domingo, 27 de setembro de 2026

A aviação em debate: Filadélfia junta líderes aeroportuários e consolida parcerias globais

 



O setor da aviação comercial atravessa um período de transformação profunda, impulsionado pela necessidade de modernização infraestrutural, transição digital e pela adaptação às crescentes exigências dos passageiros e da sustentabilidade ambiental. Neste cenário, a cidade da Filadélfia, nos Estados Unidos, tornou-se o epicentro das grandes decisões da indústria ao acolher a Conferência e Exposição Anual de 2026 do Airports Council International - North America (ACI-NA), o maior encontro do mundo organizado "por aeroportos, para aeroportos".

O evento reuniu no Pennsylvania Convention Center mais de 2 000 profissionais e quadros de topo em representação de cerca de 200 aeroportos. Sob o mote de dar resposta aos desafios prementes do mercado, a agenda de trabalhos focou-se em eixos estratégicos fundamentais: o aumento da capacidade das infraestruturas, o desenvolvimento e retenção do talento humano, a aceleração da transição digital e a melhoria contínua da experiência do passageiro. Kevin M. Burke, presidente e CEO do ACI-NA, destacou que este encontro constitui uma plataforma crucial para enfrentar "as questões que mais importam para os nossos membros e para a nossa indústria".

Um dos elementos de maior destaque da edição deste ano foi a consolidação da parceria mediática estratégica entre o ACI-NA e a plataforma internacional Aviation-Event, marca da alemã DA! GmbH. Esta colaboração visa projetar o ecossistema aeroportuário da América do Norte — um dos maiores mercados mundiais de aviação — no ecossistema mediático e de tomada de decisão global.

Através de uma cobertura editorial abrangente e de entrevistas exclusivas, a Aviation-Event amplificou as vozes dos líderes do setor. Entre as conversas de relevo transmitidas globalmente destacam-se a intervenção de Candace McGraw, antiga presidente do ACI World, sobre o papel do transporte aéreo, na economia global, na aproximação das populações e na ligação entre pessoas, e a análise de RJ Steenstra, presidente e CEO da Autoridade Portuária de Toronto, focada nas dinâmicas de transfronteiriças de viagem e comércio entre o Canadá e os Estados Unidos.

Marcel Riwalsky, CEO da Aviation-Event, sublinhou a relevância de aproximar os mercados continentais: "A Filadélfia proporcionou uma oportunidade excelente para apresentar as perspetivas dos aeroportos norte-americanos a uma audiência internacional. O nosso objetivo passa por trabalhar de forma cada vez mais próxima com o ACI-NA e os seus membros, garantindo que as suas ideias e projetos de inovação alcancem uma visibilidade verdadeiramente global".

O evento serviu também para homenagear personalidades de relevo da aviação, como Doug Kreulen, distinguido com o prémio de liderança visionária, e Patty Clark, galardoada com o Downes Award, além do reconhecimento atribuído a cinco iniciativas de sustentabilidade ambiental promovidas por aeroportos.

Com o encerramento da edição de 2026, os olhares do setor voltam-se agora para o futuro. A próxima conferência anual do ACI-NA já está agendada para decorrer entre 4 e 7 de outubro de 2027, em Nova Orleães, momento para o qual a Aviation-Event e o ACI-NA preveem alargar ainda mais o seu programa editorial conjunto.

Os segredos de Alcoutim, no Alentejo profundo: A magia dos Menires do Lavajo

 



Há no interior do Algarve um encanto que vai muito além das praias douradas e das falésias esculpidas pelo oceano. No concelho de Alcoutim, onde a paisagem se desdobra em colinas suaves, olivais e o silêncio sereno do nordeste algarvio, esconde-se um dos tesouros arqueológicos mais fascinantes de Portugal: os Menires do Lavajo.

Apesar de estarem bem sinalizados, conseguimo-nos perder – o que também não foi mau, pois ficámos a conhecer algumas das aldeias do Alentejo profundo. Descobertos na década de 1990 no âmbito de prospeções arqueológicas, estes monumentos megalíticos remontam ao Neolítico (entre o quinto e o quarto milénios a.C.). Revelam-nos a vivência, a espiritualidade e a arte dos povos que habitaram estas terras há mais de cinco mil anos, numa altura em que a relação entre o ser humano e a natureza assumia uma dimensão sagrada.

Lavajo 1


O complexo do Lavajo integra dois conjuntos principais, conhecidos como Lavajo 1 e Lavajo 2. O grande protagonista deste recinto é o soberbo menir de Lavajo 1. Esculpido em grauvaca, uma rocha característica da região, cujo nome deriva do alemão Grauwacke, sobressai com os seus imponentes três metros de altura, figurando entre os maiores e mais bem conservados menires do sul da Península Ibérica.

