sábado, 28 de setembro de 2019

Banguecoque e Laos - 8º dia

Despertar cedo para irmos à procissão dos donativos aos monges. Quando a pré-aurora desponta, os monges saem dos templos de Luang Prabang e percorrem ordeira e silenciosamente a rua Sakkaline onde os fiéis lhes dão arroz cozido e doces. Nesta ronda, os monges recebem a ração diária de alimentos. 






Tomámos o  pequeno-almoço junto ao rio Mecong. Experimentei khao piak khao (porridge de arroz com ovos), uma canja de galinha muito espesso com tiras de ovos fritos. 
Às 10h20 partimos Mecong acima até às caves de Pak Ou onde chegámos às 12h05. 
A viagem - infelizmente muito barulhenta por causa do motor -  é muito bonita graças às altas colinas cobertas de vegetação no meio das quais corre o rio. De quando em quando uma aldeia de pescadores donde se eleva uma coluna de fumo das lareiras onde se cozinham as refeições. Junto ao rio homens pescam ou reparam as redes e mulheres lavam a roupa e aproveitam para tomar banho. 

Paragem a meio do trajeto para pôr combustível. Durante muito tempo condutor olhou para trás desconfiado de que alguns ervas do rio se tivessem enrolado - e nós a temer ficar parados no meio do rio. 
São duas as caves de Pak Ou. Não se Um abraço ao certo desde quando são usadas. Há registos do século XV onde já se fala das caves como importante centro de peregrinação. 
A cave inferior - tham thing- de fácil acesso a partir do barco tem ainda centenas e centenas de estátuas de Buda de todos os tamanhos - de alguns centímetros a 1,5 m - que bem atestam a religiosidade dos pessoas. 
Ligada por uma escada com 240 degraus, está a cave superior - tham phoum - que além das centenas de estátuas de Buda tem igualmente uma stupa. A escuridão dentro da cave é total - apesar de haver fios elétrico um holofote -, pelo que uma lanterna é essencial. 


No caminho de regresso a Luang Prabang, o condutor do barco parou na aldeia de Sang Hai, que significa “fabrico” (sang) de recipientes  de barro (hai). Esta aldeia é famosa pela sua aguardente de arroz, que os aldeões chamam “whisky de arroz”. 


É preciso ter tempo, como tudo no Laos. Primeiro o arroz gomoso fica a fermentar num recipiente de barro durante duas semanas. Só depois é destilado. O produto obtido tem 50% de graduação alcoólica! A bebida só fermentada sem destilação só tem 15%. A aldeia vive do artesanato - fiação de linho e algodão, tecelagem e bordado - e respectivo comércio. 
Mas a grande sensação do regresso foram os elefantes que vimos passeando à beira rio.


Terminámos o passeio com um belo almoço tardio à beira rio: crepes fritos, carne de vaca agridoce, legumes salteados e camarão frito estaladiço. 
No caminho para o hotel ouvimos uns sons de tambor. Fomos ver. Uns cinco monge budistas estavam a bater vigorosamente  num tambor deitado , por ordem cronológica de nascimento. Era precisa muita força para o fazer e o mais pequeno, talvez com 9 - 10 anos, brilhava de suor ao bater com força e em ritmo rápido num tambor que era o quádruplo dele. 


O pôr do sol foi, como não poderia deixar de ser, no cimo do monte Phu Si, que se eleva no meio da cidade. Não fomos só nos que tivemos essa ideia. Após subirmos os 328 degraus, ficámos boquiabertos ao ver imensa gente no cimo do monte - entre as pessoas, estudantes das escola de Lusang Prabang que vão até para praticar o Inglês com os estrangeiros. Uma ótima ideia! Perguntam educadamente se podem falar connosco. os diálogos que se seguem dependem do grau de conhecimento dos alunos.


segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Banguecoque e Laos - 3º dia

Hoje de manhã ao passearmos pela cidade já não havia nem ratazanas nem lixo.
Fomos dar uma volta no rio, no "autocarro", leia-se, barco público. O céu estava escuríssimo, a ameaçar muita chuva - com forte chuvada concretizada. É natural estamos na época da chuva.
Banguecoque tem exemplares interessantíssimos e arquitetura moderna, ao lado de edifícios antigos. E, por todo o lado, pequenos santuários.






