sábado, 21 de junho de 2014

9º dia do VIII Raid do Kwanza Sul: Quedas do Ruacaná – Fazenda 3 N (421 km)

Veio-nos cumprimentar ao acampamento o Administrador de Ruacaná, Fernando Hifilenya Naikete,  que trouxe com ele o soba e o líder da comunidade. Nas mãos , o soba trazia uma embalagem tetrapak de vinho tinto!


 O soba é escolhido por consenso pelos mais velhos da comunidade; antigamente a sucessão era feita por linhagem, só os da linhagem do soba podiam ser eleitos sobas. 
Chamou-me a atenção um pauzinho que o soba trazia preso na orelha. Perguntei ao Administrador para que servia (o soba não falava Português). “Para coçar a cabeça”. É claro! Com a pasta de lama seca que usam no cabelo é impossível coçar a cabeça quando têm comichão. Um pauzinho ajuda.
Deixámos o acampamento e fomos ver as quedas de água do Ruacaná. Logo início – e depois mais tarde – uns cornos no chão: um voodoo que foi feito para dar sorte no concurso das 7 Maravilhas de Angola. Infelizmente não resultou. É óbvio que as quedas do Ruacaná nunca iriam ganhar. Como poderia? Não que lhe falte beleza, mas o concurso baseia-se no voto popular. As comunidades pedem o voto às pessoas. Como Ruacaná poderia ganhar se tem pouquíssimos habitantes e a maioria sem acesso à TV, a luz, etc?!



As Quedas do Ruacaná são um conjunto de cataratas e rápidos no  Rio Cunene. A queda principal tem 120 metros de altura e cerca de 700 metros de largura, em cheia máxima. O conjunto constitui uma das maiores quedas de água de África. Devido ao uso da água do rio para a geração de energia, irrigação e abastecimento público, as quedas de água ganham um aspeto mais majestoso durante a época das chuvas. Infelizmente, estávamos na época do cacimbo e assim só vimos um fiozinho de água.
Uns 80 km depois de Ruacaná, paragem em Naulila. Sem sabermos o que nos esperava no percurso, tínhamos colocado na janela do  nosso jipe uma bandeira alemã e uma bandeira portuguesa. A paragem em Naulila foi para vermos um monumento ali colocado em homenagem aos portugueses que morreram no massacre feito pelos alemães, que ficou conhecido como o “Desastre de Naulila” ou o “Combate de Naulila” que teve lugar a 18 de dezembro de 1914. Também ainda existem três campas coletivas alemãs. Como vem descrito em http://www.momentosdehistoria.com/MH_05_01_01_Exercito.htm, de acordo com  Marco Fortunato Arrifes, na sua obra "A Primeira Grande Guerra na África Portuguesa, Angola e Moçambique (1914-1918)", a questão do ataque do posto de Naulila, resultou de uma acção punitiva alemã por causa da situação gerada em volta do incidente de 19 de Outubro de 1914, e apesar de se verificar a existência de deficiências organizativas e materiais, os portugueses conseguiram resistir durante algum tempo. (…) a defesa de Naulila teve falta de direcção e de comando, esforços dispersos que nunca chegam a termo, muito embora a grande maioria das forças empenhadas se tenham batido com energia, tenacidade e valor. (…) A força portuguesa em Naulila dispunha de 400 homens de infantaria europeus, 180 homens de infantaria indígena, 3 peças de artilharia Erhardt e 4 metralhadoras, mais uma reserva de 240 homens de infantaria europeus, 60 indígenas e 2 peças de artilharia Canet. A força alemã do Major Frank compunha-se de 490 homens de infantaria, 150 auxiliares indígenas, 6 peças de artilharia e 2 metralhadoras. O combate foi muito duro e obrigou a uma retirada das forças portuguesas de Naulila para a segunda linha em Donguena.
Seguimos em picada não muito má mas com muito pó até Xangongo, antiga Vila Roçadas, onde entrámos no alcatrão, onde abastecemos os carros. O meu Pai esteve aqui no Forte Roçadas em 1948 e eu queria ver o pórtico estava imortalizado numa foto. Quando Lanucha aqui esteve a comandar este forte, erguido em 1906 na margem direita do rio Cunene, por forças portuguesas sob o comando do então Capitão José Augusto Alves Roçadas, e que serviu como base militar para ataques e ocupação das áreas do sul de Xangongo, o pórtico ainda estava de pé, mas agora já não existe. Como o tempo escasseava, não nos foi possível entrar na vila para ir ver de perto o forte.
Seguimos por alcatrão até ao desvio para a Fazenda 3 N, de Luís e Joca Nunes, situada na Tunda dos Gambos, delimitada pelo Parque do Bicuari. 80 km de picada! Somos porém recompensados quando entramos na fazendo onde foi construído o Vihua Lodge, um complexo hoteleiro de grande conforto onde foram introduzidos animais selvagens importados da Namíbia.
Depois de almoço, fizemos um pequeno safari onde porém só vimos gazelas, gnus, avestruzes e zebras. Mais sorte tivemos à noite. Estando o Hans-Jürgen e eu no economato a ver os nossos emails, chegou o administrador do lodge, o Sr. Leite. Conversámos animadamente e a dada altura e pergunta-nos se tínhamos tempo e queríamos ir ver uma coisa. Resposta afirmativa. Subimos para o jipe. Ele tinha de ir fechar algo e após o ter feito, levou-nos a um safari noturno privativo! Uma girafa pastava calmamente numa clareira. Ao ver as luzes do jipe, foge para a floresta, correndo com harmonia.

