domingo, 27 de setembro de 2026

Os segredos de Alcoutim, no Alentejo profundo: A magia dos Menires do Lavajo

 



Há no interior do Algarve um encanto que vai muito além das praias douradas e das falésias esculpidas pelo oceano. No concelho de Alcoutim, onde a paisagem se desdobra em colinas suaves, olivais e o silêncio sereno do nordeste algarvio, esconde-se um dos tesouros arqueológicos mais fascinantes de Portugal: os Menires do Lavajo.

Apesar de estarem bem sinalizados, conseguimo-nos perder – o que também não foi mau, pois ficámos a conhecer algumas das aldeias do Alentejo profundo. Descobertos na década de 1990 no âmbito de prospeções arqueológicas, estes monumentos megalíticos remontam ao Neolítico (entre o quinto e o quarto milénios a.C.). Revelam-nos a vivência, a espiritualidade e a arte dos povos que habitaram estas terras há mais de cinco mil anos, numa altura em que a relação entre o ser humano e a natureza assumia uma dimensão sagrada.

Lavajo 1


O complexo do Lavajo integra dois conjuntos principais, conhecidos como Lavajo 1 e Lavajo 2. O grande protagonista deste recinto é o soberbo menir de Lavajo 1. Esculpido em grauvaca, uma rocha característica da região, cujo nome deriva do alemão Grauwacke, sobressai com os seus imponentes três metros de altura, figurando entre os maiores e mais bem conservados menires do sul da Península Ibérica.

Mais do que a dimensão, é o rigor do trabalho de escultura que impressiona quem o contempla. Com a sua silhueta fálica, símbolo ancestral de fertilidade e renovação da vida, o menir apresenta gravuras entalhadas na pedra, como motivos vasculiformes e cazoletas (pequenas cavidades circulares). Estas marcas representam verdadeiras manifestações do pensamento simbólico pré-histórico.



Erguidos em pontos elevados da paisagem, os menires do Lavajo cumpriam uma dupla função. Por um lado, eram marcos territoriais visíveis à distância, sinalizando o domínio e a presença de uma comunidade sobre o território. Por outro, constituíam locais de culto e reunião, autênticos eixos sagrados onde se realizavam rituais comunitários e oferendas ligadas aos ciclos agrícolas e à observação dos astros.



A visita ao Lavajo oferece uma experiência única de comunhão com a história e com a natureza. O menir principal de Lavajo 2, que se encontrava tombado e fraturado pela passagem do tempo, foi cuidadosamente restaurado e reerguido, permitindo admirar o monumento na sua orientação e postura originais.

Passear por estes caminhos e contemplar estas pedras milenares é fazer uma viagem no tempo, escutando os ecos de uma herança ancestral no coração do interior algarvio.