segunda-feira, 22 de março de 2021

Caminhadas pela Serra de Belas e Serra da Carregueira

O confinamento e a proibição de sair do concelho fez-nos puxar pela imaginação e descobrirmos a nossa própria freguesia. Há uns anos a nossa freguesia de Queluz juntou-se à de Belas e agora moramos na União de Freguesias Queluz e Belas.



Aqueduto 


Para darmos passeios noutros sítios que não as eternas matas da JAE e da matinha de Queluz, procurámos no mapa Google outras zonas verdes. Descobrimos assim a Serra de Belas, que na realidade se chama Serra da Carregueira. Há muitos trilhos que cortam a Serra da Carregueira. Num primeiro sábado estacionámos junto ao cemitério de Belas. Seguimos por um carreirinho. Primeiro obstáculo: uma ponte muito artesanal sobre um riacho (um braço do Jamor?) cujos acessos eram um tapete de lama escorregadia, a parecer manteiga derretida. Sem termos caído, continuámos e entrámos na mata de Belas. Logo depois chegámos ao Aqueduto de Belas, um dos aquedutos secundários que levam a água até ao Aqueduto das Águas Livres e que em parte aproveitam o aqueduto romano. Todo o caminho está ladeado de mimosas, a florir nesta época. Mimosas atraem abelhas e assim o nosso passeio teve música de fundo: o zumbir de milhares de abelhas. Um pouco mais à frente, numa eira, estão instaladas muitas colmeias dum apicultor local. Deve ser muito bom este mel. 

Continuámos até ao ponto mais alto serra, a 334 metros. Do cimo da torre de observação a paisagem é espetacular, podendo até ver-se o estuário do Tejo!

A torre de vigia

 


No dia seguinte voltámos a deixar o carro no cemitério e fomos para o lado oposto. Queríamos ir pela Quinta da Fonteireira mas.. chapéu! O portão estava fechado e com muitos, sim, muitos avisos de “Propriedade privada. Proibida a estrada”. Percebemos que não nos queriam lá dentro. Atravessámos então a estrada e seguimos em direção à Casa dos Lobos, igualmente fechada. Logo a seguir um riacho dificultava a passagem. Tinha chovido muito nos dias anteriores e o riacho estava um ribeirinho. Umas pedras, algumas delas bastante movediças, faziam um caminho, mas que apesar de tudo ainda deixariam os sapatos molhados. Não quis arriscar ficar com os ténis todos molhados logo no início da caminhada, descalcei-os e fui pelo meio da água. Chegada ao outro lado, sequei os pés nas calças de treino, calcei os sapatos e segui.

Chegámos a um portão que estava aberto. Na parede lateral um aviso de Propriedade privada. Mas vi um casal a passear um cão que não me pareceram serem os donos. Perguntei se poderíamos entrar e usar os trilhos. Disseram-nos que sim, que os donos não se importavam. Passámos então o portão. Um pouco mais ao fundo, um grande portão, fechado. Estávamos na Quinta do Bomjardim. De origem quinhentista, aqui se reunia, sob os auspícios dos condes do Redondo e Vimioso, a elite cultural dos séculos XVIII e XIX. A propriedade terá sido adquirida em 1587, edificando-se então a casa ao gosto renascentista. O pátio de entrada, de grandes dimensões, é antecedido por um arco de cantaria, encimado com o brasão dos Sousa do Prado, de época posterior. Não vimos nem o interior da casa, nem a capela com os seus painéis, alusivos à Paixão de Cristo, e com a Última Ceia, de barro cozido policromado, de Machado e Castro (século XVIII) – e que esteve em exposição ao público na Expo 98 - , nem os jardins em estilo francês que se desenham a partir da casa principal, em patamares de labirintos de buxo, organizados geometricamente em função dos tanques e fontes. Parece que dentro da propriedade ainda existe os restos de uma calçada romana.

