domingo, 27 de setembro de 2026

O segredo gravado na pedra: Uma viagem ao enigma da escrita peninsular mais antiga no Museu da Escrita do Sudoeste de Almodôvar

 

MESA - Museu da Escrita do Sudoeste de Almodôvar

 

No coração do Sudoeste da Península Ibérica, entre os últimos contornos da planície do Baixo Alentejo e as primeiras serranias que anunciam o Algarve, guarda-se um dos maiores mistérios da arqueologia europeia. É nesta paisagem dominada pelo xisto e pelo sobressaltado relevo das serras, onde nascem rios como o Mira, o Sado, o Vascão ou o Arade, que se concentra o conjunto mais expressivo de estelas com a chamada Escrita do Sudoeste.

Cruzamento de rotas ancestrais que ligavam o vale do Guadiana aos campos de Ourique e ao litoral algarvio, este território interior viu florescer, durante a Primeira Idade do Ferro (entre os séculos VII e V a.C.), uma cultura singular. Almodôvar, estrategicamente posicionada no centro desta geografia, afirma-se hoje como o epicentro deste legado patrimonial e o ponto de partida ideal para uma incursão fascinante pelas origens da palavra escrita na Península Ibérica.

 

MESA - Museu da Escrita do Sudoeste de Almodôvar

Almodôvar e o guardião da memória

Para quem visita a vila de Almodôvar, a paragem no Museu da Escrita do Sudoeste  - MESA - é incontornável. Inaugurado em setembro de 2007, o museu ocupa o espaço do antigo teatro oitocentista local, um edifício demolido na década de 1980 cuja vocação cultural renasceu graças ao empenho da Câmara Municipal e ao envolvimento científico do professor Amílcar Guerra e do arqueólogo Rui Cortes.

Na génese do projeto esteve uma importante concertação institucional. Como a maioria das estelas descobertas se encontrava dispersa por grandes acervos — nomeadamente no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, e no Museu Regional de Beja —, o apoio generoso do diretor do MNA foi decisivo para reunir e expor em Almodôvar este património único, devolvendo-o à paisagem onde foi concebido.

 

Povos abertos ao mundo: A génese de um alfabeto

Tivemos com guia na nossa visita ao MESA o arqueólogo Rui Cortes, atualmente responsável pelo departamento de cultura da Câmara Municipal de Almodôvar, que nos contou, com todo o saber e paixão, histórias e histórias da História. Este arqueólogo tem dedicado grande parte da sua atividade ao estudo da Primeira Idade do Ferro no Sudoeste peninsular, investigando as necrópoles, os povoamentos e o fenómeno das estelas gravadas em xisto com a mais antiga escrita da Península Ibérica. Não poderíamos ter tido melhor guia!

Os tartéssos e as comunidades do Sudoeste peninsular formaram a primeira civilização da região a adotar a escrita. Longe de viverem isolados, estes povos mantinham contactos intensos com navegadores e comerciantes do Mediterrâneo Oriental — designadamente os fenícios de Tiro e da sua colónia Cartago, presentes nestas costas desde o século IX a.C. — e com o mundo celta.

A região era abundante em minérios cobiçados, trocados por bens de luxo trazidos de terras distantes. Influenciadas por esses visitantes, as populações locais adaptaram o sistema de escrita fenício para transcrever a sua própria língua. Acrescentaram caracteres específicos para responder às suas necessidades fonéticas e começaram a gravar no xisto, uma matéria-prima abundante de superfícies lisas e fáceis de entalhar. Curiosamente, a prática epigráfica não floresceu nos grandes entrepostos costeiros de forte presença fenícia (como Cádiz, Huelva, Castro Marim ou Tavira), mas sim nas zonas do interior, onde o impacto oriental se fundiu de forma mais subtil com as tradições locais.

A escrita do Sudoeste, inicialmente apelidada de escrita tartessa ou sul-lusitana, cobria todo o território do Sudoeste peninsular com uma notável uniformidade gráfica. A sua notoriedade era tal que os próprios escritores clássicos da Antiguidade consideravam os tartéssos o povo mais culto da época.