Continuámos no trilho e de repente passou mesmo em frente do jipe um enorme gunga ou elã (Taurotragus oryx). Um susto! Gazelas fugiam assim que viam as luzes. Chegámos porém a uma zona sem uma única gazela. Estranho!, disse o Sr. Leite. Parou o jipe, apagou as luzes e apontou a lanterna para a floresta. Lá estava a onça com os seus olhos a brilhar! As gazelas tinham-na sentido e, pura e simplesmente, fugiram para não serem apanhadas

8º dia do VIII Raid do Kwanza Sul: Quedas do Monte Negro – Quedas do Ruacaná (213 km)

De manhã, banho no rio Cunene. Mas banho a sério com sabonete e tudo. No único lugar protegido por troncos onde o jacaré não poderia entrar. Quando nós chegámos estavam ali nesse sítio dois soldados a fazer a higiene matinal. Ao lado havia uma pequena praia; pensei banhar-me ali. Logo os soldados e os locais me avisaram: “Aí nunca. Vem jacaré. É a hora de jacaré aparecer. Só pode mesmo lavar-se ali onde estão os soldados”. Esperei então que os soldados saíssem e entrei eu, qual ninfa ou princesa a banhar-se como nas lendas. Como na história do Gigante-cenoura: “No caminho, viu a filha do rei da Silésia a banhar-se no rio com as suas aias e ficou apaixonado.” (http://www.fnac.pt/Contos-e-Lendas-do-Mundo-Margarida-Pereira-Muller/a83700) Mas não, naquela manhã não passou pelo rio nenhum gigante, nem bruxo. Tomei banho em paz e sossego. Saída do banho, tal como eu casa, limpei-me à toalha e pus a minha loção. Entretanto, foi para o banho o cliente seguinte…

Entre o nosso acampamento e o rio Cunene havia algumas casas do kimbo. E passámos pelo local onde as pessoas fazem os tijolos de terra para com eles construírem as suas casas. Como na canção infantil alemã, „Wer will fleissige Handwerker sehn“: “Stein auf Stein, Stein auf Stein, das Häuschen wird bald fertig sein“ (https://www.youtube.com/watch?v=dt6YqvCylh4).

Como estamos na época do cacimbo, as quedas de água do Monte Negro praticamente não têm água e assim seguimos logo caminho após o pequeno-almoço. A picada continuava de pedra, mas a paisagem já era totalmente diferente. Já não era o deserto puro e duro, lembrava um pouco a savana, já com pequenas árvores.

Ao fim de 100 km chegámos à povoação de Angumbe, onde a caravana parou para fazer alguns donativos para a escola. Como o professor estava a almoçar, os donativos foram entregues junto do moderno posto de saúde ao soba. Os participantes do RAID estavam rodeados de homens e mulheres da tribo herero . Muitas crianças aproximaram-se para ver o que se estava a passar. Aproveitámos então esse grupo de crianças e contei-lhe ali a história guineense do Macaquinho do Narizito Branco (http://www.fnac.pt/Contos-e-Lendas-da-Lusofonia-M-Margarida-Pereira-Muller/a329582), que explica como os tambores apareceram na Terra.

Seguimos viagem até ao Chitado onde procurámos o monumento ao acidente da Força Aérea Portuguesa. A 10 de novembro de 1961, um avião Dakota da Força Aérea Portuguesa, com altas patentes portuguesas a bordo, passou por cima da pista do aeroporto do Chitado a baixa altitude. Levava os motores na potência de cruzeiro, o trem recolhido e bloqueado, pois não pretendia aterrar. De repente, a ponta da asa bateu numa árvore que sobressaía das outras cerca de 15 metros. O avião rodou sobre si mesmo, ficou em voo invertido, caiu, incendiando-se imediatamente. Todos os passageiros morreram.
Duas senhoras da povoação sabiam onde estava o monumento. A pedido do Lanucha, entraram no nosso jipe e levaram-nos lá – as senhoras estavam excitadíssimas de terem falado com o famoso General Lanucha que combateu valorosamente os sul-africanos quando estes invadiram o sul de Angola após a independência.

A cruz posta no local do acidente ainda lá está. A placa com o nome dos acidentados já desapareceu, assim como uma asa do avião que durante décadas ali ficou esquecida no meio da lavra.


A noite já caía e ainda nos faltavam 80 km.  Chegámos a Ruacaná, fronteira com a Namíbia já noite escura. O acampamento foi feito sobre um socalco de cimento. Por causa da escuridão, um participante caiu sobre a quina do cimento tendo esfolado os joelhos até ao osso – valeu-lhe a pronta intervenção da Irene Martins, médica gastroenterologista, que ali virou rapidamente uma fantástica enfermeira a fazer curativos de toda a espécie.