 A embaixada de Portugal fica mesmo junto ao rio. É a embaixada mais antigo do país.
Bandeira de Portugal na embaixada de Portugal






O passeio de barco teve alguns obstáculos pois está a ser ensaiado passeio real de barcaças e havia alguns trocos do rio que estavam fechados. Mas valeu a pena na mesma.  

templo Wat Arun


domingo, 22 de setembro de 2019

Banguecoque e Laos - 2º dia

1º voo: Lisboa - Dubai EK194
21h15 - 7h40
Check-in muito relaxado. Foi chegar, entregar a mala e seguir. 
O voo partiu ligeiramente atrasado (só partimos às 21h38) mas recuperou , tendo chegado ao Dubai às 8h. 
Voámos os 6 143 km que o Dubai fica de Lisboa em 7h15 num Boeing 777. 
Para o jantar houve escolha entre frango em molho de tomate e salmão. Escolhi o salmão, mas antes - claro- um gin tonic para aperitivo. 
Por causa de grande turbulência ao sobrevoarmos o Mediterrâneo na zona da Sicília, o serviço de bebidas após a refeição foi interrompido. Achei muito simpático, quando passou uma hospedeira após a turbulência e lhe pedi se me traria um copo de água, e ela tira uma embalagem de água do bolso e me dá de imediato. Simpático e previdente. 
O final da noite foi terrível. Um desassossego como nunca vi noutra companhia aérea. Uma hora e meia antes de aterrar, ainda com a luzes apagadas, o pessoal de cabina começa num frenesim a recolher almofadas, depois os cobertores, a seguir os auscultadores. Muito desagradável. E quando perguntei porque recolhiam cobertores e almofadas antes da aterragem, a hospedeira respondeu que não sabia, que estava a fazer o seu serviço, a cumprir ordens! Resposta idiota mas com um lindo sorriso rasgado e delineado com batom vermelho! O pior que uma empresa pode ter são funcionários/robôs que efectuam tarefas sem saber a razão. 
Achei engraçado aparecer nos monitores, assim que aterrámos, um mini-inquérito sobre como foi o voo. 


Transbordo no Dubai 
Uma mudança de avião muito suave, apesar de o aeroporto continuar em obras (parecem as obras de Santa Engrácia). A passagem pelo controlo foi sem problemas. E foi o tempo necessário e sem pressas de ir de um aviso para o outro, passando até pelo Duty Free. 
O único senão: todas as casas de banho cheias, com filas a sair da porta. É muita gente sentada no chão, dando a impressão de que não assentos suficientes. 

2º voo: Dubai - Banguecoque EK 372
9h50 - 19h15
O A380, onde estamos, é muito espaçoso e cheio de luz. Os assentos são maiores do que os do Boeing 777. 
Vamos ter duas refeições: o pequeno almoço logo após a descolagem e naus tarde o almoço. Ao contrário do voo anterior onde nos foi servido primeiro o jantar e depois o pequeno-almoço. 
O pequeno-almoço foi horrível. Um folhado mole, frio de frigorífico, com um doce que não sabia a nada. Mas o voo foi muito agradável, relaxante, com muito espaço. 
O almoço já foi melhor, mas longe de ser “uau”! O chardonay servido era bom mas deveria estar mais fresco. 
No aeroporto estava à nossa espera a senhora ao serviço da embaixada, que depressa nos trouxe até ao hotel. 

10 minutos depois de chegarmos já estávamos de novo na rua. 
Silom Road. Tailândia a cumprir as características de país de turismo sexual. Ao pé do hotel há um night market. Perguntámos na recepção onde poderíamos jantar. A recepcionista aconselhou-nos o night market pois aí também haveria barraquinhas de comida. Lá fomos. Mas o que ali tavuá era muitos, mas muitos bares de dança de varão ...  As meninas, vestidas de cuequinhas e soutien, faziam as pausas na rua... Resolvemos ir para a rua paralela. Eram bares de strip de homens, que também faziam as pausas nas ruas vestidos de boxers pretas e camisolas interiores sem mangas, brancas. 
Como não encontrámos o que procurávamos, regressámos ao hotel. Chovia bem mas achámos que conseguiríamos beber uma cerveja e petiscar no roof topbar do hotel, no 20º andar. Chovia muito. O empregado não estava com vontade que ali ficássemos. Sugeriu que pedíssemos room Service. Havia um único cliente que era... tuga, tb acabado de chegar e nós disse que tinha comido perto do hotel. Voltámos a sair e encontrámos o Mama Mia, um fantástico restaurante de rua com peixe e marisco. No regresso ao hotel, a rua estava apinhada de.... ratazanas, enormes, que comiam dos muitos montes de sacos do lixo.  Enfim, um começo como eu gosto. 









sábado, 21 de setembro de 2019

Banguecoque e Laos - 1º dia - Falar sobre Portugal na Tailândia

Portugal e Tailândia têm longos laços de amizade forjados ao longo dos séculos desde 1511.