Na semana seguinte, seguimos outro caminho. No final da descida que fizemos depois do estacionamento vimos a Fonte da Bica


Fonte da Bica

Depois, tomámos o caminho em frente da fonte. Passámos pela Old House

Old House


e depois caminhámos um pouco paralelo à Ribeira da Fonteireira. As águas cantavam, límpidas corriam por entre tufos de ervas. Um pequeno passadiço de pedras leva-nos ao outro lado da ribeiro, onde está uma mina de água. Será que é a mina de água já referida em 1892, por Alfredo Luís Lopes na obra "Le Portugal Hydrologique"?“na Quinta de Janses, existe uma grande profunda mina de água férrea, que borbulha de uma rocha de quartzo e pirite…” 

Mina de água



O dia está lindo. Parece que todos os  passarinhos se juntaram para, chilreando, louvar o dia maravilhoso que estava. As abelhas zumbem à volta das mimosas em flor, dum amarelo tão forte que fazem lembrar o sol. Borboletas amarelas e brancas esvoaçam à nossa volta e acompanham-nos em parte do nosso caminho, feito com muitas raízes de árvores e arbustos e com muitas pedras antigas que não sabemos se foram colocadas por mão humana ou se ali surgiram. 




Vista do cimo de um dos cabeços


Cogumelos






domingo, 14 de março de 2021

Da Praia Grande à Praia da Adraga pelas falésias

 

Praia Grande, vista da falésia dos dinossauros

O plano para hoje era um 8: deixar o carro estacionado na ponta sul da Praia Grande, junto à ENORME escadaria mesmo junto à falésia com as pegadas dos dinossauros, ir até à Praia da Adraga, voltar, descer a escadaria e fazer toda a Praia Grande (que não é tão grande assim).



O caminho é muito bonito porque é sempre no topo da falésia. É muito engraçado ver a Praia da Adraga do cimo. Tem-se uma perspetiva diferente, mas mantém toda a beleza. Lembras-te daquele rochedo com uma fenda ao meio, mesmo em frente ao restaurante? Há imenso rochedos de diversas formas isolados das arribas, já meio perdidos no mar, parecendo que estão à deriva no Atlântico. É uma prova geológica de como a erosão tem sido agressiva por aqui. Descemos até ao parque de estacionamento… para depois voltar a subir. Claro que a subida exigiu mais fôlego e mais trabalho de pernas…

Praia da Adraga, vista da falésia


Quando chegámos de novo ao carro (tínhamos feito metade do 8), estávamos no topo da dita escadaria da ponta sul da Praia Grande. Um grande cartaz informa quer é proibido circular por haver perigo de derrocada. A escadaria de 335 (!) degraus - exige fôlego para se subir (mas agora não é possível fazê-lo) está mesmo encostada à arriba, uma enorme parede de quase 100 m de altura, praticamente na vertical. Nesta arriba, uma rocha sedimentar calcária, há 66 pegadas de dinossauros. Há cerca de 120 milhões de anos havia neste local uma planície onde ficaram marcadas as pegadas nestas rochas sedimentares. Quando há cerca de 80 milhões de anos irrompeu o maciço da Serra de Sintra, estas rochas dobraram-se e ficaram quase na vertical mostrando as pegadas de dinossauros (saurópodes e terópodes).

Pelas falésias da Adraga

 Não queríamos ir contra a lei que proíbe a saída do concelho mas queríamos fazer uma caminhada junto ao mar. Temos a sorte de haver praias no concelho de Sintra e assim podermos fazer caminhadas na ou junto à praia sem infringir a lei. O plano era ir da praia da Adraga até à praia Grande sempre pelo topo da falésia.

O plano era deixar o carro no estacionamento ao pé do restaurante da praia da Adraga e depois caminhar. Mas a meio da descida para o restaurante, a estrada estava bloqueada… calculamos para impedir que as pessoas fossem à praia. Junto à rede que estava a fechar a estrada, já havia vários carros estacionados. Decidimos então também deixar o nosso. E em vez de seguirmos em frente à praia da Adraga, resolvemos subir o caminho que estava mesmo à nossa esquerda e que tinha uma seta a dizer “Cabo da Roca – 3200 m”. O Cabo da Roca? Será que se poderia chegar,  a pé, pelas falésias da Adraga ao cabo da Roca?!

Lá subimos o íngreme caminho. Muito vento. Mas mais vento houve quando chegámos ao topo, ao cima da falésia. Aí sim, o vento era agreste, frio e forte. Lembrei-me que há largos anos também tínhamos subido ao topo da falésia e que tínhamos visto um poço muito fundo com uma ligação mar. Lá estava ainda. É o Fojo dos Morcegos. Agora todo protegido para que ninguém lá caia abaixo.  Mas fojo? Nunca tinha ouvido a palavra. Fui então ao dicionário. “O Fojo é um abismo aberto na rocha de onde se pode observar no fundo a agitação das ondas.”

