sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A Galiza desconhecida - 1 - Petróglifos de Mogor

Para além das torres da Catedral de Santiago e do bulício das praias das Rias Baixas, existe uma Galiza que pulsa num ritmo antigo e secreto. É um território de névoa e granito, onde a natureza se mantém indomável e as tradições se escondem em aldeias esquecidas pelo tempo. Partimos à descoberta duma Galiza desconhecida.

Começámos por Marin, a uns 7 km de Pontevedra, onde nos fascinámos com as formas circulares dos Petróglifos de Mogor, um dos conjuntos de arte rupestre mais emblemáticos e misteriosos da Galiza. São mundialmente conhecidos, sobretudo, pelas suas raras formas de labirinto. A peça central deste conjunto é a Pedra do Labirinto. Ao contrário da maioria dos petróglifos galegos, que costumam representar círculos concêntricos ou animais, este apresenta um desenho labiríntico circular complexo, de cerca de 42 cm.

Pedra do Labirinto

Este desenho é quase idêntico a labirintos encontrados em locais como a Cornualha (Inglaterra), o que reforça a ideia de que existiam rotas comerciais e culturais atlânticas muito ativas na Pré-história. Embora o seu propósito exato seja desconhecido, teoriza-se que possam ser símbolos religiosos, mapas estelares ou marcações de território.

Laxe dos Mouros

Além da Pedra do Labirinto, podemos observar, na Pedra dos Campiños, círculos concêntricos e "cazoletas" (pequenos buracos escavados na rocha). Na Laxe dos Mouros, vemos uma grande rocha com diversos motivos circulares e vestígios de figuras de animais.

Estima-se que estas gravuras tenham sido feitas entre o Neolítico Final e a Idade do Bronze (aproximadamente entre 2500 a.C. e 1500 a.C.). Estão situados numa encosta com vista para a Ria de Pontevedra, muito perto da Praia de Mogor. Esta localização privilegiada sugere que o mar tinha uma importância vital para os povos que ali viviam.

O significado dos labirintos de Mogor (e de outros semelhantes na Europa Atlântica) é um dos maiores enigmas da arqueologia. Como não existem registos escritos da Idade do Bronze, os investigadores baseiam-se em interpretações simbólicas, astronómicas e rituais.

Quais são as principais teorias sobre o que estes desenhos poderiam representar?

1. Metáfora Espiritual e Ritos de Passagem Esta é a teoria mais aceite por muitos historiadores modernos. Ao contrário de um "labirinto-armadilha" (onde nos podemos perder), o labirinto de Mogor é um labirinto unicursal: existe apenas um caminho que leva inevitavelmente ao centro e volta à saída.

* A Jornada da Vida: Pode representar o caminho da vida, a morte e o renascimento.

* Purificação: O ato de seguir o desenho com o dedo ou com o olhar poderia ser um ritual de meditação ou purificação antes de entrar num estado espiritual diferente.

* Iniciação: Poderia marcar um local onde os jovens passavam por rituais para se tornarem guerreiros ou adultos.

2. Mapas e Geografia Sagrada

* Rotas Marítimas: Dada a localização de Mogor (sobre a Ria de Pontevedra), alguns investigadores sugerem que os labirintos poderiam ser "mapas" simbólicos de correntes marítimas ou entradas de portos seguros, servindo como guias para os navegadores da Idade do Bronze.

* Marcadores Territoriais: Os desenhos poderiam sinalizar que aquela terra pertencia a um determinado clã ou que o local era um ponto de encontro importante para várias tribos.

3. Astronomia e Calendários

Alguns estudos sugerem que a geometria destes petróglifos não é aleatória:

* Movimentos Solares: A orientação de certas rochas e a forma dos sulcos poderiam ser usadas para observar o sol durante os solstícios ou equinócios, ajudando os povos antigos a prever as estações do ano, essenciais para a agricultura e pastoreio.

4. A Ligação Atlântica e o Mito de Teseu O desenho de Mogor é quase idêntico ao "Labirinto Clássico" (ou Cretense). Isto levanta questões fascinantes. Será que a lenda do Minotauro e de Creta chegou à Galiza através de rotas comerciais de metais (estanho e cobre)?

* Proteção: Em muitas culturas antigas, o labirinto era gravado à entrada de locais para "prender" os maus espíritos, que ficariam perdidos no traçado e não conseguiriam entrar na comunidade ou nas casas.

5. Estados de Transe (Teoria Xamânica)

Alguns arqueólogos acreditam que estes padrões geométricos (espirais, círculos e labirintos) são "fenómenos entópticos" — imagens que o cérebro humano gera naturalmente durante estados de transe ou rituais xamânicos. Os artistas pré-históricos estariam a "gravar" na pedra o que viam durante as suas visões espirituais.