Nesse ano, Afonso de Albuquerque zarpou de Goa com uma esquadra de 1 200 homens para atacar Malaca, uma cidade estado muçulmana. Conquistou a cidade em agosto desse ano, tendo estabelecido a primeira colónia europeia no Oriente e começando relações diplomáticas em Sião. Em 1518 foi assinado um tratado com o rei siamês, no qual este iria ajudar os Portugueses a afastar os muçulmanos de Malaca e a substituir os mercados árabes por portugueses.
E temos a Maria Guiomar da Pynha que deixou na Tailândia o gosto pelos doces de ovos.
Para falar de tudo isto fui convidada pelo Instituto Camões e pelo AICEP. E assim, parto hoje para Banguecoque, onde já estive em 2007, para fazer duas conferências: uma para os alunos de Português sobre lendas e comida e outra sobre a globalização dos alimentos começada pelos Portugueses para um grupo de investidores e possíveis importadores de bens alimentares portugueses.
A viagem é longa, pois Banguecoque está a mais de 10 km de distância de Lisboa. Vou viajar na Emirates: primeiro 7h10 de Lisboa ao Dubai e o segundo voo de 6h35 do Dubai a Banguecoque. 

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Berlim é sempre entusiasmante




Gosto de visitar cidades novas mas também gosto de voltar a cidades que já conheço bem. Dão-me a liberdade de passear sem destino, deixar-me ir ao sabor do vento, descobrindo ruelas, recantos, jardins e dando-me tempo para observar as pessoas com que me cruzo.
Daí ter passado um relaxante fim de semana em Berlim, uma cidade onde já estive vezes sem conta.
Desta resolvemos escolher um hotel diferente daquele onde sempre ficamos. A nossa escolha recaiu sobre o Pestana Tiergarten. A marcação teve vários problemas: o sistema fazia a marcação mas informava que o contrário. Tentávamos de novo. E acontecia o mesmo. Finalmente conseguimos uma marcação. Só que, quando fomos ver a nossa caixa de correio, tínhamos vários e-mails de reservas efetuadas e pagas! Felizmente o Apoio ao Cliente resolveu o assunto .. pensámos nós. Ao fazermos o check-in, tínhamos ainda dois quartos. O funcionário assegurou-nos que nos iriam devolver o dinheiro. E assim aconteceu.
Apesar de este percalço, gostei do Pestana Tiergarten, um 4 estrelas com alguns serviços de hotel de 5 estrelas, como por exemplo acesso gratuito à piscina, sauna e banho turco.
O quarto é espaçoso, com casa de banho com janela para o quarto que lhe permite ter luz natural. Tem chaleira e uma oferta de chá de qualidade.



A localização é fantástica. Estamos a uma boa meia hora a pé do centro (quem não gostar de andar a pé, que é, para mim, a melhor maneira para conhecer uma cidade, pode alugar uma bicicleta) e a 5 minutos do Ku’damm. Mesmo em frente do hotel é a paragem do autocarro 200 que dá para fazer uma volta à cidade a preço normal de autocarro.
Sabemos que „todos os caminhos vão dar a Roma“, neste caso, ao centro de Berlim. Tanto podemos ir pelo parque Tiergarten como passeando ao longo de um dos canais do rio Spree (em Berlim há inúmeros canais que ligam os rios Spree e Havel).
Logo ao pé do hotel está o Museu e Arquivo Bauhaus, que infelizmente está a passar por um momento de reconversão que parece não agradar a ninguém. Como nos disse um residente da zona que passeava o seu cão à beira canal. Contente de termos começado a falar com ele, desafiou  o seu terço de reclamações contra a autarquia e a direção do museu. Nós tivemos a sorte de ter encontrado a pessoa certa: o senhor era  um dos  membros da comissão de moradores contra a renovação do museu.
Seguimos caminho e vemos a fachada de um belo edifício em estilo neo-renascimento. Aproximámo-nos. Era a sede do Centro Científico de Berlim para a Investigação Social (WZB) que funciona no antigo  edifício dos seguros do Reich, construído em 1894. Parcialmente destruído durante a 2ª Grande Guerra foi reconstruído no final dos anos setenta do século XX pelo arquitecto inglês James Stirling em estilo pós-moderno. Este instituto é o maior organização científica europeia, totalmente independente de universidades, tendo sido fundado em 1969 por iniciativa de deputados do SPD e do CDU. Atualmente trabalham no instituto 140 investigadores alemães e estrangeiros.