7º dia do VIII Raid do Kwanza Sul: Foz do Cunene – Quedas do Monte Negro (208 km)

A noite foi muito fria, com a temperatura a rondar os 6º C! no entanto, dentro da tenda e do meu saco de dormir, dormi lindamente, de fio a pavio. O despertar foi bem cedo, 
às 5h pois teríamos de chegar a Monte Negro ainda com luz e para os pouco mais de 208 km de hoje iríamos necessitar umas 10 h!
Para evitar demorarmos novamente 2h30 para subirmos a duna da Foz do Cunene, os jipes ficaram quase todos no cimo, só descendo os jipes das malas. Mesmo assim, não conseguimos sair tão cedo como se pretendia. Um jipe chocou com uma pedra, não conseguindo andar nem para a frente nem para trás. Para o libertar demorou-se mais de meia hora. Depois havia que pôr ar nos pneus, pois a picada de hoje não seria de areia mas de pedra. Só que… a saída das dunas ainda era arenosa. Alguns jipes ficaram atolados e tiveram que voltar atrás, tirar um pouco de ar e voltar a tentar. Outros tentaram…. de marcha a ré. O principal era conseguir ultrapassar as dunas.
Tivemos de conduzir com muito cuidado pois a picada era terrível com muita pedra-faca ou pedra cortante, troncos, amontoados de folhas secas. Trata-se de xisto lascado que se espeta nos pneus e logo os rebenta. A região tem grandes lajes de xisto que explodem com a grande diferença térmica entre o dia a e anoite. Ao explodir, partem em inúmeras lascas, pontiagudas (daí o nome de pedra-faca) que são um perigo para os pneus. É claro que com um cenário destes muitos foram os pneus se 

(Foto Katana)
furaram, ou melhor, rebentaram. Alguns ficaram verdadeiras obras de arte.
Voltámos a passar na Espinheira onde parámos numa gruta pré-histórica. Como era Dia de Portugal, o Laureano sugeriu cantarmos o hino nacional – e esta ação ser gravada para as televisões.
De quando em quando um rapaz herrero a guardar as suas cabras ou as suas vacas. A pergunta que sempre fazíamos era como se alimentava o gado, o que poderia comer ali no meio das pedras. Passámos também por famílias, nómadas, que vivem completamente isoladas do mundo. Parámos junto de uma composta por um homem, as suas duas mulheres e quatro ou cinco filhos. Demos um par de chinelos à mulher que ficou feliz; calçou-os, mas… não sabia andar com elas! Demos também uma conserva; sabiam abri-la. Começaram logo a comê-la, usando a tampa como colher. No final, para limpar a boca, baixaram-se, pegaram numa pedra e limparam a boca!
Os hereros são um povo nómada e vivem da pastorícia. As mulheres usam saias feitas com peles de animais, muitos colares de missangas, alguns dos quais amassados com uma pasta feita de raízes aromáticas de árvores e terra que assim evitam que os maus cheiros cheguem ao nariz. O cabelo das mulheres é empapado com uma pasta feita com bosta de boi, raízes de árvores, erva e terra. Os rapazes rapam o cabelo deixando somente uma espécie de penacho no alto da cabeça que é igualmente empapado com aquela pasta e com que fazem uma espécie de corno para cima na parte de trás da cabeça.

O acampamento foi feito num terreno pertence à polícia angolana, muito perto da aldeia. Os aldeãos deviam estar em festa pois do kimbo ouvia-se alta musicata até altas horas.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

6º dia do VIII Raid do Kwanza Sul: Foz do Cunene - dunas (242 km)

Hoje o plano era ir à Baía e à Ilha dos Tigres. Mas… a natureza não foi favorável e nem com seguimos lá chegar.
O primeiro obstáculo foi sair do acampamento. Vencer uma diferença de 80 m de altitude em areia foi um verdadeiro desafio para os jipes. Uns conseguiram à primeira (entre eles o Hans-Jürgen – grande condutor TT), outros à segunda, à terceira e outros…. tiveram de ser puxados pelo cabo. Ao fim de 2 ½ horas, todos os carros estavam finalmente na parte de cima da duna. Para quem não estava a conduzir foi um espetáculo ver os jipes a subirem a duna a toda a velocidade… e a pararem atascados no “degrau” antes do cume. Voltavam a deixar descair o carro para tentar de novo.
Todo o percurso foi em areia, primeiro no deserto. Areia dourada a perder de vista. Somente areia, areia, areia. Depois surgiram aqui e além um ou outro arbusto, baixo. Ao longe vimos orixes, chitas, chacais – vimos os que não estava a conduzir. Os condutores tinham de estar bem concentrados na condução. 4H. 2ª/3ª mudança. Pé a fundo no acelerador. Caso contrário era atascanço certo.
Finalmente chegámos à praia, a alguns metros da rebentação. 48 km de praia. O vento era tanto que só se ouvia a areia a bater no carro. Os jipes corriam paralelos à água, velozes para não atolarem. As lagoas, escondidas em manchas de areia escura, escondiam pântanos, um perigo para os jipes: carros que por lá passam, atolam imediatamente por causa das areias semi-movediças.  A inexistência de pista fazia-nos voar constantemente, troços havia que eram uma verdadeira massagem tremidinha….
Quando alcançámos as dunas antes da Baía dos Tigres, fomos forçados a parar. As calemas - alterações que ocorrem periodicamente no nível das águas do mar, causadas pela interferência da força de gravidade, ou seja, com a influência da Lua e Sol, sob o campo gravítico do planeta Terra – tinham cortado o caminho e não havia passagem. Uma hipótese era escalar a duna e depois descê-la – uma aventura desafiante e possivelmente sem final feliz pois o vento era fortíssimo, levantava imensa areia e ninguém sabia em que estado estava a duna.
Enquanto se discutia o que fazer, avistámos ao longe uma família de baleias-piloto. Ou seriam golfinhos? Dali da praia e sem binóculos não era possível confirmar. Mas eram animais felizes, brincando, pulando – enfim, fazendo um espetáculo para nós.
Após uma hora de ponderação, decidiu-se abortar o passeio à Ilha dos Tigres. Grande desilusão, mas nada havia a fazer. O almoço, inicialmente previsto para a Baía dos Tigres, foi no posto fronteiriço da Foz do Cunene, mais abrigado do vento. Uma meia dúzia de casas onde uma mão cheia de soldados guarda a fronteira!