Fojo dos Morcegos


Como aquelas pedras são de origem calcária, vão abrindo frechas e falhas pela ação corrosiva da água da chuva, conjugada com a ação erosiva das ondas, que originam poços e cavernas, afunilados e profundos, até chegarem ao nível do mar. Este fojo é tão profundo (90 metros!!!!) e tão escuro que recebeu o nome de Fojo dos Morcegos. Há muitas lendas.

Crê-se que no fundo do Fojo dos Morcegos está uma nereida a cantar.

Uma outra lenda, do tempo dos romanos, diz-nos que os Romanos acreditavam existir um Tritão a tocar búzio no fundo do Fojo - mas na realidade, o que se ouve são as ondas a bater nas rochas. O fenómeno foi tão interessante que foi enviada uma embaixada ao imperador Tibério (entre o ano 14 e 34 d.C.) para relatar o que se passava naquele buraco.

Pensámos que haveria um caminho do Fojo até à praia da Adraga. Metemo-nos por meios dos arbustos, mas não chegámos a lado nenhum – só serviu para ficarmos com as pernas todas arranhadas.



Demos meia volta e resolvemos ir então em direção ao Cabo da Roca, o Promontorium Magnum dos Romanos, o ponto mais ocidental da Europa continental. O trilho percorre o topo da falésia e assim vamos sempre a ver o mar, cheio de ondas. Uma paisagem linda. Mas sempre a subir e a descer, num percurso acidentado, por vezes pouco visível no meio de arbustos (ai, as pernas!), que obriga a ir travando para não escorregarmos pelo caminho e a força nas de pernas nas subidas.  Temos de descer um caminho cheio de pedras que também vai dar à Praia da Ursa, cujo nome deriva de um dos enormes calhaus do areal, que lembra uma ursa a olhar o céu. Claro que também há uma lenda: Há vários milhões de anos, vivia aqui uma ursa com seus filhotes. Quando o degelo começou, os Deuses pediram à ursa e a todos os outros animais que abandonassem as zonas da costa, ordem que a ursa não respeitou. A fúria dos Deuses foi tal que decidiram petrificar a ursa e os filhos, e ali ficaram até hoje, representados no enorme rochedo e nos pequenos que pontuam à sua volta.

Para ir para o Cabo da Roca, não é preciso descer até à praia. Subimos a encosta mas, a certa altura, o caminho no topo da falésia termina e para chegar ao Cabo da Roca teremos de ir pela estrada de terra batida. Resolvemos voltar para o carro. No caminho, feito em parte na estrada de batida, ao lado da qual existem vinhas que fazem parte da Rota do Vinho de Calores e Carcavelos.

Foi uma caminhada linda. Ver do cimo da falésia o mar agitado em baixo é maravilhoso.







sábado, 7 de novembro de 2020

Quem espera ... desespera



Diz o povo que “quem espera, desespera”. É o que necessita a acontecer a mim e a milhões de americanos. A noite de 3 de novembro, o dia das eleições, foi calma. Sabíamos que os resultados desta eleição histórica não iriam ser revelados durante a noite. Atualmente, nas eleições portuguesas e europeias em geral, temos os resultados a meio/ ao final da noite. Sabemos quem vence as eleições antes de irmos para a cama.
Os votos das eleições americanas não podem ser contados todos numa noite. Também sabíamos que este ano a contagem iria prolongar-se pois , por causa da COVID, muito gente optou pelo voto por correspondência. Mas o que não esperávamos é que demorasse tanto!
Há três dias que os números do Colégio Eleitoral se mantém 253 membros democratas - 213 republicanos. Há três dias que estes números não são alterados.
Os estados que ainda estão a contar os boletins de voto que chegaram pelo correio (e que ainda estão a chegar) vão atualizando os números mas ainda não deram o resultado final. Tudo indica que Joe Biden vai ganhar. Mas até ao anúncio oficial é uma espera desesperante.
Contudo pior que a espera é constatarmos que 70 milhões de americanos (setenta!!!!!) votaram em Donald Trump. Como é possível que ainda haja tanta gente que vote num homem que nos últimos quatro anos desonrou a função de Presidente ?! Um homem que despreza toda a gente, que é um fascista, um mentiroso compulsivo, um narcisista, um apoiante dos supremacistas brancos, um racista, um xenófobo, um misógino, um negacionista da ciência. Um presidente que, em vez de unir os Americanos, promoveu a desunião e o ódio.
Os EUA precisam de um presidente honesto que una o país.