Museu da Espionagem
Em breve chegámos ao Museu da Espionagem, na Praça de Leipzig. No local onde  até 1989 passava o muro que dividia Berlim, nasceu há quatro anos o Museu da Espionagem que nos dá uma visão do mundo escondido dos espiões. Nós que de espiões só conhecemos o 007 e outras personagens de ficção, podemos ali aprender muito deste mundo sempre envolto em mistério. Um a profissão existe desde que existe o mundo. E a evolução da profissão ao longo dos séculos até aos nossos dias com os espiões digitais, a espionagem industrial, as fake news, o roubo de identidades.
 
O inimigo está a ouvir

Museu das Comunicações e as comemorações dos 150 anos do bilhete-postal
Depois da espionagem onde tudo é  escondido fomos visitar uma exposição de um objeto do dia-a-dia que é oposto. De mistério nada tem! A exposição comemorativa dos 150 anos do bilhete-postal. É de tal maneira um objeto aberto que em 1865, quando Heinrich von Stephan, propôs aos correios do Reich alemão o Postblatt, uma forma mais informal de contacto  postal, a ideia foi recusada … por ser uma ameaça à privacidade!
O que uns desprezam, outros aproveitam. Os correios austro-húngaros gostaram da ideia e a 1 de outubro de 1869 lançaram o 1º bilhete-postal. Os alemães renderam-se ao novo formato, tendo lançado os seus postais a 25 de junho de 1870. No 1º dia de circulação, venderem-se 45 mil bilhetes-postais!
A adesão foi tão grande que, durante a Guerra Franco-Prussa, entre 1870-71, foram enviados 10 mil milhões de postais! Era a maneira mais rápida que so soldados tinham para dar um sinal de vida.
Já agora, só para informação, em Portugal, o 1º bilhete postal foi enviado a 1 de novembro de 1878.

Nos anos 70 do século XX não havia viagem que não incluísse o envio de uma série de postais ilustrados do destino aos familiares e amigos.
Com a massificação da da informática e  das técnicas de comunicação por telemóvel, o correio particular diminui, incluindo o envio de bilhetes-postais.

Filarmónica de Berlim
Tivemos a sorte de estar em Berlim quando a Filarmónica de Berlim apresentou ao público o seu novo maestro, o russo Kirill Petrenko.
Quando aceitou o cargo, pediu que no concerto de apresentação houvesse muito público. O pedido foi levado a sério pela administração: o concerto teve lugar na chamada “Fanmeile”, o local onde as massas se costumam reunir para ver grandes jogos de futebol, começando nas Portas de Brandeburgo e indo pela Rua do 17 de Junho.
Se Kirill Petrenko  queria ter muita gente, conseguiu-o: 35 000 pessoas escutaram em silêncio como se estivessem numa sala de concertos a 9ª Sinfonia de Beethoven, tocada pela Filarmónica de Berlim! Um êxito para os músicos e uma noite fantástica para os espectadores.



segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Romaria da Senhora da Agonia: A rainha das festas portuguesas

Ao longe já se ouvia o ribombar dos bombos. Quando chegámos à Praça da República em Viana do Castelo o barulho era ensurdecedor. Centenas de pessoas acotovelavam-se à volta do secular chafariz para ver os gigantones, os cabeçudos e os Zés Pereiras, não se incomodando com o barulho. Festa é festa e não há festa como a Romaria da Senhora da Agonia.
Em Portugal, o culto à Virgem Maria com o título de Senhora da Agonia, padroeira dos pescadores locais, surgiu em 1674 quando a imagem da Senhora da Agonia entrou na Capela do Bom Jesus do Santo Sepulcro do Calvário em Viana do Castelo.
Em 1772 começou a romaria anual, nascida da devoção dos homens do mar vindos da Galiza e de todo o litoral português, e que incluía celebrações religiosas e pagãs. Mais tarde, em 1783, a Sagrada Congregação dos Ritos (conhecida agora como Capela de Nossa Senhora da Agonia) permitiu que fosse celebrada nesta capela uma Missa Solene, todos os anos no dia 20 de agosto.
Em 1906, começou a ser incluída nesta romaria a Festa do Traje que se transforma, em 1908, numa Parada Agrícola que deu lugar ao atual Cortejo Histórico-Etnográfico. A partir de então a romaria deixou de estar limitada ao Campo da Agonia e invadiu toda a cidade de Viana do Castelo.