 Entretanto, já passavam das 17h e resolvemos esperar pelo pôr-do-sol, uma espera que valeu a pena. O outro lado da medalha: os 100 km do caminho de regresso foi todo feito à noite!

5º dia do VIII Raid do Kwanza Sul: Namibe – Foz do Cunene (284 km)

Hoje a noite é passada num acampamento diretamente nas margens do rio Cunene. À nossa frente, na outra margem do rio, elevam-se grandes dunas de areia fina e encarniçada, já no lado namibiano. A lua ainda não está cheia, mas com a ajuda dum céu totalmente estrelado, ilumina o acampamento. Apesar de estarmos na época do cacimbo, o rio está com algum caudal e romanticamente ouvimos o marulhar das águas. Estamos a 30 km da foz. Vai ser de certeza uma noite fantástica, diferente.
A chegada foi espetacular – mas algo desorganizada. O deserto do Moçâmedes, agora deserto do Namibe, é tão espetacular como no outro lado da fronteira. Um deserto com várias personalidades, várias facetas. Logo à saída da cidade do Namibe, parámos para prestar homenagem ao antropólogo de origem portuguesa Ruy Duarte de Carvalho que pediu para que as suas cinzas fossem enterradas no deserto, sob um monte de pedras, como tradicionalmente os sobas herreros são enterrados. Este regente agrícola de formação e antropólogo de coração dedicou-se a estudar as várias tribos herrero do Namibe. A sua principal obra, “Vou lá visitar pastores”, está eternizada neste monumento.
Passados alguns km, saímos do alcatrão e entrámos numa pista fantástica através do deserto que nos permitiu andar a 150! Mais velozes do que na autoestrada! A felicidade durou porém somente uns 60 km.  Pedras pequenas soltas, areia, pedra cortante ou pedra-faca (montanhas de xisto com formações exóticas), montes e vales e até um desfiladeiro fizeram com que a caravana de jipes se desorganizasse. Os furos seguiam-se uns após os outros.
Tudo isto não impediu porém que nos espantássemos com a beleza da paisagem. Primeiro um deserto de pedra onde despontavam inúmeras welwitchias miriabilis, incluindo uma de 1,65 m de altura e com um diâmetro de XXX. Estas plantas são endémicas, existindo somente aqui em Angola e na Namíbia. Chegam a ter milhares de anos, sobrevivendo sem água e com sol.

A Welwitschia Mirabilis é uma planta milenar contemporânea dos dinossauros apenas existente no deserto do Namibe, em Angola e na Namíbia. Esta espécie vegetal foi descoberta a 3 de Setembro de 1859 pelo botânico explorador austríaco Frederich A. Welwitsch. A Welwitschia é uma planta da família das gimnospérmicas adaptada à vida nas regiões desérticas. É uma planta de caule de grandes dimensões, com a forma de um gigantesco cogumelo dilatado e côncavo de 50 a 75 cm de altura que parece partida pelo golpe de um machado em tiras. As suas grandes folhas, duras e muito largas, deitadas no chão, arrastam-se pelo deserto podendo atingir dois ou mais metros de comprimento. As suas flores são unisexuadas. Os estames masculinos atingem aproximadamente 6 cm (antenas com 3 divisões) localizam o óvulo estéril envolto pelo periano.
É tão diferente, morfologicamente de todas as espécies botânicas conhecidas, que não se inseria em nenhum dos géneros já descritos pela Ciência. Houve, por isso, a necessidade de criar um género novo, o qual ainda se conserva, como uma única espécie consequentemente.
Passado algum tempo, entrámos então no Parque Nacional do Iona, uma zona protegida com uma superfície de 15 150 km2. Flora muito reduzida, de quando em quando uns burros, umas gazelas, umas cabras, uns nguelengues e uns orixes. Dizem que também ali vivem elefantes, impalas, zebras, onças, leões, avestruzes e rinocerontes. Seres humanos vimos somente dois pastores, mais ninguém.
O almoço foi servido na Espinheira, debaixo dumas grandes espinheiras com uma sombra magnífica. Parecia uma cena tirada do “Out of Africa”: uma comprida mesa com toalha, pratos de porcelana, copos de pé alto. E um enorme panelão de salada de atum e grão.
A paisagem é típica de savana africana. Paisagem a perder de vista, ao longe uns montes, capim amarelo baixo, e junto ao Cunene, umas magníficas dunas. O sol punha-se e a areia ficou com uma cor alaranjada.

Quando chegámos ao acampamento, as tendas estavam montadas, o “restaurante” pronto para receber os raidistas, WCs e duches. Um luxo no meio do deserto.

4º dia do VIII Raid do Kwanza Sul: Namibe

Como hoje a saída foi mais tarde, o Hans-Jürgen e eu pegámos em duas bicicletas do hotel e fomos até à praia apesar de se ter levantado um grande vendaval e uma tempestade de areia. Fomos até à Praia Amélia, uma das muitas belas praias de cidade de Namibe. Passámos pela capela onde as crianças estavam a ter catequese – no regresso, apesar de a igreja já estar fechada, as crianças ali se mantiveram a jogar ao mata – e chegámos à praia onde os pescadores estavam a arranjar as redes. Dois israelitas, que ali trabalham na prospeção de urânio, preparavam a vela do windsurf.

