Há no interior do Algarve um encanto que vai muito além das praias douradas e das falésias esculpidas pelo oceano. No concelho de Alcoutim, onde a paisagem se desdobra em colinas suaves, olivais e o silêncio sereno do nordeste algarvio, esconde-se um dos tesouros arqueológicos mais fascinantes de Portugal: os Menires do Lavajo.
Apesar de
estarem bem sinalizados, conseguimo-nos perder – o que também não foi mau,
pois ficámos a conhecer algumas das aldeias do Alentejo profundo. Descobertos na década de 1990 no âmbito de
prospeções arqueológicas, estes monumentos megalíticos remontam ao Neolítico
(entre o quinto e o quarto milénios a.C.). Revelam-nos a vivência, a
espiritualidade e a arte dos povos que habitaram estas terras há mais de cinco
mil anos, numa altura em que a relação entre o ser humano e a natureza assumia
uma dimensão sagrada.
| Lavajo 1 |
O complexo do
Lavajo integra dois conjuntos principais, conhecidos como Lavajo 1 e Lavajo 2.
O grande protagonista deste recinto é o soberbo menir de Lavajo 1. Esculpido em
grauvaca, uma rocha característica da região, cujo nome deriva do alemão Grauwacke, sobressai com os seus imponentes
três metros de altura, figurando entre os maiores e mais bem conservados
menires do sul da Península Ibérica.
Mais do que a
dimensão, é o rigor do trabalho de escultura que impressiona quem o contempla.
Com a sua silhueta fálica, símbolo ancestral de fertilidade e renovação da
vida, o menir apresenta gravuras entalhadas na pedra, como motivos
vasculiformes e cazoletas (pequenas cavidades circulares). Estas marcas
representam verdadeiras manifestações do pensamento simbólico pré-histórico.
Erguidos em
pontos elevados da paisagem, os menires do Lavajo cumpriam uma dupla função.
Por um lado, eram marcos territoriais visíveis à distância, sinalizando o
domínio e a presença de uma comunidade sobre o território. Por outro,
constituíam locais de culto e reunião, autênticos eixos sagrados onde se
realizavam rituais comunitários e oferendas ligadas aos ciclos agrícolas e à
observação dos astros.
A visita ao
Lavajo oferece uma experiência única de comunhão com a história e com a
natureza. O menir principal de Lavajo 2, que se encontrava tombado e fraturado
pela passagem do tempo, foi cuidadosamente restaurado e reerguido, permitindo
admirar o monumento na sua orientação e postura originais.
Passear por
estes caminhos e contemplar estas pedras milenares é fazer uma viagem no tempo,
escutando os ecos de uma herança ancestral no coração do interior algarvio.