 

O mistério da língua não decifrada

Embora os especialistas consigam hoje ler os caracteres paleo-hispânicos do Sudoeste e reconhecer as suas particularidades — como a característica "redundância das vogais", em que a consoante surge acompanhada por uma vogal que funciona quase como um eco —, a língua subjacente permanece indecifrada. Não existe até à data uma tradução literal do seu vocabulário.

As estelas, contudo, revelam uma estrutura tipificada. Na sua grande maioria, tratava-se de monumentos funerários destinados a assinalar as sepulturas de membros de elite de pequenas comunidades agrícolas e pastoris. As inscrições serpenteiam pelas margens da pedra em estilo boustrophedon ou em espiral, contornando o bloco do exterior para o interior. É frequente encontrarem-se sequências repetitivas como lokobon ou bare lokobon, que os linguistas julgam corresponder a fórmulas dedicatórias semelhantes a "aqui jaz" ou "em memória de", seguidas dos nomes próprios dos falecidos e da sua filiação ou tribo.

O reconhecimento pioneiro destes monumentos remonta ao virar do século XVIII para o século XIX, graças à ação do bispo de Beja, D. Frei Manuel do Cenáculo Villas Boas, que identificou os primeiros espécimes.

 

Oito séculos de História em cinco peças fundamentais

Um itinerário pelo património da Escrita do Sudoeste leva-nos a conhecer peças extraordinárias espalhadas por museus da região e além-fronteiras:

Signário de Espanca


  • O Signário de Espanca (Castro Verde): Descoberto perto da aldeia de Sete, este achado é uma joia pedagógica sem equivalente funerário. Trata-se de uma pedra de aprendizagem com 27 caracteres (5 vogais, 15 signos silábicos e 7 consoantes). Apresenta duas linhas seguidas: a primeira foi gravada por um mestre com traço firme; a segunda, logo abaixo, é a cópia hesitante de um aprendiz a imitar a lição.
Estela de Bensafrim


  • A Estela de Bensafrim (Loulé): Exposta no Museu Municipal de Arqueologia de Silves, destaca-se pelo seu texto gravado nas margens que delimita um retângulo central vazio, contornando o bordo da pedra em espiral.
Estela da Abóboda


  • A Estela da Abóboda (Almodôvar): Descoberta na Necrópole da Abóboda, em Almodôvar, a Estela da Abóboda é uma das peças mais emblemáticas da Escrita do Sudoeste. Datada da Primeira Idade do Ferro, esta lápide funerária em xisto destaca-se por apresentar caracteres paleo-hispânicos gravados em espiral em redor de uma representação figurativa, que se pensa ser um guerreiro. Constitui um testemunho fundamental da ancestralidade e complexidade cultural da região
Estela do Cerro dos Enforcados


  • A Estela do Cerro dos Enforcados (Ourique): Pertencente ao acervo do Museu Nacional de Arqueologia, ilustra com precisão as lápides dedicadas a figuras prestigiadas da Idade do Ferro na região do Baixo Alentejo.
Estela del Capote


  • A Estela del Capote (Higuera la Real, Badajoz): Conservada no Museu Arqueológico Provincial de Badajoz, representa uma impressionante estela figurativa. Sob os caracteres em arco, exibe a silhueta gravada de um guerreiro munido de lança e escudo circular, afirmando a dimensão heroica do monumento.

 

 

O desaparecimento de um enigma

O hábito de gravar estelas atingiu o seu declínio por volta do século V a.C. Com as profundas transformações sociais e as invasões celtas marcantes da Segunda Idade do Ferro, o sistema de escrita caiu em desuso até desaparecer completamente dos registos arqueológicos. Embora a língua falada possa ter resistido na tradição oral durante mais algum tempo, a pedra deixou de falar.

Hoje, percorrer o território de Almodôvar e visitar o seu Museu da Escrita do Sudoeste é viajar até ao limiar da História. É escutar o eco distante de uma comunidade que, há mais de 2500 anos, decidiu imortalizar os seus nomes e memórias nas lâminas de xisto da serra — um convite imperdível para os apreciadores de arqueologia, cultura e mistérios por desvendar.