De regresso, contra o vento e contra o relógio, o caminho foi mais difícil. Mas chegámos a tempo. Da bicicleta saltámos para o jipe e partimos para a foz do rio Giraúl, passando pelo porto praticamente abandonado. Como no grupo havia muitos engenheiros, a curta viagem foi uma verdadeira aula de Engenharia Civil, tema: construção de pontes. O rio Giraúl é um potente rio durante a época das chuvas, ficando quase seco na época do cacimbo. Assim o encontrámos, sem conseguir sequer chegar ao mar. Um banco de areia barrava-lhe o caminho, formando uma bela paisagem que nós admirámos do cimo das falésias rochosas. Talvez pelo vento que se tinha levantado, a zona esta a sofrer uma invasão de libelinhas.

A hora do almoço aproximava-se e fomos para o centro da cidade para um bairro de casinhas coloniais onde se instalou Filipa Henriques, tendo ali montado o restaurante Tubiacanga . Desculpe? Tubiacanga ? Isso não é nome de novela brasileira? Certo. Nos anos 90, a novela passava na televisão angolana. A vida de Filipa Henriques estava muito difícil. Ela revia-se naquela novela. E disse: Se algum dia tiver um negócio próprio vou chamá-lo Tubiacanga . Entretanto perdeu o emprego e começou a fazer pastéis e bolas de Berlim. O negócio começou a render e Filipa Henriques abriu uma pequena tendinha no r/ch da sua casa que foi crescendo e crescendo chegando ao restaurante que tem hoje em funcionamento. Ela própria dá formação aos seus empregados, da cozinha e da sala. O almoço que nos serviu foi muitíssimo bom: de lagostas (enormes!) a caranguejo, a calulu de peixe com funge, passando por lulas recheadas e muitas outras iguarias, não esquecendo as sobremesas.

De barriga cheia fomos conhecer o deserto de areia ali mesmo na cidade. Parámos na praia para um refrescante banho, infelizmente só aproveitado por uma meia dúzia de participantes. Às 17h, um pequeno grupo separou-se da caravana e foi até à igreja de Santo Adrião para participar na missa.

A primeira pedra desta igreja foi lançada oito dias antes da chegada da 1ª colónia de Pernambuco (Brasil), em 1849.  A exigência de um templo foi solicitada por Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (chefe da expedição), ainda no Brasil, como condição para a partida. 

Nesta igreja estava reunido um grupo de carismáticos e a missa estava a ser celebrada pelo bispo. Foi uma missa muito vivida, muito intensa que continuou para lá da celebração. À saída, as pessoas juntaram-se no adro e começaram a cantar, a dançar e a louvar o Senhor. É grande a religiosidade deste povo.



3º dia do VIII Raid do Kwanza Sul: Lobito - Namibe (423 km)

Hoje foi o primeiro dia com picada. Uma picada ainda simples, mais pista de terra batida do que picada propriamente dita.
Antes de sairmos da cidade, demos uma volta pela famosa restinga do Lobito, durante a qual nos lembrámos da nossa colega Flora Carvalho, pois quando lá tínhamos estado em 1974 durante a viagem de finalistas do Instituto de Odivelas ela tínhamos pedido para irmos visitar os Pais que lá moravam. É aqui que estão as belas praias do Lobito, orladas de palmeiras. Na rotunda da ponta da restinga, o padrão dos descobrimentos que ali tinha sido colocado durante a época colonial foi substituído por um barco. Alguém nos disse que este barco tinha sido o que o atual Presidente da República, José Eduardo dos Santos tinha utilizado para a sua fuga de Angola após a eclosão da luta contra o poder colonial português em novembro de 1961 – uma informação que não conseguimos confirmar.
Seguimos para a bela Benguela, uma cidade que teve o seu início, como já vimos, na atual Porto Amboim. Em 1617, Manuel Cerveira Pereira fundou a atual cidade de Benguela. Vivia-se em Portugal a chamada União Ibérica; dois anos antes, Filipe II mandara separar o Reino de Benguela do resto de Angola por causa das grandes minas de cobre, tendo a região sido administrada autonomamente até 1869. Benguela esteve também metidas na guerra entre a coroa espanhola e a holandesa, tendo sido ocupada por forças da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais entre 1641 a 1648.
A nossa passagem pela cidade foi muito curta, somente para se ficar com uma ideia de como está a cidade atualmente. A caravana seguiu para Dombe Grande e para o rio Cimo onde entrámos na picada até Lucira. Os primeiros quilómetros foram terr´´iveis com muita pedra sola. Os primeiros carros começaram a ficar atolados. A uns 20 km de Lucira, a estrada volta a ser alcatroada.
Em latim, “lucira” significa “lumiosa”. Terá sido essa a explicação para o nome desta vila piscatória? No tempo colonial, ali foi construída uma fábrica de conservação de peixe que após a saída dos Portugueses ficou parada e ao abandono. O governo está agora a recuperar essa antiga fábrica para ali fazer uma  unidade de congelação de pescado.
Aqui em Lucira juntaram-se ao grupo de raidistas a São e o Lanucha que presenteou o grupo com um passeio de traineira pela bela baía de Lucira, incluindo a gruta com a imagem de Nossa Senhora. A ideia seria boa, não fora a traineira cheira tanto a peixe que misturado com o odor a óleo e a gasóleo, fez com que alguns de nós enjoassem.
De novo em terra, e com os pés firmes, pudemos ficar a ver os gaiatos a mergulhar para a água – e alguns de nós não se fizeram rogados e refrescaram-se também nas belas águas da baía.
Mas não havia tempo para descanso. Se bem que só faltassem 132 km para o Namibe e estes serem feitos por estrada asfaltada, tínhamos que nos despachar pois ao final da tarde teríamos de estar presentes no lançamento da monografia “Namibe, terra da felicidade” na cidade do Namibe.
Quando chegámos ao palácio do governador, um grupo folclórico esperava-nos para nos dar as boas vindas com algumas canções e danças da região. Interessantes eram os sapatos dos homens que tinham na sola uma série de latinhas que iam fazendo música à medida que dançavam.
Lá dentro seguiu-se a apresentação do livro - http://www.uccla.pt/noticias/lancamento-da-monografia-namibe-terra-da-felicidade - com todo o protocolo – ninguém podia entrar no palácio do governador sem calções ou de tops de alcinhas – que foi intercalada com música e danças. A receção terminou com uma belíssima e farta receção onde não faltou o sumo de múcua e missângua.