Atualmente as Festas da Senhora da Agonia têm uma duração de uma semana. Todos os dias, ao meio-dia, doze morteiros misturam-se com ribombar característico dos bombos, dando início à Revista de "Gigantones e Cabeçudos", onde se juntam mais de 200 tocadores de bombos e duas dezenas de figuras.




Os pontos altos que levam os espectadores ao delírio são os vários despiques entre tocadores de bombos e gaiteiros. No momento de despique entre todos os grupos de bombos, o som ouve-se em praticamente toda a cidade, chegando por exemplo até Darque. É gigantesco o esforço despendido durante o despique, chegando um tocador de bombo a perder entre 800 a 1.000 calorias! 








Um bombo grande pode pesar cerca de 12 quilogramas e um gigantone três vezes mais. Por isso, durante os vários desfiles, os gigantones têm de parar a sua vertiginosa dança à roda e ser pousados para os homens que os carregam poderem repousar – e acima de tudo, apanhar ar e beber água.


Na véspera do principal cortejo, o Desfile Histórico-Etnográfico, ao final da tarde, tem lugar o Desfile da Mordomia, durante o qual mais de 400 mulheres desfilam pelas ruas de Viana do Castelo, envergando os trajes típicos da cada freguesia. Atualmente, o Desfile da Mordomia simboliza um “cumprimento” da organização da Romaria d’Agonia às entidades oficiais.
As mordomas desfilam orgulhosamente pelas principais artérias da cidade, sempre acompanhadas pelos bombos, pelos gigantones e pelos cabeçudos e enchendo-se da típica “chieira” para mostrarem diferentes trajes e peças de ouro seculares – algumas mordomas chegam a carregar dezenas de quilos de ouro, reunindo as peças de família e amigos num único peito - estimou-se em cerca de 14 milhões de euros o valor das centenas de quilos de peças de ouro usadas pelas mordomas neste desfile.

É uma tradição que passa de mães para filhas. Há mordomas que desfilam continuamente neste quadro da Romaria d’Agonia há mais de 50 anos
No sábado das Festas realiza-se o famosíssimo desfile histórico-etnográfico, admirado por milhares de pessoas vindas de todo o mundo, no qual, num percurso de 2.300 metros ao longo das ruas da cidade, as freguesias do concelho mostram o seu melhor à cidade e aos forasteiros.
Com mais de 3 000 participantes, o cortejo é um verdadeiro museu vivo. Através de uma centena de quadros e dezenas de carros alegóricos, atualmente puxados por tratores mas antigamente por juntas de bois, mostram a História de Viana do Castelo e os seus usos e costumes.
Durante o desfile, os participantes atiram para o ar grãos e espigas de milho, distribuem, em andamento, pedaços de broa, rodelas de chouriça, azeitonas ou mesmo copinhos de vinho verde tinto.
Este ano, tiveram especial destaque as comemorações do 60º aniversário do Santuário de Santa Luzia, cuja construção foi começada em 1904 e só terminada em 1959. O responsável pelo projeto foi o arquiteto Manuel Terra Ventura. O longo período de construção deveu-se ao facto de a 5 de outubro de 1910 ter sido implantada a República. A consequente Lei da Separação do Estado da Igreja foi outro obstáculo que surgiu. Finalmente as obras foram retomadas em 1926, sob a direcção de Miguel Nogueira. 
A sua instituição deve-se ao Capitão de Cavalaria Luís de Andrade e Sousa que, tendo um grave problema de visão, pede auxílio a Santa Luzia, advogada da vista e cujo atributo são os seus olhos dispostos numa bandeja. Tendo ficado curado, agradece a graça recebida com a construção de um santuário no local da antiga pequena ermida medieval dedicada.
Do cimo do monte tem-se uma espetacular vista soberba de 360º sobre a região.
Em 1923 foi inaugurado o Elevador de Santa Luzia, conhecido como Funicular de Santa Luzia, que liga a cidade ao santuário.