domingo, 1 de novembro de 2020

O voto negro

 

Não entendo como em pleno século XXI ainda continuamos a lutar – em Portugal, nos EUA e no resto do mundo - pelas mesmas causas de meados do século passado, sejam elas os direitos das mulheres, os direitos civis, ou o voto negro nos EUA, entre muitas outras. Parece-me que não evoluímos. Ou melhor, evoluímos mas estamos atualmente a andar em sentido contrário, voltando ao passado. Será que ninguém aprende com a História?

A cinco dias das eleições nos EUA discute-se… o voto negro. Como é possível este tema ainda estar sobre a mesa? Mas é uma realidade que a lei, ou melhor, as diversas leis americanas tudo fazem para impedir que muita gente vote. O acesso ao voto, que para nós é universal e sem espaço para discussão, é muito restrito. Teoricamente aqui nos EUA também, mas na prática tal não acontece. Em 1965 foi promulgada a Lei do Direito ao Voto (Voting Rights Act) que dava acesso ao voto aos negros. Infelizmente, em 2013, o Supremo Tribunal de Justiça americano, dominado pela direita conservadora (agora ainda mais) invalidou com 5 contra 4 votos partes muito importantes desta lei, autorizando nove estados, essencialmente no sul, a alterar as leis eleitorais sem autorização federal prévia e impondo restrições aos eleitores e ao direito ao voto. Discriminação racial. Um passo atrás na igualdade.

Este ano, tudo parece estar fora de controlo neste campo (e, infelizmente, também noutros). Grupos da extrema-direita estão a ameaçar a usar todos os meios legais ao seu dispor para limpar os cadernos eleitorais. Na Flórida, por exemplo, com um governo republicano, promulgou um aditamento à lei eleitoral estadual na qual ex-prisioneiros que já cumpriram as suas penas só poderão votar se tiverem pagas todas as multas e taxas ainda em aberto. Este aditamento põe em causa do voto de milhões de eleitores de minorias. Há quem diga que este aditamento é anticonstitucional, mas com juízes da direita, nomeados pelo Presidente Trump, tudo é possível.

Para permitir que essas pessoas possam votar, Mike Bloomberg, antigo presidente da Câmara de Nova Iorque, angariou 16 milhões de dólares para ajudar ex-reclusos da Florida – de facto, 32 mil eleitores negros e latinos - a pagar as multas e assim poderem votar na próxima 3ª feira.

Ataques ao voto negro não são uma novidade este ano. No s anos 80 do século XX, o Partido Republicano foi levado a tribunal por intimidar eleitores de minorias étnicas, tendo-se comprometido a não se envolver em “segurança” dos locais de voto. Este compromisso era válido até 2018. Desde então, o Partido Republicano tem vindo a investir milhões de dólares para bloquear os esforços de quem quer que as eleições corram de modo ordeiro, seguro e acessível.

As campanhas de desinformação têm sido muitas. Recentemente, alguns ativistas da extrema-direita foram condenados num tribunal de Michigan por estarem a fazer telefonemas a eleitores de Detroit, informando que através dos votos a policia iria apanhar quem tivesse dívidas e iria enviá-las para o tribunal.

No estado de Geórgia, a associação Black Lives Matter alugou um autocarro para levar 40 idosos negros ao local de voto. Quando lá chegaram, foram proibidos de votar porque esta ação foi considerada “propaganda eleitoral”.

Ações de intimidação ao voto têm sido denunciadas ao longo de todo o processo eleitoral, que começou já há algumas semanas, e têm ocorrido essencialmente em comunidades predominantemente negras ou de ouras minorias étnicas.

Quando pensamos nos EUA pensamos em eleições livres em verdadeira democracia, mas a realidade é infelizmente outra, levando-nos por vezes a pensar que estamos nalgum país corrupto do chamado Terceiro Mundo, e não no autoconsiderado Primeiro Mundo.