Mesmo já “atestados”, não nos fizemos rogados para o jantar no Clube Náutico onde nos pudemos deliciar com o famoso caranguejo do Namibe. Uma delícia!

quinta-feira, 19 de junho de 2014

2º dia do VIII Raid Kwanza Sul: Luanda-Lobito (599 km)

 Noite curta. Partida do hotel às 6h30. O autocarro era pequeno demais para todos os participantes. Foi difícil conseguir enfiar todas as pessoas mais a bagagem mas por fim lá partimos para Talatona onde estavam os nossos jipes. Senti-me numa verdadeira lata de sardinhas!
Os nossos jipes, novinhos em folha, com somente 112 km do conta-quilómetros, esperavam por nós nas instalações da Robert Hudson, uma empresa do Grupo Salvador Caetano que representa a Ford em Angola.
A bagagem de todos os participantes foi distribuída pelos dois jipes com canópia: o nº 9 e o nº 11, que os tinha sido atribuído. Saímos da Robert Hudson às 8.30 em formação por ordem numérica. Não fomos porém longe: logo aí, ainda em Talatona, os 17 jipes foram atestar numa bomba da Sonangol.
Finalmente estávamos prantos para arrancar em direção ao sul. Eram 9h23. O trânsito em Luanda estava caótico como habitualmente. Até aqui nada de novo. O importante era mantermos-mos na coluna, mas havia sempre uns abelhudos e uns candongueiros atrevidos que tentavam avançar a todo o custo.
Pouco depois da Ponte Molhada, uma ponte de recebeu este nome pois fica sob, em vez de sobre, a água com chove muito (!), o trânsito começou a melhorar. Calmamente chegámos ao Miradouro da Luz, um local fantástico onde a erosão esculpiu maravilhosamente as falésias, dando-lhes formas diversas que realçam devido à diversidade das cores da areia. Foi também aqui a estreia da chamada “casa de banho entre portas”.
Logo a seguir, passámos o rio Kwanza, pela ponte construída no início dos anos 70 do século XX e recuperada há alguns anos. Uma ponte com portagem! Um a um, os jipes paravam, recebiam o recibo mas não pagavam. O pagamento foi feito na totalidade pela organização.
Deixávamos para trás a província de Luanda e do outro lado da ponte entrámos na província do Kwanza Sul que dá o nome ao nosso RAID.
A estrada asfaltada continuava, mas já nada da confusão de Luanda. Deixou de haver lixo à beira da estrada, mas lindos imbondeiros, grandes e pequenos, mais largos e mais estreitos. Tínhamos chegado à zona da árvore mítica angolana.
Passagem rápida por Porto Amboim, a cidade que está geminada com Almada desde 1997. Quando aqui chegaram em 1587, os portugueses deram o nome de Benguela, mas abandoram o povoado pouco depois. Voltaram quase dois séculos depois, batizando a nova localidade de Benguela Velha. A povoação é elevada a vila em 1923 e muda o nome para Porto Amboim, passando a ter o estatuto de cidade no início de 1974.
Seguimos para Sumbe, a antiga Novo Redondo, onde almoçámos lindamente num restaurante mesmo em cima da praia. Gostaria de ter tomado o meu primeiro banho nas águas angolanas, mas os locais desaconselharam-me por a água estar muito barrenta. Já tínhamos percorrido 329 km.
Reconfortados com uma caldeirada de cabrito e outras delícias, seguimos rumo à província de Benguela. Ao passar uma ponte, vimos um grupo de mulheres a lavar a roupa e os respetivos filhos a brincar na água. Toda a caravana para para tirarmos fotografias.
 Ao final da tarde, no meio da confusão da hora de ponta, chegámos ao Lobito.
A origem do nome da cidade, que chegou a ser elevada a concelho em 1843, vem do substantivo pitu, antecedida da partícula classificativa olu; assim teríamos OLU+PITU, a “porta, o passadiço, a passagem “ que as caravanas de carregadores, ao descer dos morros vindos do interior, percorreriam, antes de atingirem a “praça comercial” da Catumbela. Com o uso continuado e o tempo, tal substantivo comum passaria a nome próprio, pelo que iria perder o “o” inicial, logo Lupitu que acabou por ser aportuguesado para Lobito.