sexta-feira, 19 de julho de 2019

O castelo de Dover





Estávamos a passar uns dias em Kennington, no sul de Inglaterra, e procurámos no FaceBook “Eventos grátis perto de ti”. A primeira sugestão que nos saltou foi “Jubileu 50. Castelo de Dover”. Entrada gratuita – o preço normal para adulto é de £20.90 (€24). Só havia duas condições: “comprar” os bilhetes e chegar até às 11h15. Achámos que era uma maneira fantástica de visitar gratuitamente o castelo de Dover e nem fomos ver de que se tratava. Calculámos – erradamente como verificámos depois – que “Jubileu 50” seria algo relacionado com algum jubileu da Rainha Isabel. E como já há muito tempo queríamos ir visitar o castelo, pensámos que este seria o momento indicado.
No domingo partimos para Dover logo depois do pequeno-almoço. Junto ao castelo seguimos a indicação “Jubileu 50”, estacionámos sem problemas e logo se aproximou de nós um senhor que nos perguntou se já tínhamos os autocolantes. Respondemos-lhe que tínhamos os bilhetes. E ele deu-nos quatro autocolantes. Ao recebê-los estranhei terem o desenho de uma cruz e de um livro aberto. Mas mais nada pensei. Mais intrigada fiquei quando, à entrada do castelo, nos perguntaram se vínhamos para a missa. Missa? De repente começámos a perceber tudo: o Jubileu 50 era a festa do 50º aniversário da ordenação de um padre que trabalhou em diversas dioceses e na paróquia de Dover. Agora tínhamos o puzzle completo! No largo interior estava montado um altar e muitas cadeiras para a missa. Tivemos assim uma visita a este castelo medieval com apoio espiritual.
O castelo, conhecido como a "Chave da Inglaterra", devido à sua importância defensiva ao longo da história, foi construído no século XII. No entanto as suas origens são romanas, havendo ainda as ruínas de um farol romano de 24 m de altura, que terá sido construído por volta do ano 43 a.C.. É um dos três faróis romanos no Reino Unido que ainda perduram até hoje.
o farol romano
O local onde mais tarde foi construído o castelo era um dos primeiros pontos de entrada dos normandos na ilha. Depois da Batalha de Hastings a 14 de outubro de 1066, Guilherme o Conquistador e o seu exército marcharam até à Abadia de Westminster para a sua coroação.
Logo marcharam para Dover, que foi referido inexpugnável e defendido por uma grande força. Os ingleses, cheios de medo ao vê-los aproximarem-se, não tinham confiança nas suas muralhas, nem na força natural do local, nem no número de suas tropas [...] Enquanto os habitantes se preparavam para se render sem condições, nossos homens, ansiosos pelo espólio, atearam fogo à fortaleza que imediatamente foi tomada pelas chamas. [...] Depois de tomar posse do castelo, o duque passou oito dias acrescentando novas fortificações.
Calcula-se que o cronista se estivesse a referir a novas fortificações feitas num forte saxão ou mesmo num burgo construído à volta da igreja saxónica de Santa Maria em Castro, embora as evidências arqueológicas sugiram que terá sido feita uma nova fortificação.
Henrique II (1133 – 1189) começou a construção do atual castelo na década de 1180. A torre de menagem é desta época, tendo sido uma das últimas a serem construídas em quadrado. Desde então o castelo tem sido adaptado para fazer face à evolução do armamento e até da arte da guerra.
Em 1216, um grupo de nobres rebeldes incentivou Luís VIII da França a usurpar a coroa inglesa. O rei francês tentou tomar o castelo, cercando-o, mas o seu ataque não teve êxito. Após esta tentativa de tomada do castelo, o vulnerável portão norte tornou-se uma passagem subterrânea para o complexo defensivo e novas portas externas foram construídas na parte oeste e leste. Durante o cerco, os ingleses cavaram um túnel para o exterior e atacaram os franceses, criando assim o único túnel de contra-ataque do mundo.
Durante as guerras napoleónicas no final do século XVIII, o castelo sofreu grandes obras para melhorar as defesas. Uma das grandes obras foi a remoção do telhado da torre, que foi substituído por abóbadas de tijolo. Assim, pôde instalar artilharia pesada no telhado. Como Dover se tornou o local para o acantonamento das tropas, houve que construir quartéis e armazéns para aquelas tropas e seus equipamentos. A solução adotada foi a criação dum complexo de quartéis e túneis 15 metros abaixo dos penhascos, onde chegaram a estar alojados 2 000 soldados! São os únicos alojamentos subterrâneos construídos na Grã-Bretanha.
No final das guerras napoleónicas, os túneis foram parcialmente convertidos e usados pelos serviços costeiras no combate ao contrabando. Durante a II Grande Guerra os túneis foram convertidos em abrigo antiaéreo e depois num centro de comando militar e hospital subterrâneo. Em maio de 1940, o almirante Sir Bertram Ramsey dirigiu a evacuação de soldados franceses e britânicos de Dunquerque, a famosa Operação Dynamo, a partir desses túneis. A sua utilização foi tão intensa que foi necessário construir um novo túnel.
Depois da Guerra, os túneis foram usados com bunker em caso de ataque nuclear. O plano foi abandonado quando se percebeu que a pedra usada na construção – giz – não oferecia proteção à radiação.



