sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A Corunha e a Torre de Hércules

 


Torre de Hércules


A Corunha é a "Cidade de Cristal" — um título que ganha devido às famosas varandas envidraçadas (galerias) que refletem a luz do oceano na Avenida da Mariña. É uma cidade vibrante, muito cosmopolita e com uma ligação profunda ao mar.

Avenida Mariña






O seu ícone mundial é a Torre de Hércules:, o farol romano mais antigo do mundo ainda em funcionamento e Património da Humanidade pela UNESCO. Do cimo dos seus 55 m  (242 degraus!) tem-se uma vista fantástica de 360º. Com quase 2.000 anos de história, é Património Mundial da UNESCO desde 2009.

Torre de Hércules

Foi edificada no século I d.C. (provavelmente durante os reinados de Nero ou Vespasiano) para guiar os navios que navegavam para as Ilhas Britânicas e para o norte da Europa. Uma inscrição na base revela que o seu arquiteto foi Caius Sevius Lupus, originário de Aeminium (a atual cidade de Coimbra, em Portugal). Ele dedicou a obra ao deus Marte.

O que se vê atualmente por fora é uma "casca" neoclássica do século XVIII, obra do engenheiro Eustaquio Giannini, mas o núcleo interno romano permanece intacto. 

Segundo a mitologia (popularizada pelo rei Afonso X), o herói Hércules veio a estas terras para derrotar o gigante Gerião, um tirano que aterrorizava a população. Após uma batalha de três dias, Hércules cortou a cabeça do gigante e enterrou-a no local onde hoje está a torre. Diz-se que a cidade da Corunha foi fundada sobre essa vitória, e o escudo da cidade ainda hoje mostra a Torre de Hércules com uma caveira e ossos por baixo, simbolizando a cabeça enterrada de Gerião.

Para além do mito grego, existe a lenda celta: o rei Breogán teria construído aqui uma torre tão alta que o seu filho, Ith, conseguiu avistar as costas da Irlanda a partir do topo, partindo depois para a conquistar. É por isso que a estátua de Breogán te recebe logo à entrada do parque escultórico.

A Torre de Hércules está "geminada" com a Estátua da Liberdade em Nova Iorque, como um símbolo de união entre as duas margens do Atlântico.

Aos pés da milenar Torre de Hércules, na Corunha, estende-se uma imensa e colorida Rosa dos Ventos, um mosaico circular que é um autêntico hino à cultura celta e atlântica. Com cerca de 25 metros de diâmetro, esta obra não serve apenas para indicar os pontos cardeais, mas funciona como um mapa místico da herança galega.

A rosa dos ventos


Cada uma das suas direções aponta para um dos povos de origem celta, representados por símbolos tradicionais: desde a harpa da Irlanda ao tríscele da Ilha de Man. É um lugar de energia única onde, entre o rugido do oceano e o vento constante, os visitantes sentem a profunda ligação da Galiza com o mar e com as lendas de Breogán.

Segundo a lenda, o rei milenar Breogán fundou a cidade de Brigantia (Corunha) e nela ergueu uma torre tão alta que tocava as nuvens. Numa noite límpida de inverno, o seu filho Ith subiu ao topo e, fixando o olhar no horizonte sobre o oceano, avistou um brilho verde distante: era a Irlanda.

Seduzido pela visão, Ith partiu para explorar a ilha, mas foi morto pelos seus habitantes. Para vingar a morte, os filhos de Mil, descendentes de Breogán, invadiram a Irlanda, estabelecendo o laço eterno entre a Galiza e as nações celtas, hoje imortalizado na Rosa dos Ventos.


Pontevedra, a cidade galega do conforto

Virgem Peregrina
 

Pontevedra é muitas vezes apelidada de "a cidade dos miúdos" ou a "capital do conforto", porque o seu centro histórico é quase inteiramente pedonal. É uma das cidades mais charmosas da Galiza, perfeita para percorrer a pé sem o barulho dos carros.