 

 

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

A polarização da sociedade americana

A polarização da sociedade americana é uma realidade bem visível. Chegámos a Chesterfield há três semanas. Chesterfield é uma pequena cidade (bem, pequena para os EUA) de 47 000 almas, que pertence ao condado de Saint Louis no estado de Missouri. 92% dos habitantes são brancos, 5,56% asiáticos, 1,55% hispânicos, 0.86% negros e 0.12% índios. Perante esta distribuição , talvez se entenda o ambiente da cidade. Famílias da classe média a viver em moradias com jardins bem tratados - aliás, se a relva dos jardins tiver mais de 38 cm, o município manda os jardineiros municipais cortar a relva, enviando depois a conta aos proprietários. De manhã inúmeras empresas de jardinagem chegam ao bairro para cortar a relva, varrer as folhas que caem das árvores, cortar os ramos das árvores.

Política e religião são temas importantes - também aqui. Enquanto na Europa as pessoas não mostram abertamente as suas preferências políticas nem a que religião pertencem, aqui nos EUA é o contrário.
A nível de convicções religiosas as pessoas também mostram a sua fé. Grande parte da população é judia, talvez devido à proximidade da Congregação Tpheris Israel Chevra Kadisha, uma 
sinagoga ortodoxaQuando nos passeamos por aqui cruzamos com muitos judeus com a sua kipá na cabeça, os panos brancos aos ombros e mulheres de longas cabeleiras. Mas é interessante ver algumas casas perto da sinagoga com uma imagem de Nossa Senhora de Fátima no jardim, parecendo querer dizer a quem passa “Nós moramos ao pé da sinagoga mas somos católicos“. Sinto aqui uma grande necessidade de afirmação de identidade, seja política, religiosa, sexual.
Quando de manhã passeamos o cão, vemos pequenos cartazes ou para Trump ou para Biden - neste bairro há muitíssimos mais cartazes para a dupla Biden-Harris ou para Nicole Galloway, a candidata democrata a governadora, ou cartazes apelando à tolerância.
Porém, no sábado passado demos um passeio até Hermann, uma pequena vila fundada por alemães no século XIX . Para lá chegarmos atravessámos largas zonas rurais com inúmeros e enormes cartazes mostrando o apoio à dupla Trump-Pence. Nem um único cartaz para Biden!
Aproveitando o fim de semana centenas de apoiantes de Trump passearam-se na autoestrada nos seus pick-ups cheios de bandeiras.
Um retrato fiel da sociedade americana atual. Classe média urbana infirmada apoia os democratas, classe baixa rural acredita nas palavras do presidente.
O que vai acontecer a 3 de novembro? A incógnita mantém-se.






quinta-feira, 30 de julho de 2020

Da Senhora da Rocha a Armação de Pêra pelo cimo da falésia

Quando ouvimos falar da Senhora da Rocha pensamos de imediato em praia e também em culto católico por causa da capelinha que se eleva numa das falésias. No entanto, a Senhora da Rocha já foi local de culto de visigodos e muçulmanos - o que não nos admira pois a beleza envolvente é tão grande que só nos resta rezar e louvar a Deus ou a outra entidade divina. 

Capela de Nossa Senhora da Rocha

 Em tempos foi aqui construída uma fortaleza ladeada de fosso e ponte levadiça, pois esta grande rocha, atualmente já erodida pelo vento e pelo mar, oferecia as melhores condições para defesa das populações. O terramoto de 1755 destruiu os muros da fortaleza mas deixou intacta a capela , construída no século XVI. A capela, com nártex aberto ao exterior por arcada tripla assente em colunas com capitéis visigóticos dos séculos II e IV. No interior existe uma escultura de madeira de Nossa Senhora com o Menino. 


A capela serviu-nos de ponto de partida para um passeio sempre no cume da falésia até ao hotel Vila Lara, um passeio fantástico com paisagens belíssimas, mas que necessita de muita atenção por causa dos buracos e dos precipícios - é claro que gostaríamos de irmos até algumas das praias sem acesso por terra, mas não chegarmos lá todos partidos!

Praia Nova

 

Estando virados para o mar, temos à nossa direita a Praia Nova e à esquerda a Praia da Rocha. Começamos o passeio indo para a esquerda, em direção ao hotel Pestana Viking donde vimos - e até podemos descer - para a Praia da Ponta da Adega Este.