Mais do que a dimensão, é o rigor do trabalho de escultura que impressiona quem o contempla. Com a sua silhueta fálica, símbolo ancestral de fertilidade e renovação da vida, o menir apresenta gravuras entalhadas na pedra, como motivos vasculiformes e cazoletas (pequenas cavidades circulares). Estas marcas representam verdadeiras manifestações do pensamento simbólico pré-histórico.



Erguidos em pontos elevados da paisagem, os menires do Lavajo cumpriam uma dupla função. Por um lado, eram marcos territoriais visíveis à distância, sinalizando o domínio e a presença de uma comunidade sobre o território. Por outro, constituíam locais de culto e reunião, autênticos eixos sagrados onde se realizavam rituais comunitários e oferendas ligadas aos ciclos agrícolas e à observação dos astros.



A visita ao Lavajo oferece uma experiência única de comunhão com a história e com a natureza. O menir principal de Lavajo 2, que se encontrava tombado e fraturado pela passagem do tempo, foi cuidadosamente restaurado e reerguido, permitindo admirar o monumento na sua orientação e postura originais.

Passear por estes caminhos e contemplar estas pedras milenares é fazer uma viagem no tempo, escutando os ecos de uma herança ancestral no coração do interior algarvio.

 


O segredo gravado na pedra: Uma viagem ao enigma da escrita peninsular mais antiga no Museu da Escrita do Sudoeste de Almodôvar

 

MESA - Museu da Escrita do Sudoeste de Almodôvar

 

No coração do Sudoeste da Península Ibérica, entre os últimos contornos da planície do Baixo Alentejo e as primeiras serranias que anunciam o Algarve, guarda-se um dos maiores mistérios da arqueologia europeia. É nesta paisagem dominada pelo xisto e pelo sobressaltado relevo das serras, onde nascem rios como o Mira, o Sado, o Vascão ou o Arade, que se concentra o conjunto mais expressivo de estelas com a chamada Escrita do Sudoeste.

Cruzamento de rotas ancestrais que ligavam o vale do Guadiana aos campos de Ourique e ao litoral algarvio, este território interior viu florescer, durante a Primeira Idade do Ferro (entre os séculos VII e V a.C.), uma cultura singular. Almodôvar, estrategicamente posicionada no centro desta geografia, afirma-se hoje como o epicentro deste legado patrimonial e o ponto de partida ideal para uma incursão fascinante pelas origens da palavra escrita na Península Ibérica.

 

MESA - Museu da Escrita do Sudoeste de Almodôvar

Almodôvar e o guardião da memória

Para quem visita a vila de Almodôvar, a paragem no Museu da Escrita do Sudoeste  - MESA - é incontornável. Inaugurado em setembro de 2007, o museu ocupa o espaço do antigo teatro oitocentista local, um edifício demolido na década de 1980 cuja vocação cultural renasceu graças ao empenho da Câmara Municipal e ao envolvimento científico do professor Amílcar Guerra e do arqueólogo Rui Cortes.

Na génese do projeto esteve uma importante concertação institucional. Como a maioria das estelas descobertas se encontrava dispersa por grandes acervos — nomeadamente no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, e no Museu Regional de Beja —, o apoio generoso do diretor do MNA foi decisivo para reunir e expor em Almodôvar este património único, devolvendo-o à paisagem onde foi concebido.

 

Povos abertos ao mundo: A génese de um alfabeto

Tivemos com guia na nossa visita ao MESA o arqueólogo Rui Cortes, atualmente responsável pelo departamento de cultura da Câmara Municipal de Almodôvar, que nos contou, com todo o saber e paixão, histórias e histórias da História. Este arqueólogo tem dedicado grande parte da sua atividade ao estudo da Primeira Idade do Ferro no Sudoeste peninsular, investigando as necrópoles, os povoamentos e o fenómeno das estelas gravadas em xisto com a mais antiga escrita da Península Ibérica. Não poderíamos ter tido melhor guia!

Os tartéssos e as comunidades do Sudoeste peninsular formaram a primeira civilização da região a adotar a escrita. Longe de viverem isolados, estes povos mantinham contactos intensos com navegadores e comerciantes do Mediterrâneo Oriental — designadamente os fenícios de Tiro e da sua colónia Cartago, presentes nestas costas desde o século IX a.C. — e com o mundo celta.

A região era abundante em minérios cobiçados, trocados por bens de luxo trazidos de terras distantes. Influenciadas por esses visitantes, as populações locais adaptaram o sistema de escrita fenício para transcrever a sua própria língua. Acrescentaram caracteres específicos para responder às suas necessidades fonéticas e começaram a gravar no xisto, uma matéria-prima abundante de superfícies lisas e fáceis de entalhar. Curiosamente, a prática epigráfica não floresceu nos grandes entrepostos costeiros de forte presença fenícia (como Cádiz, Huelva, Castro Marim ou Tavira), mas sim nas zonas do interior, onde o impacto oriental se fundiu de forma mais subtil com as tradições locais.

