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| MESA - Museu da Escrita do Sudoeste de Almodôvar |
No coração do Sudoeste da Península Ibérica, entre os
últimos contornos da planície do Baixo Alentejo e as primeiras serranias que
anunciam o Algarve, guarda-se um dos maiores mistérios da arqueologia europeia.
É nesta paisagem dominada pelo xisto e pelo sobressaltado relevo das serras,
onde nascem rios como o Mira, o Sado, o Vascão ou o Arade, que se concentra o conjunto
mais expressivo de estelas com a chamada Escrita do Sudoeste.
Cruzamento de rotas ancestrais que ligavam o vale do
Guadiana aos campos de Ourique e ao litoral algarvio, este território interior
viu florescer, durante a Primeira Idade do Ferro (entre os séculos VII e V
a.C.), uma cultura singular. Almodôvar, estrategicamente posicionada no centro
desta geografia, afirma-se hoje como o epicentro deste legado patrimonial e o ponto
de partida ideal para uma incursão fascinante pelas origens da palavra escrita
na Península Ibérica.
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| MESA - Museu da Escrita do Sudoeste de Almodôvar |
Almodôvar e o guardião da memória
Para quem visita a vila de Almodôvar, a paragem no
Museu da Escrita do Sudoeste - MESA - é
incontornável. Inaugurado em setembro de 2007, o museu ocupa o espaço do antigo
teatro oitocentista local, um edifício demolido na década de 1980 cuja vocação
cultural renasceu graças ao empenho da Câmara Municipal e ao envolvimento
científico do professor Amílcar Guerra e do arqueólogo Rui Cortes.
Na génese do projeto esteve uma importante concertação
institucional. Como a maioria das estelas descobertas se encontrava dispersa
por grandes acervos — nomeadamente no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa,
e no Museu Regional de Beja —, o apoio generoso do diretor do MNA foi decisivo
para reunir e expor em Almodôvar este património único, devolvendo-o à paisagem
onde foi concebido.
Povos abertos ao mundo: A génese
de um alfabeto
Tivemos com guia na nossa visita ao MESA o arqueólogo
Rui Cortes, atualmente responsável pelo departamento de cultura da Câmara
Municipal de Almodôvar, que nos contou, com todo o saber e paixão, histórias e
histórias da História. Este arqueólogo tem dedicado grande parte da sua atividade ao
estudo da Primeira Idade do Ferro no Sudoeste peninsular, investigando as
necrópoles, os povoamentos e o fenómeno das estelas gravadas em xisto com a
mais antiga escrita da Península Ibérica. Não poderíamos ter tido melhor guia!
Os tartéssos e as comunidades do Sudoeste peninsular
formaram a primeira civilização da região a adotar a escrita. Longe de viverem
isolados, estes povos mantinham contactos intensos com navegadores e
comerciantes do Mediterrâneo Oriental — designadamente os fenícios de Tiro e da
sua colónia Cartago, presentes nestas costas desde o século IX a.C. — e com o
mundo celta.
A região era abundante em minérios cobiçados, trocados
por bens de luxo trazidos de terras distantes. Influenciadas por esses
visitantes, as populações locais adaptaram o sistema de escrita fenício para
transcrever a sua própria língua. Acrescentaram caracteres específicos para
responder às suas necessidades fonéticas e começaram a gravar no xisto, uma
matéria-prima abundante de superfícies lisas e fáceis de entalhar.
Curiosamente, a prática epigráfica não floresceu nos grandes entrepostos
costeiros de forte presença fenícia (como Cádiz, Huelva, Castro Marim ou
Tavira), mas sim nas zonas do interior, onde o impacto oriental se fundiu de
forma mais subtil com as tradições locais.
A escrita do Sudoeste, inicialmente apelidada de
escrita tartessa ou sul-lusitana, cobria todo o território do Sudoeste
peninsular com uma notável uniformidade gráfica. A sua notoriedade era tal que
os próprios escritores clássicos da Antiguidade consideravam os tartéssos o
povo mais culto da época.