Conchas presas na grade da janela da capela
 

Seguindo sempre pelo cimo da falésia chegamos à Praia da Cova Redonda, para onde desce um pequeno trilho que nos permite mergulhar nas suas belas águas e assim refrescar um pouco.


Uma das praias sem acesso por terra
 

Não somos porém os únicos seres a naquele caminho. As gaivotas usam a falésia para nidificar e ao longo do passeio vemos diversos ninhos de gaivotas com pássaros bebés e mães gaivotas muito preocupadas com estas visitas inesperadas.

 

Da Praia da Cova Redonda subimos para o empreendimento do Hotel Vila Lara. Daí seguimos até Armação de Pêra, passando por praias maravilhosas, algumas com acesso por terra, outras sem, mas todas elas com maravilhosas formações rochosas quer na água quer na areia.



Ao fundo já se vê Armação de Pêra


 


quarta-feira, 29 de julho de 2020

Howard's Folly, a 1ª adega urbana do Alentejo

Sonhos! Sonhos que se concretizam. Em conjunto. 
Esta poderia ser o resumo dos sonhos de Howard Bilton e David Baverstock e da criação da Howard's Folly. Mas neste projecto há muito mais que sonhos. Há vinho, arte e solidariedade.

Quem é Howard Bilton?
Howard Bilton, um advogado inglês, atualmente empresário e filantropo, nasceu a 3 de Agosto de 1962 perto de Hull no condado de Yorkshire, em Inglaterra. Após a escola primária ganhou uma bolsa de estudo para frequentar a Escola St Peter's em York, a escola mais antiga do Reino Unido, que foi fundada em 627. Howard Bilton seguiu para a Universidade de Keele onde se licenciou em Latim e Direito em 1984. No ano seguinte, foi admitido na Ordem dos Advogados de Inglaterra e País de Gales.
Após ter trabalhado durante dois anos como Consultor Jurídico da International Company Services Ltd (ICS) na Ilha de Man mudou-se para Gibraltar para abrir e gerir um novo escritório para o ICS. Abriu ainda mais dois escritórios para a ICS, um em Hong Kong em 1989 e outro em Portugal em 1990, ano em que foi nomeado Presidente do grupo de empresas ICS.
Em 1998, fundou em Hong Kong a The Sovereign Group, uma empresa especializada em serviços empresariais, fiduciários e de pensões, gerindo mais de 10 mil milhões de dólares. 
Com os conhecimentos práticos adquiridos ao longo duma vida, foi convidado para dar aulas na Texas A&M University School of Law em Fort Worth (EUA), e para escrever regularmente assuntos fiscais e jurídicos para jornais e revistas especializadas.
Arte contemporânea é uma das suas paixões, tendo fundado, em 2003, a Fundação Sovereign Art, que organiza anualmente  o Prémio Prémio Anual de Arte Asiática Soberana e financia programas de terapia artística para crianças carenciadas na Ásia.
A sua outra paixão são os vinhos e, felizmente, o Alentejo. Em 2002, juntou-se ao enólogo australiano David Baverstock e fundaram a empresa Howard's Folly Wines para criar vinhos portugueses que reflectissem o melhor que o país tem para oferecer.
Na HF, Howard Bilton junta as suas duas paixões: vinhos e arte. Os rótulos dos vinhos Howard's Folly mudam anulamente e apresentam obras de arte encomendadas a artistas líderes ou seleccionadas a partir das obras de arte submetidas ao Prémio Anual de Arte Asiática Soberana.



Quem é David Baverstock?