No coração histórico, temos a Praça da Peregrina, o símbolo da cidade. Aqui está a Igreja da Virgem Peregrina, com a sua planta curiosa em forma de vieira (o símbolo do Caminho de Santiago, uma paragem obrigatória para quem percorre o Caminho Português de Santiago).

Virgem Peregrina, padroeira da província e do Caminho Português

Esta igreja é única no mundo devido à sua arquitetura peculiar. Construída em 1778, tem uma planta em forma de concha de vieira, o símbolo do Caminho de Santiago, na qual está inscrita uma cruz. Mistura elementos do barroco, rococó e neoclássico.

Na entrada, existe uma concha gigante natural usada para água benta, trazida das Filipinas pelo contra-almirante Méndez Núñez no século XIX.

No canto da praça, onde antigamente existia uma farmácia, encontra-se a estátua de ferro de um papagaio. Ravachol foi o animal de estimação do farmacêutico Perfecto Feijoo no final do século XIX. Era famoso pelo seu vocabulário sarcástico e por pregar partidas aos clientes. O papagaio morreu no Carnaval de 1913, causando tal tristeza que a cidade lhe organizou um funeral de Estado. Até hoje, o Carnaval de Pontevedra termina com o "Enterro do Ravachol", uma paródia ao seu funeral original.

A praça Praça da Peregrina é totalmente pedonal e está rodeada de esplanadas, lojas e outros pontos de interesse.

Logo ao lado, está a Praza da Ferrería, uma das praças mais amplas da cidade, onde se encontra o Convento de São Francisco. É uma praça ampla e cheia de vida, rodeada de arcadas e cafés, o lugar ideal para sentir o pulso da cidade.

Praça da Lenha

Um pouco mais adiante, temos a Praça da Lenha, para muitos, a praça mais bonita da Galiza. É pequena, rodeada de casas típicas com varandas de madeira e cheia de "taperías" onde se pode comer um bom polvo e bom marisco.

Rua Sarmiento, apinhada de jovens 

Bem perto, temos a rua Sarmiento no coração da zona de bares, junto ao Museu de Pontevedra. Frei Martín Sarmiento (1695–1772) é uma das figuras mais fascinantes e importantes do Iluminismo em Espanha e, acima de tudo, um herói cultural da Galiza. Embora tenha vivido grande parte da sua vida em Madrid, o seu coração e a sua obra estavam profundamente ligados à sua terra natal, Pontevedra. Era um monge beneditino com uma curiosidade insaciável, o que hoje chamaríamos de um verdadeiro polímata. Escreveu sobre quase tudo. 

É considerado o pai da filologia galega. Defendeu o uso do galego, estudou a sua origem e lutou para que o povo fosse alfabetizado na sua própria língua. Foi um pioneiro no estudo da flora galega e um grande defensor da agricultura e do aproveitamento dos recursos naturais. 

Um dos seus episódios mais famosos foi a viagem que fez de Madrid à Galiza em 1745. Escreveu um diário detalhado onde descreveu tudo o que viu: costumes, monumentos, plantas e palavras. Mapeou e documentou o património da Galiza como ninguém tinha feito até então.

Apesar de ter nascido em Vilafranca do Bierzo, Sarmiento cresceu em Pontevedra e  considerava-se pontevedrino, sentindo um carinho especial pela cidade

A casa onde viveu em criança fica precisamente nesta rua, onde também encontramos o Museu de Pontevedra (um dos melhores da Galiza), que ocupa edifícios históricos, preservando o espírito intelectual que ele tanto prezava, e o Edifício García Flórez (parte do Museu), com os seus famosos brasões de pedra.


A Galiza desconhecida - 3 - Castro de Boroña

 


O Castro de Baroña é um dos tesouros arqueológicos mais fascinantes da Galiza, em Espanha. Localizado no concelho de Porto do Son (província da Corunha), destaca-se por ser um povoado fortificado da Idade do Ferro construído numa península rochosa à beira-mar, o que o torna visualmente espetacular e historicamente único.