O mistério da língua não decifrada
Embora os especialistas consigam hoje ler os
caracteres paleo-hispânicos do Sudoeste e reconhecer as suas particularidades —
como a característica "redundância das vogais", em que a consoante
surge acompanhada por uma vogal que funciona quase como um eco —, a língua
subjacente permanece indecifrada. Não existe até à data uma tradução literal do
seu vocabulário.
As estelas, contudo, revelam uma estrutura tipificada.
Na sua grande maioria, tratava-se de monumentos funerários destinados a
assinalar as sepulturas de membros de elite de pequenas comunidades agrícolas e
pastoris. As inscrições serpenteiam pelas margens da pedra em estilo boustrophedon
ou em espiral, contornando o bloco do exterior para o interior. É frequente
encontrarem-se sequências repetitivas como lokobon ou bare lokobon,
que os linguistas julgam corresponder a fórmulas dedicatórias semelhantes a
"aqui jaz" ou "em memória de", seguidas dos nomes próprios
dos falecidos e da sua filiação ou tribo.
O reconhecimento pioneiro destes monumentos remonta ao
virar do século XVIII para o século XIX, graças à ação do bispo de Beja, D.
Frei Manuel do Cenáculo Villas Boas, que identificou os primeiros espécimes.
Oito séculos de História em cinco
peças fundamentais
Um itinerário pelo património da Escrita do Sudoeste
leva-nos a conhecer peças extraordinárias espalhadas por museus da região e
além-fronteiras:
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| Signário de Espanca |
- O Signário de Espanca (Castro Verde): Descoberto perto da aldeia de Sete, este achado
é uma joia pedagógica sem equivalente funerário. Trata-se de uma pedra de
aprendizagem com 27 caracteres (5 vogais, 15 signos silábicos e 7
consoantes). Apresenta duas linhas seguidas: a primeira foi gravada por um
mestre com traço firme; a segunda, logo abaixo, é a cópia hesitante de um
aprendiz a imitar a lição.
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| Estela de Bensafrim |
- A Estela de Bensafrim (Loulé): Exposta no Museu Municipal de Arqueologia de
Silves, destaca-se pelo seu texto gravado nas margens que delimita um
retângulo central vazio, contornando o bordo da pedra em espiral.
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| Estela da Abóboda |
- A Estela da Abóboda (Almodôvar): Descoberta na Necrópole da Abóboda, em
Almodôvar, a Estela da Abóboda é uma das peças mais emblemáticas da
Escrita do Sudoeste. Datada da Primeira Idade do Ferro, esta lápide
funerária em xisto destaca-se por apresentar caracteres paleo-hispânicos
gravados em espiral em redor de uma representação figurativa, que se pensa
ser um guerreiro. Constitui um testemunho fundamental da ancestralidade e
complexidade cultural da região
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| Estela do Cerro dos Enforcados |
- A Estela do Cerro dos Enforcados (Ourique): Pertencente ao acervo do Museu Nacional de
Arqueologia, ilustra com precisão as lápides dedicadas a figuras
prestigiadas da Idade do Ferro na região do Baixo Alentejo.
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| Estela del Capote |
- A Estela del Capote (Higuera la Real, Badajoz): Conservada no Museu Arqueológico Provincial de
Badajoz, representa uma impressionante estela figurativa. Sob os
caracteres em arco, exibe a silhueta gravada de um guerreiro munido de
lança e escudo circular, afirmando a dimensão heroica do monumento.
O desaparecimento de um enigma
O hábito de gravar estelas atingiu o seu declínio por
volta do século V a.C. Com as profundas transformações sociais e as invasões
celtas marcantes da Segunda Idade do Ferro, o sistema de escrita caiu em desuso
até desaparecer completamente dos registos arqueológicos. Embora a língua
falada possa ter resistido na tradição oral durante mais algum tempo, a pedra
deixou de falar.
Hoje, percorrer o território de Almodôvar e visitar o
seu Museu da Escrita do Sudoeste é viajar até ao limiar da História. É escutar
o eco distante de uma comunidade que, há mais de 2500 anos, decidiu imortalizar
os seus nomes e memórias nas lâminas de xisto da serra — um convite imperdível
para os apreciadores de arqueologia, cultura e mistérios por desvendar.