quarta-feira, 17 de julho de 2019

A anta de Monte Abraão


Muitas vezes conhecemos o mundo inteiro, mas não sabemos o que está ao virar da esquina da nossa casa. Foi um pouco o que me aconteceu. Desde que moro em Queluz que sabia que havia uma anta no Monte Abraão. Há muitos anos quis lá ir com os meus filhos, mas, na altura, aconselharam-me a não ir porque a zona não seria recomendável.
Finalmente hoje, procurei a anta no mapa do Google, calcei os meus ténis e meti-me a caminho. Segundo o mapa, a anta estaria a 1.8 km da minha casa. 28 minutos a andar. Metade do caminho fez-se bem. Graças ao novo eixo verde-azul seguimos sempre paralelo ao rio Jamor. Mas a meio do caminho começou o troço mais difícil: a estrada é muito, mesmo muito inclinada até chegarmos ao cimo do monte. Para piorar a situação, o vento era muito forte, tendo algumas vezes dificuldade em nos mantermos de pé.
Até que chegámos ao final da zona de casas e à nossa frente só tínhamos o “monte dos vendavais”. No cimo, os postes de alta tensão assobiavam. E o vento era ainda mais forte, ali no cimo do monte. Sem nada a prendê-lo, podia soprar à vontade, fazendo os fios dos cabos de alta tensão assobiarem ainda com mais força.
Metemo-nos pelo descampado. Num caminho de cabras que passa mesmo por debaixo dos cabos de alta tensão. Os campos magnéticos debaixo desses cabos são forte. O meu telemóvel “morreu” apesar de ainda ter mais de 50% de bateria e eu senti-me muito tonta, a cambalear.
Até que por fim lá vimos as pedras ainda existentes da anta. Foi em 1876 que este monumento funerário foi descoberto pelo engenheiro militar e geólogo Carlos Ribeiro. As suas escavações sugerem que serviu de túmulo para 80 pessoas e que deve ter sido erigido em meados/finais do Neolítico, entre o ano 4000 e 2500 a.C. A anta foi constituída por uma câmara com 3,6 metros de diâmetro, e um corredor com 2 m de largura e 8 de comprimento, orientado a Este. As pedras usadas na construção deste monumento funerário foram trazidas dos arredores. O solo também foi convenientemente preparado para a edificação do dólmen. As escavações realizadas na Anta do Monte Abraão forneceram uma indústria típica muito variada constituída por placas de xisto, cilindros de calcário, pontas de seta, cerâmica e ossadas humanas.
Esta necrópole terá tido três sepulcros. A anta que ainda se pode ver terá tido seis esteios (pedras verticais) assentes diretamente na rocha. O chapéu, a laje de cobertura, já não existe. Segundo o arqueólogo Vergílio Correia Pinto da Fonseca haveria pinturas rupestres na superfície no esteio maior da cabeceira, que eu não pude confirmar. Estes desenhos teriam carácter antropomórfico, representando um elemento masculino e um elementos feminino.  No local terão igualmente sido encontrados vários objetos como cabeças de flechas, cerâmica, ferramentas de pedra, que poderão ser vistas no Museu Geológico.
Apesar de estar classificado este dólmen está praticamente abandonado. Veremos se não se estraga..