Foi habitado aproximadamente entre o século I a.C. e o século I d.C. Situa-se numa pequena península rodeada pelo Oceano Atlântico, uma localização estratégica que oferecia defesa natural e acesso direto aos recursos marinhos.

Pensa-se que foi abandonado por volta do século I d.C., possivelmente devido à pressão da romanização que levou as populações para zonas mais férteis e acessíveis no interior.

O fosso entre as duas muralhas

O castro é famoso pela sua excelente preservação e pelo complexo sistema defensivo. Possui duas grandes linhas de muralhas que protegiam o acesso por terra. Existe também um fosso escavado na rocha, com cerca de 4 metros de largura.

No interior, podem ver-se as bases de cerca de 20 casas circulares e ovais. Ao contrário de outros castros, estas não tinham janelas e a vida familiar concentrava-se em torno de uma lareira central.

A entrada no castro

 Na zona mais alta e protegida, situava-se possivelmente a área de maior importância ou refúgio final.

Os habitantes de Baroña eram autossuficientes, mas com uma forte ligação ao mar. Comiam principalmente peixe, marisco (mexilhões e caramujos) e praticavam a pastorícia de cabras e ovelhas.

Foram encontrados vestígios de metalurgia (fornos para trabalhar ferro e ouro), tecelagem e olaria.

Curiosamente, não foi encontrada uma fonte de água doce dentro do castro, o que sugere que os habitantes tinham de sair das muralhas diariamente para se abastecerem.
















A Galiza desconhecida - 2 - Ponte medieval de Seira

 


A ponte medieval de Seira, é um exemplo magnífico da engenharia civil medieval e desempenhou um papel crucial na história da região. 

A ponte atravessa o rio Sar e está situada numa zona de grande importância estratégica, ligando as terras de Iria Flavia e Padrão à zona de Santiago de Compostela. O nome "Seira" provém da aldeia onde se encontra.

Destaca-se pelo seu imponente arco de meio ponto, construído em cantaria de granito, que impressiona pela sua altura e largura. Possui o perfil típico das pontes medievais, conhecido como "lombo de asno", onde a calçada sobe acentuadamente até ao centro do arco e depois desce.

Foi desenhada para resistir às fortes correntes do rio Sar durante as épocas de chuva, algo que tem conseguido fazer com sucesso ao longo dos séculos.

Como muitas pontes na Galiza, a Ponte de Seira está envolta em história e tradição. A sua proximidade com Padrão (onde, segundo a tradição, chegou a barca com os restos do Apóstolo Tiago) torna-a um ponto de interesse nas rotas jacobeias secundárias. Durante séculos, foi a principal via de passagem para o comércio de peixe e vinho entre a costa e o interior da Galiza.

O ambiente envolvente é dominado por uma densa vegetação de ribeira e águas cristalinas.



 

A Galiza desconhecida - 1 - Petróglifos de Mogor

Para além das torres da Catedral de Santiago e do bulício das praias das Rias Baixas, existe uma Galiza que pulsa num ritmo antigo e secreto. É um território de névoa e granito, onde a natureza se mantém indomável e as tradições se escondem em aldeias esquecidas pelo tempo. Partimos à descoberta duma Galiza desconhecida.

Começámos por Marin, a uns 7 km de Pontevedra, onde nos fascinámos com as formas circulares dos Petróglifos de Mogor, um dos conjuntos de arte rupestre mais emblemáticos e misteriosos da Galiza. São mundialmente conhecidos, sobretudo, pelas suas raras formas de labirinto. A peça central deste conjunto é a Pedra do Labirinto. Ao contrário da maioria dos petróglifos galegos, que costumam representar círculos concêntricos ou animais, este apresenta um desenho labiríntico circular complexo, de cerca de 42 cm.