A escrita do Sudoeste, inicialmente apelidada de escrita tartessa ou sul-lusitana, cobria todo o território do Sudoeste peninsular com uma notável uniformidade gráfica. A sua notoriedade era tal que os próprios escritores clássicos da Antiguidade consideravam os tartéssos o povo mais culto da época.

 

O mistério da língua não decifrada

Embora os especialistas consigam hoje ler os caracteres paleo-hispânicos do Sudoeste e reconhecer as suas particularidades — como a característica "redundância das vogais", em que a consoante surge acompanhada por uma vogal que funciona quase como um eco —, a língua subjacente permanece indecifrada. Não existe até à data uma tradução literal do seu vocabulário.

As estelas, contudo, revelam uma estrutura tipificada. Na sua grande maioria, tratava-se de monumentos funerários destinados a assinalar as sepulturas de membros de elite de pequenas comunidades agrícolas e pastoris. As inscrições serpenteiam pelas margens da pedra em estilo boustrophedon ou em espiral, contornando o bloco do exterior para o interior. É frequente encontrarem-se sequências repetitivas como lokobon ou bare lokobon, que os linguistas julgam corresponder a fórmulas dedicatórias semelhantes a "aqui jaz" ou "em memória de", seguidas dos nomes próprios dos falecidos e da sua filiação ou tribo.

O reconhecimento pioneiro destes monumentos remonta ao virar do século XVIII para o século XIX, graças à ação do bispo de Beja, D. Frei Manuel do Cenáculo Villas Boas, que identificou os primeiros espécimes.

 

Oito séculos de História em cinco peças fundamentais

Um itinerário pelo património da Escrita do Sudoeste leva-nos a conhecer peças extraordinárias espalhadas por museus da região e além-fronteiras:

Signário de Espanca


  • O Signário de Espanca (Castro Verde): Descoberto perto da aldeia de Sete, este achado é uma joia pedagógica sem equivalente funerário. Trata-se de uma pedra de aprendizagem com 27 caracteres (5 vogais, 15 signos silábicos e 7 consoantes). Apresenta duas linhas seguidas: a primeira foi gravada por um mestre com traço firme; a segunda, logo abaixo, é a cópia hesitante de um aprendiz a imitar a lição.
Estela de Bensafrim


  • A Estela de Bensafrim (Loulé): Exposta no Museu Municipal de Arqueologia de Silves, destaca-se pelo seu texto gravado nas margens que delimita um retângulo central vazio, contornando o bordo da pedra em espiral.
Estela da Abóboda


  • A Estela da Abóboda (Almodôvar): Descoberta na Necrópole da Abóboda, em Almodôvar, a Estela da Abóboda é uma das peças mais emblemáticas da Escrita do Sudoeste. Datada da Primeira Idade do Ferro, esta lápide funerária em xisto destaca-se por apresentar caracteres paleo-hispânicos gravados em espiral em redor de uma representação figurativa, que se pensa ser um guerreiro. Constitui um testemunho fundamental da ancestralidade e complexidade cultural da região
Estela do Cerro dos Enforcados


  • A Estela do Cerro dos Enforcados (Ourique): Pertencente ao acervo do Museu Nacional de Arqueologia, ilustra com precisão as lápides dedicadas a figuras prestigiadas da Idade do Ferro na região do Baixo Alentejo.
Estela del Capote


  • A Estela del Capote (Higuera la Real, Badajoz): Conservada no Museu Arqueológico Provincial de Badajoz, representa uma impressionante estela figurativa. Sob os caracteres em arco, exibe a silhueta gravada de um guerreiro munido de lança e escudo circular, afirmando a dimensão heroica do monumento.

 

 

O desaparecimento de um enigma

O hábito de gravar estelas atingiu o seu declínio por volta do século V a.C. Com as profundas transformações sociais e as invasões celtas marcantes da Segunda Idade do Ferro, o sistema de escrita caiu em desuso até desaparecer completamente dos registos arqueológicos. Embora a língua falada possa ter resistido na tradição oral durante mais algum tempo, a pedra deixou de falar.

Hoje, percorrer o território de Almodôvar e visitar o seu Museu da Escrita do Sudoeste é viajar até ao limiar da História. É escutar o eco distante de uma comunidade que, há mais de 2500 anos, decidiu imortalizar os seus nomes e memórias nas lâminas de xisto da serra — um convite imperdível para os apreciadores de arqueologia, cultura e mistérios por desvendar.