David Baverstock, um australiano nascido perto de Adelaide (Austrália) mas já português de coração (e de nacionalidade desde 2006) é uma das estrelas entre os enólogos que trabalham em Portugal, sendo responsável por uma pequena revolução da indústria vitivinícola portuguesa ao introduzir novas técnicas.
Após terminar o curso de Enologia na Roseworthy Agricultural College em 1978, viajou para a Europa para as vindimas na Alemanha e França. Depois veio fazer férias em Portugal onde se apaixonou pelo país e pela sua futura mulher.
Voltou à Austrália onde trabalhou no Vale de Barossa como enólogo da empresa Saltram durante dois anos.  Em 1982, mudou-se para Portugal, tendo começado a trabalhar nas Caves Aliança. Seguiram-se as C Vinhas, Croft, Grupo Symington e finalmente o Esporão em 1992, no Alentejo. Paralemente tem sido enólogo consultor para novos projectos, como o da Quinta de La Rosa em 1990, o da Quinta do Crasto em 1994, o do Fojo em 1996, o da Adega de Cantor em 1998, o de Azamor em 2004 e agora o de Howard's Folly.
David Baverstock tem defendido as castas portuguesas como fator de diferenciação e, no seu trabalho, tenta maximizar o seu potencial. 
São muitos os prémios que já recebeu como o Troféu Vinho Tinto Português no International Wine Challenge 1999 e 2002. Foi eleito enólogo do ano pelas publicações Revista de Vinhos (1999) e Wine (2013 e 2015), assim como Winemaker of the year (Portugal) 1999, tendo sido o primeiro enólogo não português a receber tal distinção. Em 2015, recebeu o título de Comendador da Ordem do Mérito Empresarial pelo Presidente de Portugal. 

Os vinhos da Howard's Folly

Howard sonhava com vinhos próprios e David podia concretizar esse sonho. Os dois juntaram-se.

Compraram vinhas na Serra de São Mamede em Portalegre, uma zona fresca a 600 m de altitude com muitas vinhas antigas. E juntaram-se a um produtor local no Minho, em Melgaço e Monção, para fazerem vinho Alvarinho.

Durante alguns anos, alugaram espaços em diversas adegas até que em 2018 decidiram comprar a antiga estação militar de comboio de Estremoz. Investiram no restauro desse edifício histórico que transformaram num restaurante e numa adega – a 1ª adega urbana do Alentejo.


Estes vinhos de Howard e de David só podiam chamar-se… Sonhador. Por exemplo, o Sonhador 2011 Tinto é feito com 30% de Alicante Bouschet, 30% de Aragonez, 30% de Syrah e 10% de Touriga Nacional – e já ganhou diversos prémios.  O Sonhador 2012 Tinto é feito com 40% de Alicante Bouschet, 50% de Syrah e 10% de Touriga Nacional – e também já ganhou diversos prémios. O Sonhador Alvarinho 2013 e o Sonhador “Nem por Sombras” Alvarinho 2016 são monoteístas (100% Alvarinho). Mas também os mais novos, como o Sonhador Rosé, 65% Aragonês, 35% Castelão, e engarrafado em abril de 2020. Ou o Sonhador 2016 Tinto, engarrafado em agosto de 2017.





A Senhora da Penha em Portalegre

Ao aproximarmo-nos de Portalegre, a "cidade / Do Alto Alentejo, cercada / De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros", como a descreveu José Régio, vemos ao longe, num alto da serra de São Paulo, uma enorme cruz branca, que fica iluminada quando a noite cai. 
Uma serra indica-nos o caminho para a capela de Nossa Senhora da Penha, local de peregrinação e penitência para os crentes. Para lá chegar a pé, há que subir uma longa escadaria trabalhada em mármore policromo, íngreme, que segue pela colina.  Do adro da capela, localizada na serra em frente da cidade a 645 m de altitude, tem-se uma fantástica vista. Sentimo-nos num teatro. A cidade aparece-nos ali enquadrada num cenário fortemente barroco.


Há alguns séculos, um eremita refugiou-se no meio da serra. A população ficou tão impressionada com a sua fé que mandou construir um templo de pequenas dimensões, de linhas simples.

Em 1620, o então corregedor de Portalegre, João Zuzarte da Fonseca, mandou construir a atual ermida, com nave de planta rectangular, e capela-mor circular - um edifício exemplar da tipologia comum às igrejas barrocas de matriz popular. Na fachada, que termina em frontão triangular com coruchéus laterais, sobressaem quatro grossas pilastras salientes,  pintadas de azul vivo. Sobre o portal principal vê-se uma cruz. 


No interior, destaca-se, na capela-mor, o revestimento azulejar de tipo tapete policromo, bem como a pintura da cúpula representando a Coroação da Virgem com coros angélicos, possivelmente psteriores à construção, já do final século XVIII. 


Em 1675, a capela passou a ser da responsabilidade dos Frades Agostinhos Descalços.