Pedra do Labirinto

Este desenho é quase idêntico a labirintos encontrados em locais como a Cornualha (Inglaterra), o que reforça a ideia de que existiam rotas comerciais e culturais atlânticas muito ativas na Pré-história. Embora o seu propósito exato seja desconhecido, teoriza-se que possam ser símbolos religiosos, mapas estelares ou marcações de território.

Laxe dos Mouros

Além da Pedra do Labirinto, podemos observar, na Pedra dos Campiños, círculos concêntricos e "cazoletas" (pequenos buracos escavados na rocha). Na Laxe dos Mouros, vemos uma grande rocha com diversos motivos circulares e vestígios de figuras de animais.

Estima-se que estas gravuras tenham sido feitas entre o Neolítico Final e a Idade do Bronze (aproximadamente entre 2500 a.C. e 1500 a.C.). Estão situados numa encosta com vista para a Ria de Pontevedra, muito perto da Praia de Mogor. Esta localização privilegiada sugere que o mar tinha uma importância vital para os povos que ali viviam.

O significado dos labirintos de Mogor (e de outros semelhantes na Europa Atlântica) é um dos maiores enigmas da arqueologia. Como não existem registos escritos da Idade do Bronze, os investigadores baseiam-se em interpretações simbólicas, astronómicas e rituais.

Quais são as principais teorias sobre o que estes desenhos poderiam representar?

1. Metáfora Espiritual e Ritos de Passagem Esta é a teoria mais aceite por muitos historiadores modernos. Ao contrário de um "labirinto-armadilha" (onde nos podemos perder), o labirinto de Mogor é um labirinto unicursal: existe apenas um caminho que leva inevitavelmente ao centro e volta à saída.

* A Jornada da Vida: Pode representar o caminho da vida, a morte e o renascimento.

* Purificação: O ato de seguir o desenho com o dedo ou com o olhar poderia ser um ritual de meditação ou purificação antes de entrar num estado espiritual diferente.

* Iniciação: Poderia marcar um local onde os jovens passavam por rituais para se tornarem guerreiros ou adultos.

2. Mapas e Geografia Sagrada

* Rotas Marítimas: Dada a localização de Mogor (sobre a Ria de Pontevedra), alguns investigadores sugerem que os labirintos poderiam ser "mapas" simbólicos de correntes marítimas ou entradas de portos seguros, servindo como guias para os navegadores da Idade do Bronze.

* Marcadores Territoriais: Os desenhos poderiam sinalizar que aquela terra pertencia a um determinado clã ou que o local era um ponto de encontro importante para várias tribos.

3. Astronomia e Calendários

Alguns estudos sugerem que a geometria destes petróglifos não é aleatória:

* Movimentos Solares: A orientação de certas rochas e a forma dos sulcos poderiam ser usadas para observar o sol durante os solstícios ou equinócios, ajudando os povos antigos a prever as estações do ano, essenciais para a agricultura e pastoreio.

4. A Ligação Atlântica e o Mito de Teseu O desenho de Mogor é quase idêntico ao "Labirinto Clássico" (ou Cretense). Isto levanta questões fascinantes. Será que a lenda do Minotauro e de Creta chegou à Galiza através de rotas comerciais de metais (estanho e cobre)?

* Proteção: Em muitas culturas antigas, o labirinto era gravado à entrada de locais para "prender" os maus espíritos, que ficariam perdidos no traçado e não conseguiriam entrar na comunidade ou nas casas.

5. Estados de Transe (Teoria Xamânica)

Alguns arqueólogos acreditam que estes padrões geométricos (espirais, círculos e labirintos) são "fenómenos entópticos" — imagens que o cérebro humano gera naturalmente durante estados de transe ou rituais xamânicos. Os artistas pré-históricos estariam a "gravar" na pedra o que viam durante as suas visões espirituais.