O jantar foi no restaurante em frente do hotel, com muito marisco e especialidades angolanas.  Já no final, um grupo folclórico local veio dançar, cantar e tocar para nós. Estavam pintados com as pinturas que se fazem por altura da festa da inicial feminina e masculina. O curioso: numa das danças, as mulheres, bastante mais fortes que os homens, lançavam os homens pelo ar.
Depois do jantar, o Hans-Jürgen e eu apanhámos a boleia dum espanhol amigo do Manuel Laranjeira, da Câmara de Almada, e fomos até ao Hotel Términus onde os meus Pais passaram a primeira noite quando a minha Mãe chegou da metrópole.
O hotel Términus foi inaugurado a 29 de Dezembro de 1932, no seguimento duma política de expansão dos caminhos de ferro. O decreto concedendo a Robert Williams, engenheiro escocês que foi grande colaborador de Cecil Rhodes, autorização para construir e explorar uma linha férrea da baía do Lobito á fronteira leste de Angola foi assinado a 28 de Novembro de 1902, tendo sido a concessão feita pelo prazo de 99 anos. Tinha nascido a Companhia do Caminho de Ferro de Benguela SARL (CFB).
A gerência do hotel foi entregue à Wagon-Lits, em exploração conjunta com o CFB, sendo obrigada a prestar um bom nível de serviço. A tema da abertura foi assertivo: “Para dignificar a cidade do Lobito perante os passageiros que desembarcavam ou embarcavam no Lobito”. A cidade era conhecida como a “sala de visitas de Angola” tendo no Hotel Términus o seu ícone de referência.
Durante o longo período da guerra passou por várias etapas, tendo albergado cidadãos cubanos durante bastante tempo após o que esteve encerrado durante os últimos anos de conflitos.
A 28 de Novembro de 2001, em cumprimento do contrato de concessão, procedeu-se na Direcção Geral do CFB, à cerimónia do Ato de Entrega ao Governo de Angola, rubricado entre as partes pela cessante CFB e pelos representantes do Governo de Angola, que ficou subrogado de todos os direitos do concessionário, entrando imediatamente na posse do Caminho de Ferro, com todo o material circulante, edifícios e dependências, incluindo portanto o Hotel Términus, denominado Edifício 622.

A 3 de Janeiro de 2005 foi aprovada a privatização total dos bens móveis e imóveis, bem como as áreas adjacentes, indispensáveis á expansão do Hotel, pertencentes ao CFB, a favor da IMOGESTIN SA. que reabilitou o lendário Hotel Términus, preservando a sua traça e identidade originais e devolvendo-lhe a sua grandeza e imponência de outrora. O hotel Términus continua assim a ser um edifício histórico e um hotel emblemático, sem igual em todo o país. 
No hall encontrámos o diretor do hotel e, como o mundo é uma formigunha , era de Fronteira… O hotel está muito bem recuperado e voltou a ter o glamour antigo. Na esplanada da sala de jantar, ouviam-se as ondas de que a minha Mãe tanto falava. As paredes tinham fotografias antigas e assim pude imaginar com mais precisão o reencontro dos meus Pais.

Regressámos a pé ao nosso hotel. Lobito é uma cidade tranquila onde se pode passear a pé e como a noite estava muito agradável foi um verdadeiro prazer.

1º dia do VIII Raid do Kwanza Sul: a viagem de Lisboa a Luanda

A partida
Muita foi a minha admiração quando recebi um email a informarem-nos de que deveríamos estar no aeroporto às 6h45. O quê?! Mas o voo não é só às 11h?! Para quê tão cedo.
Mas cumpridores como somos, chegámos ao aeroporto às 6h47. Quando nos aproximámos no balcão de check-in da TAAG, que só abriria às 7h, já a fila era longa. Bem, pelos vistos, os viajantes para Angola gostam todos de madrugar. Pusemo-nos numa fila para grupos e a dada altura chegou a vez de o nosso grupo fazer o check-in das bagagens. A fila normal era cada vez maior. Apesar de termos feito o check-in em casa, não tinha olhado para o cartão de embarque. Foi só quando a funcionária mo devolveu com as etiquetas da bagagem é que me saltou à vista a hora de embarque: 9h50! Espanto novamente: como 9h50? O voo não é às 11h?
Mas a TAAG conhece a rapidez dos seus procedimentos e os seus passageiros. O avião tinha uma posição remota, isto é, não tinha manga, e os passageiros do 777-300, que ainda por cima estava overbooked , teriam de chegar ao avião de autocarro. Entrámos no avião às 10h, mas os últimos passageiros só chegaram perto das 12h! Partimos às 12h15 com 75 minutos de atraso – e apesar de nos ter sido pedido para fazer o check-in das bagagens com uma antecedência de 4h15!!!!