Há uma lenda ligada à construção desta capela. Há muitos anos vivia numa pobre cabana uma velhinha que todos os dias subia a serra, devagarinho. Quando lá chegava sentava-se num pedra a rezar o terço e a admirar a beleza envolvente. Quando sol se punha, a velinha, descia à população e regressava à sua pobre cabana. Um dia, enquanto rezava, foi assaltada por uns meliantes. Um deles, levantou um machado para a matar. Quando a velhinha caiu morta, os meliantes queriam endireitar-se para seguir mas não conseguiram. Ficaram presos ao chão, curvados, como estátuas. Só a garganta não tinha ficado paralisada. Os homens gritavam, gritavam mas ninguém os acudia. Quem passava, pensava que estavam a brincar ou nalguma zaragata na qual não se queriam envolver. Só quando um homem voltou ali a passar dois dias depois e os viu na mesma posição, aproximou-me e tentou ajudá-los, sem nada conseguir. só quando viu o corpo da velhinha morta à machada é que se apercebeu o que se tinha passado. Correu à vila, chamou o oficial de justiça que rapidamente subiu à montanha, acompanhado por muitos populares. Assim que os meliantes confessaram o seu crime, os seus músculos ficaram soltos. O oficial de justiça levou-os para a prisão, sendo julgados e condenados por tão bárbaro crime. 

Da capela parte um caminho para o cimo da serra, num passeio muito aprazível mas algo custoso (é sempre a subir!) até à grande cruz de  8 metros que se ergue no cimo da serra. Daqui vemos km e km à nossa volta, uma maravilhosa paisagem de 360º que nos faz esquecer a dificuldade do trajeto. O regresso é fácil - para baixo todos os santos ajudam. 



terça-feira, 12 de novembro de 2019

Os mistérios de Cahokia

Todos conhecemos as pirâmides do Egito. Muitos conhecem as grandes pirâmides maias no México. Mas quem já ouviu falar das pirâmides de Cahokia nos Estados Unidos? 
Cahokia foi uma cidade indígena junto ao rio Mississipi, perto de Saint Louis mas já no estado de Illinois que foi habitada entre  600 e 1400 d. C.
Apesar de arqueólogos e historiadores já terem descoberto muito sobre a cidade, Cahokia ainda continua com muitos mistérios. 
A cidade era maior do que Londres. Estendia-se por 10 km, tinha uma superfície de 15,5 km2  e incluía 120 montes de terra (plataformas), dos quais ainda existem 80  e um observatório astronómico a que foi dado, após a descoberta, o nome de “woodhenge”, por oposição a “stone henge” .
Cahokia é o maior sítio arqueológico pré-colombiano a norte do México e também o maior relacionado com a cultura mississippiana, que desenvolveu sociedades avançadas na América do Norte, Central e Oriental, mais de cinco séculos antes da chegada dos europeus. 
É um exemplo notável de uma sociedade complexa e muito hierarquizada com muitos montes satélites e muitas aldeias e vilas, uma estrutura sedentária pré-urbana, que permite o estudo de um tipo de organização social sobre o qual não existem informações escritas.
No seu apogeu, entre 1050 e 1150 d. C. , esta sociedade agrícola tinha uma população de 10 a 20 mil pessoas que obedeciam ao Chefe Sol que governava a sociedade. 
Os montes podiam ser em pirâmide, cónicos ou em plataformas e eram destinados para funções religiosas e funerárias. Na cidade havia ainda áreas públicas, residenciais e especializadas. Uma paliçada à volta da comunidade servia de proteção. 
O monte principal era o agora chamado Monte dos Monges onde vivia  o Chefe Sol. Era uma pirâmide com quatro plataformas com 30 m de altura e uma área de 5 ha - a maior estrutura pré-histórica feita de terra nas Américas. Os arqueólogos deram-lhe este nome  porque no século XVIII, monges trapistas franceses, que fugiram das perseguições de  Napoleão, construíram uma pequena capela no cimo do monte, que eles pensavam ser uma elevação natural. Mal sabiam eles que tinha sido feito pelo índios cahokia para o Chefe Sol!
Do cimo do Monte dos Monges tem-se uma vista espetacular sobre toda a região
Por volta de 1400 a cidade foi abandonada. Ninguém sabe a razão. Um mistério por descobrir.