma cruz. 


No interior, destaca-se, na capela-mor, o revestimento azulejar de tipo tapete policromo, bem como a pintura da cúpula representando a Coroação da Virgem com coros angélicos, possivelmente psteriores à construção, já do final século XVIII. 


Em 1675, a capela passou a ser da responsabilidade dos Frades Agostinhos Descalços.

Há uma lenda ligada à construção desta capela. Há muitos anos vivia numa pobre cabana uma velhinha que todos os dias subia a serra, devagarinho. Quando lá chegava sentava-se num pedra a rezar o terço e a admirar a beleza envolvente. Quando sol se punha, a velinha, descia à população e regressava à sua pobre cabana. Um dia, enquanto rezava, foi assaltada por uns meliantes. Um deles, levantou um machado para a matar. Quando a velhinha caiu morta, os meliantes queriam endireitar-se para seguir mas não conseguiram. Ficaram presos ao chão, curvados, como estátuas. Só a garganta não tinha ficado paralisada. Os homens gritavam, gritavam mas ninguém os acudia. Quem passava, pensava que estavam a brincar ou nalguma zaragata na qual não se queriam envolver. Só quando um homem voltou ali a passar dois dias depois e os viu na mesma posição, aproximou-me e tentou ajudá-los, sem nada conseguir. só quando viu o corpo da velhinha morta à machada é que se apercebeu o que se tinha passado. Correu à vila, chamou o oficial de justiça que rapidamente subiu à montanha, acompanhado por muitos populares. Assim que os meliantes confessaram o seu crime, os seus músculos ficaram soltos. O oficial de justiça levou-os para a prisão, sendo julgados e condenados por tão bárbaro crime. 

Da capela parte um caminho para o cimo da serra, num passeio muito aprazível mas algo custoso (é sempre a subir!) até à grande cruz de  8 metros que se ergue no cimo da serra. Daqui vemos km e km à nossa volta, uma maravilhosa paisagem de 360º que nos faz esquecer a dificuldade do trajeto. O regresso é fácil - para baixo todos os santos ajudam.