O voo
A arrumação dos passageiros dentro do avião também não foi fácil. A maioria traz muita bagagem de mão, bem além do volume com 5 kg permitido. Conseguir colocar todas as malas e malinhas, sacos e saquinhos, casacos e compras das lojas francas nas bagageiras superiores é um ótimo exercício de logística que nem os passageiros nem o pessoal de bordo domina. Passageiros passeiam-se com a sua bagagem de mão pelo avião à procura dum espacinho nas bagageiras onde a passam deixam – se procurassem outro seria mais fácil….. Vislumbram um espacinho minúsculo e logo pensam que têm o seu problema resolvido. O seu … têm, o dos outros não. E que muitas vezes deixam a bagagem com o rabo de fora o que impede que as bagageiras de fechem. Mais tempo perdido: as hospedeiras deslocam-se pelo avião para fechar as bagageiras, mas muitas recusam-se a fechar por estarem obviamente overbooked  tal como o avião. “Oh, não fecha!” Exclama então admirada a hospedeira. “Tenho de chamar o meu colega. Pode ser que ele consiga”. O colega vem, empurra um pouco a mala. A porta continua a não fechar. Pergunta a quem pertence a mala. Pelos vistos a ninguém, porque ninguém se acusa. Eu diria que será de algum passageiro lá de trás mas como o descobrir? O comissário tira tudo o que está na bagageira… para voltar a pôr lá tudo. Volta a tentar fechar. Continua a não fechar. Decide finalmente retirar a mala e tentar encafuá-la noutro sítio. Assim se compreende como o voo atrasa.
Bem, finalmente, foi anunciado que o embarque estava terminado. Portas em crossed check. Começam os anúncios de segurança. Estranhei não terem pedido aos passageiros sentados na fila de emergência com os televisores  de pôr e tirar que os guardassem. Será que iriam permitir a descolagem com os aparelhos de fora?  Mesmo antes da descolagem, um comissário foi coloca-los um a um nos seus “esconderijos” nos assentos.
Prontamente foi servido o almoço. A escolha do prato principal era pescada cozida com batatas (quem é que se lembra de oferecer um prato de dieta a bordo?!) e novilho com massinha. Decidi-me por este e por vinho tinto para o acompanhar. A entrada de salmão fumado não foi má. Agora o prato principal foi horrível. A camada de baixo da massa estava… encruada e a de cima …. seca do  forno. As couves de Bruxelas desfaziam-se de tão cozidas que estavam. Os pedaços de novilho estavam gelatinosos. A sobremesa era um “wanna-be” bolo da floresta negra com um sabor muito artificial. O que salvou o almoço? O pãozinho com manteiga e as bolachas de água e sal com queijo La vache qui rit.
Durante um tempo houve turbulência. Os anúncios para que as pessoas se sentassem e pusessem os cintos de segurança foram feitos em duas ocasiões… só em português… Ora, os estrangeiros que soubessem a língua de Camões!

A chegada
Angola igual a sempre. O avião aterrou às 19h10. … mas só saímos do avião lá para as 20h. O caminho para aviões é curto mas como só circulavam dois autocarros a saída foi demorada.
Ao chegar ao terminal, deparámo-nos com as habituais longas filas para o controlo dos passaportes – filas que começavam fora do edifício.
E mesmo assim, como toda esta lentidão, a entrega das malas foi igualmente lenta e demorada. Finalmente, com todas as malas em nosso poder, saímos do terminal onde nos esperava já a Elsa da Câmara de Almada e o Pedro Cristina que organizou o raid.

Devido ao adiantado da hora, a ida para o hotel foi rápida, sem os habituais engarrafamentos de Luanda. Jantar, 1º briefing e cama. Amanhã começa verdadeiramente a aventura.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A aventura angolana pode começar

Os sacos estão prontos. Sacos, sim. Saco e não mala para melhor se poderem arrumar nos jipes. E sacos no plural pois temos de levar saco-cama e algo mais de subsistência, uma vez que vamos para o deserto do Namibe (deserto de Moçâmedes quando andei na escola) e durante 4 dias estaremos em auto-piloto, longe e tudo e de todos.

Depois de amanhã a aventura começa. Na realidade já começou, pois a ida ao consulado para pedir o visto faz parte da aventura sempre que se viaja para Angola. As exigências do governo angolano para o visto vão desde a famosa “carta de chamada”, nome horrível, pois a mim ninguém me chamou, sou eu que quero ir passear por Angola (quanto muito foram as paisagens angolanas que me chamaram), à apresentação do extrato bancário, requisito que desta vez não foi exigido por irmos no âmbito da projeto de cooperação entre Almada e o Kwanza Sul. O pedido de visto agora é presencial, toda a gente tem de ir ao consulado para tirar os dados biométricos. Outra aventura. Filas, espera, espera e espera. Vamos de guichet em guichet, intercalando com momentos (grandes!) de espera na sala de espera definitivamente pequenas para todos os que necessitam de tratar assuntos no consulado.

A segunda aventura foi a ida à TAAG pagar o bilhete. Telefonámos para a Central de Reservas disponibilizada para nos informarmos do horário de abertura e a resposta foi bem clara: “Das 8h às 15h”. No dia seguinte, um pouco antes das 9h lá estávamos nós à porta da TAAG. Fechada, claro, pois o horário lá colocado dizia “Das 9h às 16h”! A emissão do bilhete foi como um parto difícil, mas nós como mulheres sabemos o que isso é. Respira-se de alívio quando tudo está despachado.

Bem, agora com os sacos prontos, o passaporte com visto, o boletim de vacinas e o bilhete na mochila, já podemos ir para o aeroporto e começar o nosso raid que nos vai levar de Luanda até à foz do Cunene, às quedas do Ruacaná, ao Huambo (a Nova Lisboa onde nasceu a minha irmã), ao Lobito, ao Lubango e a muitas outras paragens maravilhosas.


Sempre que pudermos, aqui contaremos as histórias da nossa aventura.